A majestade de Brunckner

Com a Orquestra do Maggio Musicale Fiorentino, maestro realizou apresentação impecável

O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2012 | 03h09

Em estado de graça. É assim que os metais e sobretudo as trompas precisam estar durante a execução inteira da Quarta Sinfonia de Bruckner. Pois eles permanecem no primeiro plano praticamente desde o singelo intervalo de quinta das trompas que abre o movimento inicial até a reexposição do movimento final, em que trombones e tuba retomam o motivo gerador desta sinfonia majestosa, de uma hora de duração.

Os admiradores de Bruckner exaltam suas nove sinfonias como "catedrais sonoras" e os detratores, como Brahms, que as chamou de "jiboias sinfônicas", possivelmente com uma ponta de inveja, porque Bruckner opera com temas de uma simplicidade acachapante para construir grandes blocos com bruscas mudanças, desprovidos da lógica que Brahms tanto amava.

Ingênuo e tosco, o autor destas catedrais sempre foi esnobado pela 'intelligentsia' vienense. Em 1883, dois anos depois da estreia bem-sucedida desta sinfonia, dedicou-a a Franz Liszt, que esqueceu o manuscrito num quarto de hotel na cidade, imaginem. Retirou a dedicatória, claro. Mas ele também tinha muito humor. Onze anos depois, quando lhe contaram que o maestro Hans Richter, que recém-estreara sua oitava sinfonia, vivia assobiando seus temas pelas ruas, comentou: "Coitado dele se o Hanslick souber disso!" (Hanslick era o crítico que amplificava e defendia ferrenhamente as posições de Brahms no Neue Freie Presse, maior jornal de Viena).

Musicalmente, o organista de província era magnífico, inovador, e suas sinfonias constituem passagem obrigatória para Mahler e a música do século 20. Dietmar Holland, num comentário sobre a quarta sinfonia, indica que "o motivo para a trompa com o característico intervalo em quinta representa uma forma original harmônica e pré-temática (...). Assim nós nos tornamos testemunhas do surgimento da própria música, do constante manifestar-se de seus contornos". Verdadeiro. Ao ouvir uma sinfonia de Bruckner, parece que assistimos ao próprio nascimento da música.

A impecável e empenhada regência de Zubin Mehta, anteontem à noite na Sala São Paulo, só construiu uma interpretação memorável da mais popular entre as nove sinfonias de Bruckner porque teve a inestimável colaboração dos excelentes metais da Orquestra do Maggio Musicale Fiorentino. Além destes, as madeiras também estavam irretocáveis.

No geral, aliás, superou as expectativas a performance da orquestra italiana, com cordas ajustadas e de belas sonoridades e afinação. Os músicos se impactaram, com certeza, pelo domínio absoluto de Mehta, aos 76 anos em plena maturidade e regendo tudo de cor.

Na primeira parte, outro triunfo do famoso maestro. Ele foi capaz de nos apresentar uma das sinfonias mais conhecidas de Mozart com um frescor e uma vitalidade difíceis de se resgatar hoje em dia. Provou, como se isso ainda fosse necessário, que também com instrumentos modernos pode-se tocar Mozart com total adequação.

Crítica: João Marcos Coelho

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