Dilvulgação.
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A maratona de Carlos

Mas as quase seis horas do filme de Olivier Assayas parecem passar voando

Luiz Carlos Merten / RIO, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2010 | 00h00

Foi uma maratona e tanto. Na apresentação de Carlos, na terça-feira, a diretora artística do Festival do Rio, Ilda Santiago, regozijou-se por estar diante de uma plateia quase lotada e disposta a enfrentar as mais de cinco horas do (tele)filme de Olivier Assayas sobre o lendário terrorista que fez história nos anos 1970 e 80. "Numa época de comunicação veloz e linguagens aceleradas, é bom que exista público para uma proposta dessas." Ao lado dela, o produtor Raphael Cohen, substituindo o diretor Assayas, prometeu que o tempo ia passar voando. Foram seis horas. A sessão, iniciada às 18 horas, terminou após a meia-noite, com um pequeno intervalo. Parte do público saiu. Os que ficaram até o fim foram contemplados com um dos grandes filmes do festival.

Carlos desencadeou uma controvérsia na França. Era, de longe, o melhor filme da seleção francesa no Festival de Cannes deste ano - incluindo Tournée, de Mathieu Amalric, duplamente premiado, pelo júri e pela crítica. Mas o diretor artístico Thierry Frémaux não teve coragem de bancar a presença de Carlos na competição. O filme, feito para TV, teve direito a tapete vermelho, mas passou fora de concurso. Na entrevista que deu ao repórter do Estado, Assayas disse que a TV lhe deu mais tempo de duração - o filme foi exibido em capítulos na França -, mas acrescentou que não teria filmado de maneira diferente, se a produção tivesse sido feita para cinema.

Quem espera de Assayas uma condenação sumária do terrorismo quebra a cara. Como autor, ele pode ser crítico em relação ao personagem, mas não o julga. Carlos, manipulador e manipulado, é um produto da geopolítica de sua época. É o que ele diz ao ministro árabe do petróleo, a quem sequestra durante o encontro da Opep, em Viena. Carlos anuncia que vai matá-lo e espera compreensão. Seu discurso aponta para o fim de uma época. Assayas filma bem demais (as cenas de ação, inclusive). Usa uma trilha heavy metal que incrementa ainda mais o filme. E o ator venezuelano Edgar Ramirez, que faz Carlos, é poderoso. Logo no começo, Carlos, qual Narciso, o protagonista tira a roupa e vai para a frente do espelho. Nu frontal, com genitália e tudo. Admira o próprio corpo, toca seu sexo. Mais tarde, ele dirá a uma de suas amantes que as armas são extensões de seus braços. O nu faz sentido, dramaticamente. Outra cena, depois, vai mostrá-lo gordo, fora de forma, destruído pela inatividade. Carlos pode até refletir, pensar, mas representa, acima de tudo, a ação, num mundo feito de interesses e alianças.

Cannes. Há uma versão reduzida, de 150 minutos. Cohen disse ontem que, depois de Cannes, o Rio é o primeiro festival a exibir a íntegra de Carlos. Reze para que o filme também vá inteiro para São Paulo. Deve ir - Leon Cakoff e Renata de Almeida o amaram, em Cannes. Um letreiro informa que existe pouca documentação comprovada sobre Carlos. O filme se assume como ficção. Mas existem muitos retratos de figuras reais aqui no Festival do Rio. Gretchen, Nélida Piñon, Mário Filho, Nana Caymmi, Sam Peckinpah. José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, descreve o processo de criação do escritor português José Saramago, a partir de sua relação com a mulher, a jornalista espanhola, Pilar Del Rio.

É muito interessante, e não é preciso ser fã de carteirinha do autor português, vencedor do Prêmio Nobel, para apreciá-lo. Mendes acompanha o processo de produção e lançamento do romance A Viagem do Elefante. Deixa o espectador com a sensação de que a espartana Pilar matou Saramago de tanto trabalhar. No fim, ela passa uma sensação de arrependimento, por ter sido tão dura com o marido. Todos que conviveram com Pilar no festival a definiram como doce, simpática. No filme, não é assim. É um ato de coragem que ela participe do lançamento do filme, por amor, porque o amava, ao marido.

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