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A mala no meio da sala (vida/vida)

O ideal seriam duas, três, quatro vidas. Vida treino, a vida vida, a vida final de campeonato...

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2022 | 03h00

A mala no meio da sala era tão desgraçada que aquela despedida não deixava de ser cômica. Talvez eles até tivessem algo divertido para recordar antes de tudo acabar. Talvez.

O casamento não resistiu aos dois anos de pandemia. Rodrigo e Joana eram dois corpos que ocupavam o mesmo lugar no espaço, mais especificamente um apartamento de 50 metros quadrados no bairro de Pinheiros – com sala, um quarto, cozinha americana, banheiro e nenhuma varanda. A janela da sala dava para uma parede branca. 

O relacionamento perdeu a cor. Os computadores compartilhados, o ‘bom dia’, o ‘boa noite’, o barulho da descarga, a briga pelo controle remoto e outras miudezas detonaram aquele amor.“Ah, mas então não era amor”, diriam as cocotas do romance alheio. 

Era amor. Mas enferrujou. Era amor. Mas descascou. Foi se desmanchando, desfazendo, dissolvendo feito vitamina C em um copo d'água.

Era como uma bala de menta que vai morrendo na boca. E que deixa um gostinho antes de desaparecer por completo. Mas se esvai, vai, vai... 

Era um amor banana-da-terra que amadureceu cedo demais. Era amor. Mas já deu o que tinha que dar. Uma série que chegou em sua última temporada sem mais nenhum fôlego para ser renovada. 

Ninguém brigou. Rodrigo não traiu. Joana não matou. Nada de muito emocionante aconteceu naqueles dois anos. 

Quando a pandemia abriu uma fresta mínima na vida da gente, os dois decidiram investigar. Lá fora, muita coisa gritou ao mesmo tempo: o mundo das aleatoriedades, do frio na barriga, da primeira vez, do esbarrão, do tesão e dos encontros casuais.

A vida é uma só. O ideal seriam duas, três, quatro vidas. A vida treino, a vida/vida, a vida final de campeonato, a vida ‘The Last Dance’ e outras artimanhas. Mas, posso cravar, Rodrigo e Joana, só foram agraciados com a vida/vida. Eles só tinham aquela vida para se agarrarem e para, ao fim e ao cabo, não se arrependerem. 

Um dia, sentados no sofá, entenderam que era hora de acabar. Colocaram um ponto final. Um vinho, uma noite de sexo (não de reconciliação, mas de celebração) e uma pequena divisão entre aquilo que foi conquistado e recebido ao longo dos últimos cinco anos. 

A mala no meio da sala era tão desgraçada que aquela despedida não deixava de ser cômica. Talvez eles até tivessem algo divertido para recordar antes de tudo acabar. Talvez.

Rodrigo saiu sem bater a porta. Foi delicado. Joana esquentou um café e abriu um livro. Mais tarde, quem sabe, ligaria para uma amiga.

* Gilberto Amendola é repórter do Estadão e observador da vida urbana

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