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Ruth Manus
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A mão invisível

Seu pai era isso: uma presença constante, não importava qualquer tipo de distância

O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2018 | 02h00

A foto era fantástica, não dava para negar. E ela a adorava desde criança: ficava ali, pendurada no mural como um verdadeiro trunfo. Porém, depois de adulta, passou a ter um leve incômodo em relação àquela imagem: ela, bebê, sozinha em cima do cavalo escuro, careca, pouco firme, com seus 10 meses e seu macacão azul-claro. Quem seria negligente a ponto de deixá-la ali? Quem teria a frieza de bater a foto de longe, sabendo dos riscos da situação? E se ela caísse? E se o cavalo saísse galopando?

Ela, embora nunca tenha deixado de gostar da foto, não gostava de olhar para si naquelas condições de vulnerabilidade, sobretudo tão pequena. Sentir-se vulnerável é sempre algo indigesto, seja qual for a idade. Aquela foto inconsequente nem tinha cara de coisa dos seus pais, sempre tão centrados e tão sensatos. Mas a vida seguiu, e a foto ficou lá.

Até que um dia, anos depois, observou a imagem com mais calma. Descobriu, surpresa, que entre as patas do cavalo, via-se, confundindo-se com os tons amarronzados da terra, as pernas do seu pai, vestindo uma calça cor de café com leite. Foi então que ela, pela primeira vez, se esforçou para olhar para sua imagem de bebê com mais atenção. Na dobra entre a coxa e a barriga, via-se, por fim, uma parte do dedão do pai, na horizontal, com a mão que dobrava na sua cintura, deixando os outros quatro dedos nas costas. Sim, ela estava segura. Ela sempre esteve segura.

Foi só adulta que ela realmente entendeu a foto, depois de anos naquele sutil mal-entendido. O pai esforçou-se para se esconder atrás do lombo do cavalo, dando a ela os créditos da firmeza – e isso tinha mesmo cara de coisa dele. Mas o fato era que ele estava ali, a postos. Não havia qualquer perigo. Sorriu devagar olhando para a imagem, enquanto acariciava a fotografia, e começou a pensar como aquela cena, no fundo, vinha se repetindo pelos anos e se consolidava em sua vida, décadas depois.

Pensou que é relativamente fácil ser amor na presença. Quando se está perto, visível, evidente, não é difícil ser o suporte, o porto seguro, embora muitos, mesmo assim, não o sejam. O difícil é mostrar-se como lar quando não há presença física. Isso, poucos conseguem. Raros são o que estão ali, absolutamente presentes, na foto ou na vida, quando, de alguma maneira, não podemos vê-los.

E seu pai era isso: uma presença constante, não importava qualquer tipo de distância. Sabia que, estivessem eles onde estivessem, estavam perto um do outro. Ainda que ela não pudesse tocá-lo, sua mão segurava-a, no cavalo e na vida, aos 10 meses e aos 30 anos. Ela sabia que estava segura sempre, fosse qual fosse o trajeto.

Também era curioso pensar que a maioria dos pais faria questão de sair na foto, de peito inflado, ao lado da filha e do cavalo, demonstrando estar no controle, ser o responsável, o provedor. Mas ele não. Ele queria que ela brilhasse sozinha. Queria que ela, desde criança, acreditasse que podia se segurar sem ajuda. Que podia cavalgar estrada afora sem medo. E que era ela quem estava no controle. 

Riu, com os olhos marejados e voltou para seu livro de economia internacional que a aguardava, antipático, na mesa. Coincidência ou não, na sequência vinha um trecho que fazia menção à mão invisível. Ela não sabia se Adam Smith teve, na Escócia do século 18, um pai como o seu, mas receava que não. Pesquisou. Adam Smith perdeu o pai, jurista como o seu, aos 2 meses de idade. 

Sentiu por ele. Isso não deveria acontecer com ninguém. Porque se ele tivesse tido, não acharia que a mão invisível é aquela que orienta a economia. Mão invisível seria, para ele, outra coisa. Uma coisa bem maior. Aquela mão paterna, que, mesmo fora dos nossos olhos, orienta a vida toda, de perto ou de longe. Aquela mão que está sempre lá.

 

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