A mais velha fórmula

O discurso de Dilma Rousseff na ONU na quarta-feira chamou mais atenção pelas diferenças de "estilo" em relação a seu antecessor do que pela semelhança de sua política externa e, mais importante, do que pelo contraste entre o que ela diz e o que seu governo faz, ou melhor, deixa de fazer. Errado. Como Lula, Dilma defende o Estado palestino e, ao mesmo tempo, não dá apoio a movimentos contrários a tiranos em nações como Líbia ou Síria. E, também como Lula, prega um discurso ao mundo e pratica outro em casa.

O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h07

"O desafio colocado pela crise é substituir teorias defasadas, de um mundo velho, por novas formulações para um mundo novo", discursou. Fui ler a íntegra do texto, porém, e não há ali nada que soe como "novas formulações para um mundo novo". Ela criticou países que não têm câmbio flutuante, como a China (quem diria, o PT que sempre foi contra o câmbio flutuante), e o protecionismo dos europeus, além de mandar recado para o modo como os republicanos dos EUA põem o interesse partidário acima do coletivo. Tudo isso é chapéu velho, ou melhor, já estava sob o boné usado por Lula desde 2003.

As contradições, por sua vez, são tão novas quanto antigas. É curioso, por exemplo, ver uma ex-guerrilheira dizer que sabe a importância da democracia e da liberdade, quando é mais do que sabido que a luta armada não sonhava com um país democrático e livre - o que, obviamente, não tem nenhuma relação com justificar a repressão militar, a supressão dos direitos humanos, e sim o contrário. E é quase uma desfaçatez ouvir dela críticas a medidas econômicas europeias que seu governo anda aplicando aqui no Brasil, como o aumento do IPI para importados e a luta pela volta da CPMF em nossos bolsos.

Dói ainda mais a menção de interesses partidários se sobrepondo a interesses coletivos. Pois o que seu governo, como os governos anteriores nos 510 anos desde a descoberta do Brasil, mais faz é lotear o poder e o dinheiro público entre grupos políticos aliados, com incalculável prejuízo para o contribuinte e a democracia nacional. Alguns dias antes do discurso na ONU, ela tinha ido pessoalmente fazer média com o PMDB depois de diversas denúncias contra o ministro do Turismo - e substituído um afilhado de Sarney por outro.

Afinal, o que ela propõe para formular novas teorias diante da crise econômica que chegou com força nesta semana, derrubando a Bolsa e disparando o dólar? Lembro que em 2008 ela saudou o socorro ao mercado financeiro como uma "volta do Estado" (outra ironia, pois o PT foi contra o Proer). Mas é difícil imaginar teoria mais velha do que essa, a de que os gastos públicos são suficientes para tirar uma economia da crise, trocando inflação no curto prazo por crescimento no médio. O dinamismo do mercado hoje é muito superior ao dos anos 30, e mesmo naquela época o que mais salvou os EUA da Depressão foi o estímulo da Segunda Guerra à indústria siderúrgica e bélica. Os Estados europeus estão travados em dívidas, tal a carga de impostos e benefícios.

No Brasil não tem sido diferente. Pagamos quase 40% do PIB em tributos que não são devolvidos em educação, saúde, saneamento e justiça de qualidade, acessível às camadas mais pobres da população, e ainda pagamos os juros mais altos do mundo e custeamos uma inflação que está anualizada em 7%. Mesmo assim, o governo Dilma aumenta IOF nas operações de câmbio e baixa os juros, ignorando a obviedade de que a crise traria desvalorização do real e, portanto, impacto inflacionário. Com a desculpa de que aumentou as reservas financeiras, ela diz que o Brasil fez sua parte, como se não houvesse mais nada a fazer, e que nossos problemas vêm de fora.

O mundo é novo em vários aspectos, sim: é mais interdependente, multipolar, imprevisível. Mas a receita do poder à brasileira não poderia ser mais antiquada: distribuir o dinheiro do povo entre grupos de poder, como oligarquias familiares e sindicatos estatais, e não fazer reforma alguma (e só alguém muito ingênuo acha que tornar público o financiamento de campanhas eleitorais vai evitar a "praxe" do caixa 2). O absurdo vai a tal ponto que a ministra do Planejamento, confessando sem querer que o governo não planeja nada, diz que vai faltar mobilidade urbana durante a Copa de 2014 e que a solução é decretar feriado nos dias de jogos... Mal posso imaginar formulação mais velha na cultura brasileira. E ainda querem dar conselho para os outros.

