A mancha de dendê no carnaval do Recife

Com ares de Salvador, desfile do Galo da Madrugada reúne 30 trios elétricos e multidão de 1,5 milhão

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo,

14 Fevereiro 2010 | 16h22

Lauro Lisboa Garcia/AE

 

RECIFE - Houve um período em que a música baiana foi oficialmente proibida no carnaval do Recife. O bom baiano Moraes Moreira até fez um frevo zoando com a medida radical: Proibir Pra Que? Nas voltas que o trio elétrico dá, ele acabou vindo fazer a folia no carnaval pernambucano quando a própria Salvador não estava mais tão acolhedora. Até que voltou ao carnaval de lá neste 2010, depois de uma década fora daquele circuito. Mas a Bahia deixou sua mancha de dendê, que a gente sabe que não sai, no carnaval do Recife sim - como de resto, em todo o País.

 

Se é bom ou ruim, é outra questão. Mas nesse ano que a grande invenção de Dodô e Osmar, o trio elétrico, completa gloriosos 60 anos, foi curioso ouvir Vassourinha Elétrica, de Moraes, no infernal desfile de 30 trios elétricos no Galo da Madrugada, ignorando a histórica rivalidade cultural entre os dois Estados. O genial frevo de Moraes, misturado ao hino do carnaval pernambucano, a irresistí vel Vassourinhas, fala justamente de como a Bahia assimilou a tradição do frevo, ligou na tomada e devolveu amplificada.

 

A milhas de distância dos blocos tradicionais que fazem a graça de Olinda, o Galo virou gigante. São quilômetros e quilômetros a perder de vista de tanta gente, que arrasta todo sábado de carnaval. A cada virada de esquina - principalmente nos três grandes polos de maior concentração - a imensa manada humana parecia aumentar. É uma coisa impressionante, sem fim. Os dados oficiais dão conta de 1,5 milhão, mas a impressão é de que havia muito, mas muito mais gente nas ruas, pontes e barcos. A sensação de sufoco, de aperto, é geral, pra quem tem experiência de sair no Galo no chão, ou mesmo (des)confortavelmente apinhado num camarote. Mas só quem percorre todo o interminável trajeto do desfile tem noção do panorama geral, do gigantismo da coisa. É uma doideira.

 

Lauro Lisboa Garcia/AE

Guitarista Luciano Magno no trio de Andre Rio, no desfile do Galo

 

Em vários bons carnavais baianos, já tive a oportunidade de acompanhar em cima de trios elétricos o Olodum, Daniela Mercury, Margareth Menezes e a Timbalada de Carlinhos Brown nos dois circuitos: o do Campo Grande e o da Barra-Ondina. Tendo isso como referência dos anos 1990, o Galo da Madrugada parece somar os dois. Virou muito mega. E a fama de maior bloco carnavalesco do mundo (!) tem seu preço. Os políticos aproveitam pra fazer campanha - José Serra, Dilma Rousseff e Ciro Gomes não perderam a oportunidade e estavam lá, com aquele ar de quem sorri comendo buchada de bode, sentindo um ataque de gafanhotos no estômago -, os patrocinadores entulham as ruas e os ares com propagandas, a música é uma mesmice só (reclama quem não foi), mas quem quer novidade no carnaval vai ao Rec-Beat (que é bom demais). Aqui na rua só dá hits que estão na boca do povo, que pula, transpira, paquera, se esfrega, se entrega, amassa, beija, acena, apalpa, grita, canta e bebe e bebe e bebe e bebe.

 

Que bloco é esse? Onde está o núcleo? Só ficou a sede, o resto se expandiu e se diluiu. Virou marca, vitrine. E todo mundo quer deitar na fama do bicudo emplumado. É tudo misturado, cada um ganha a massa - para a qual não importa o sentido da coisa, mas ter som pra pular - a seu modo. Teve frevo sim, dos bons, teve Alceu Valença, Elba Ramalho e até Luiz Melodia, mas este circuito é atípico e não reflete a reputação de "melhor carnaval do Brasil", que Recife faz questão de manter.

 

Fui convidado a percorrer todo o longo trajeto do Galo pelo cantor André Rio, um dos ídolos locais, que não é muito conhecido no Sudeste. Pelo menos em cima do trio, André tem uma pegada, digamos, quase baiana. Quando faz a multidão "sair do chão" gritando "ai que calooor, ai que calooor, ai que calooor" - refrão de um de seus grandes sucessos - é quase axé.

 

Oitavo da fila, o trio de André e seus convidados, começou a rodar às 9h30 da manhã, sob um sol causticante de 34 graus. E a multidão chegando, já entornando latinhas de cerveja aos cântaros àquela hora da manhã. Às 4 horas da tarde, quando finalmente o alucinado e incansável guitarrista Luciano Magno deu seus últimos acordes de efeito, a cantora Vanessa Miranda, que soltou a voz na maior parte do percurso, já estava rouca. Nenhuma nuvem no caminho. Sombra, só alguns segundos debaixo de um viaduto, onde as vozes em coro da multidão reverberam provocando o melhor efeito sonoro.

 

Lauro Lisboa Garcia/AE

Grupo fantasiado de 'Pinguins Retirantes' no Galo da Madrugada

 

A essa altura, Frevo Mulher (Zé Ramalho), País Tropical (Jorge Ben) e Bloco do Prazer (Moraes Moreira) e o Hino do Galo ("ei pessoal , ei moçada, carnaval começa no Galo da Madrugada"), de José Mario Chaves, já tinham sido repetidos umas quinhentas vezes - normal, é assim mesmo que a coisa funciona. Porém, a certa altura a diversão começa a bocejar. Por outro lado, foi uma boa oportunidade para ver a performance dos convidados de André Rio, como o refinado cantor e compositor carioca Pedro Moraes, que soltou sua bela voz em frevos tradicionais, e a cantora paraibana Diana Miranda, radicada na Suíça, que saiu do gelo para derreter neste forno com o pique energético de uma Elba Ramalho.

 

Cada vez que começavam os acordes de A Praieira (Chico Science) era uma comoção geral, quase tanto quanto se tocava Vassourinhas. No meio do caminho, entre uma paradinha ou outra, por conta do congestionamento de trios e gente na rua, ou para as emissoras de tevê fazerem seu link ao vivo, encontramos Spok, Silvério Pessoa e Lula Queiroga - grandes talentos pernambucanos -, copos com líquidos amarelos nas mãos, subindo numa grua para interagir com o cantor.

 

Do alto se via o de sempre, aperto, empurra-empurra, desmaios, detenções, umas brechas que quem está no chão não enxerga, sacadas de prédios e camarotes entupidos de mais gente, muitas fantasias malucas, adolescentes que mal conseguiam se equilibrar com a latinha na mão, mas também muita alegria (obviamente) e, apesar de tudo, uma certa predisposição à não-violência, que o carnaval da Bahia perdeu há um bom tempo. Digamos que foi uma experiência única, em duplo sentido: pelo inusitado para quem nunca tinha passado por isso (como é o caso de Diana) e também para não querer repetir. Porque no próximo carnaval vai ser tudo igual. Como disse um produtor local, é só publicar as fotos do ano passado que ninguém vai perceber a diferença.

 

O repórter viajou a convite da organização do carnaval do Recife

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