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A máquina e o primeiro amor

Outro dia, mostrei uma máquina de escrever a um grupo de (quase) adolescentes. Observaram, depois tocaram o pequeno objeto azul e prateado, que jazia ao lado do estojo preto.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2016 | 02h00

“Isso aí imprime?”

Você escreve e imprime ao mesmo tempo, respondi.

A fita era velha, do século passado; mesmo assim, datilografei cinco letras: as marcas cinzentas na folha branca formaram a palavra “tempo”. Eles riram, examinando o objeto como se fosse um totem. Mas não era nem foi um totem, e sim uma musa sempre presente, companheira cotidiana, inseparável. Com ela saí do Brasil numa noite da década de 1970; moramos juntos num quartinho em Madri, depois num apartamento modernista em Gracia, no coração de Barcelona.

Fracassamos juntos no primeiro manuscrito de uma pretensa ficção; quer dizer, eu fracassei, pois enquanto escrevia, ela me alertava: isto não é um romance, é uma reportagem adaptada... Fuja dos fatos, invente personagens com alma e corpo, ou só com alma e rosto.

Teimoso (a teimosia é um vício terrível), ignorei as advertências da musa, reiteradas por um amigo argentino, exilado na Espanha.

“E se você quiser cortar umas frases...? Tem que escrever tudo de novo?”

Sim, tudo de novo.

“Perda de tempo”, resmungou um menino, impaciente.

Mas naquela época ainda se perdia tempo, pensei. E o tempo perdido parecia fora do tempo, que é o tempo do sonho e do prazer.

Recordei as primeiras aulas de datilografia no porão de uma casa manauara, perto do Luso Sporting Clube. Eu era o único curumim numa sala de cunhantãs, mas isso não me envergonhava. E ali, entre o Luso e a Escola Normal, moravam duas irmãs, amigas de minha irmã. Uma, rechonchuda e baixinha, sorria com uma alegria solar; parecia desconhecer a angústia e a aspereza da vida. É provável que uma pessoa muito deprimida, ao lado dela, encontrasse algum sentido à vida. Mas eu não era esse deprimido, e sim um tímido fascinado pela irmã dessa Eufrosina do Amazonas.

Alta e esguia, essa irmã mais velha era séria, fechada feito um cofre. Não sabia, até hoje não sei o que guardava aquele cofre. Eu emergia do porão e passava em frente à casa das duas irmãs, com a esperança de ver o rosto misterioso na varanda. Quando dava sorte, o rosto olhava para mim e sorria, mas era um sorriso também guardado, talvez condescendente: os lábios se separavam e se alongavam um pouco, e eu via nessa morosa dança labial uma remota promessa de amor. O tempo me revelou que era apenas um aceno para o irmão de uma amiga.

Mal sabe ela quantos poemas escrevi para o seu sorriso, o rosto e o corpo inteiro. Poemas e cartas datilografados no porão mais úmido de Manaus, onde eu cruzava a fronteira da infância com a juventude: fronteira imaginária, mas a travessia era real, com seus perigos e prazeres.

Eram cartas e poemas ridículos. Anos depois, li os famosos versos de um poema de Pessoa: “Todas as cartas de amor são/ Ridículas./ Não seriam cartas de amor se não fossem/ Ridículas...”.

A barulheira dos (quase) jovens ao redor me tirou desse devaneio. Dedos fortes batiam no teclado e escreviam letras invisíveis. Mais um pouco, arrebentariam a musa de metal. Não sabem datilografar, esses moleques. E ainda não sabem nada do amor... Mas será que alguém sabe, de verdade?

 

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