Zapping. Vejo as premiações do Emmy e não consigo não comparar com o que vemos nos canais de TV brasileiros. Do agudo Mad Men não há muito mais o que dizer, depois de tantos anos, mas eu estava torcendo para O Império do Contrabando, cuja segunda temporada estreia por aqui em outubro. As qualidades de texto, atuação e direção, muito mais que as de acabamento, é que se distinguem. O mesmo vale para Game of Thrones, cujo maior defeito foi ter tão poucos capítulos, ou para a série que acompanho no momento aos domingos, Os Borgias, com Jeremy Irons no papel do papa. Dizem que TV aliena ou emburrece, mas para quem sabe o que é bom não chega a ser estranho afirmar que essas séries e alguns seriados são superiores à maioria dos filmes que entram em cartaz. Não espanta que estejam atraindo atores de grande talento, como a incrível Kate Winslet.

Internéticas. Refletindo num dia desses sobre as tais "novas mídias", me ocorreu um paralelo com o que acontece no mundo da economia: assim como o mercado financeiro, a ciranda volátil das especulações, tomou uma dimensão muito maior do que o mercado produtivo, a vida real das empresas, a divulgação das informações ficou muito maior que do que elas próprias. Em outros termos, há muitas plataformas para o mesmo conteúdo. Ouvimos a mesma notícia em rádio, TV, jornal, revista, celular, computador, iPad, etc., etc., numa verdadeira Era da Redundância. A diferença de escala se vê também na comunicação do dia a dia, pois posso falar a mesma mensagem para um mesmo amigo por torpedo, email, Facebook, Twitter, MSN, celular ou telefone fixo, sem muito critério para decidir qual ou quais vou usar. Marshall McLuhan, definitivamente, errou: o meio não é a mensagem; agora, os meios são a mensagem.

Por outro lado, fico pensando em tantas coisas que ainda não temos, ao contrário de promessas feitas nos anos 90. Acho que instrumentos de pesquisa como o Google ainda são insuficientes, pois refinam mal o resultado e a hierarquia em que o apresentam. Leitores de livros digitais ainda não são amigáveis o suficiente, principalmente para edições de arte. Baixar músicas ainda é lento, mas pior ainda é baixar filmes. A banda larga, em países como o Brasil, continua a ser exercício de paciência (sem contar que na NET, por exemplo, nos empurram o acesso melhor com um pacote de canais bem mais caro que não desejamos). Será que vai chegar um dia em que a memória dos computadores e TVs vai ser tão boa que clicaremos no menu de filmes e programas e teremos o produto em poucos segundos?

Por que não me ufano (1). Entre os tantos assuntos que a literatura brasileira não aborda ou aborda mal, está o da chamada "cultura corporativa", sobretudo na superposição com a cultura brasileira. Este é um dos países que menos respeitam o horário do trabalhador, que não raro fica muito mais tempo no serviço do que o contratado, sem receber os respectivos direitos, isso quando são formalizados. Como os laços pessoais sempre aparecem no lugar dos méritos profissionais, os ambientes se convertem em simulacros de famílias, em chacrinhas afetivas, com todos os exageros e atritos que os ambientes domésticos costumam ter. Aí é um tal de fofoca, assédio, gente se metendo folgadamente no assunto dos outros; confunde-se colega com amigo, quando na realidade o bom coleguismo é que já é raro. Chefes querem que subordinados os copiem em tudo e boicotam sua vida fora da empresa; em troca, o estresse sobe a níveis desnecessários, botando tensão onde deveria haver talento.

Por que não me ufano (2). Alguém deveria lançar a disciplina da "Transitologia", estudo do trânsito, dos congestionamentos de veículos nas metrópoles, e com grande probabilidade seria um paulistano. Enquanto os carros recebem adesivos de família feliz e as autoridades tentam ensinar aos motoristas a obviedade de que os pedestres têm preferência onde não existe semáforo, o número de acidentes e atropelamentos envolvendo carrões dirigidos por embriagados não cessa de aumentar - provando de uma vez por todas que não é uma "lei seca" que resolve a questão, mas fiscalização séria e constante. O número de veículos nas ruas é outro que só faz subir, mesmo com o preço surreal do que chamam de "carro popular", e não há dia em que um motociclista não morra nas avenidas da cidade, mesmo que o limite de velocidade seja 60 km/h. O transporte público se expande a um ritmo bem menor, e no tal Dia Mundial Sem Carro os índices de congestionamento não se alteraram, embora o prefeito tenha feito a concessão de andar de ônibus.

Aforismo sem juízo

Se a imaginação empregada em mentir e justificar fosse empregada em ser mais confiável e confiante,

o mundo seria outro.

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