A mais pungente imagem da solidão

Monólogo é baseado em livro de Campos de Carvalho

Mariangela Alves de Lima, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2011 | 00h00

São variáveis os limites e as liberdades abrigados sob o rótulo "adaptação". Embora não constitua um critério valorativo, a prática usual é fazer com que a obra adaptada se ajuste às convenções da linguagem artística que se apropria dela. No cinema, por exemplo, as páginas descritivas de um livro se convertem em paisagem, ações físicas e sons. Até a metade do século 20, a literatura, quando adaptada para o teatro, privilegiava o diálogo. O teatro contemporâneo, no qual tudo é possível, tem permitido à literatura entrar em cena sem mascarar sua origem. Cotejado o espetáculo A Lua Vem da Ásia com a obra de Campos de Carvalho, o resultado é quase o livro em pé. Falta só o papel, porque até as letras invadem os interstícios entre os capítulos.

Aproveitando a estrutura picaresca de uma narrativa cujo herói intercala com inteira liberdade e sem conexão lógica aparente as mais variadas paisagens e extravagantes peripécias, a adaptação deixa de fora alguns capítulos que teriam tornado o espetáculo muito longo e, talvez, excessivo para o fôlego de um só interprete. São cortes que em nada prejudicam a fruição de um texto pautado a um só tempo pela liberdade factual e por uma inegável correção sintática e precisão vocabular. A julgar pelo que está em cena, não é a narrativa o foco central da adaptação, mas, antes de tudo, o signo literário. Na dupla função de adaptador e intérprete, Chico Diaz reverencia o repertório de palavras, a pontuação rigorosa e as modulações vocais propiciadas por frases espirituosas e períodos bem arquitetados.

Mais próximo da segunda geração do surrealismo francês do que das vogas literárias brasileiras dos anos 50, o livro de Campos de Carvalho se afasta tanto do realismo regionalista quanto das associações inconscientes das primeiras cartilhas de André Breton. A consciência do narrador do texto pode ter renunciado aos ditames da lógica aplicada ao cotidiano, mas a expressão verbal é sempre a de um combatente munido de bons argumentos e versado na hierarquia sintática. Em vez de paradoxos no plano da linguagem, há cálculo para revestir de ironia as convenções que aprisionam o "louco" e as transgressões do fugitivo. Essas duas situações do texto, a alienação sob vigilância ou a liberdade do vagabundo são articuladas em contraposição ao universo da alta cultura. Figuras da opereta, da música, da literatura e da história universal são esgrimidas com o duplo intuito de situar a aventura picaresca na imaginação e na vida intelectual do protagonista.

É por essa vertente que Chico Diaz se aproxima da narrativa. Em vez do aspecto mais óbvio do sarcasmo irreverente, traço secundário, mas de efeito cômico certeiro, a interpretação revela a civilidade decepcionada. Quem fala é um homem quase tímido, delicado na sua aproximação inicial com os interlocutores e, parece-nos, atento enquanto espera uma comunicação que não acontece. O trânsfuga da segunda parte do livro e do espetáculo é o explorador ávido, o homem múltiplo que peregrina para conhecer e ser todos, e essa amplidão poética determina o tom da representação. Há no espetáculo uma semelhança visual entre o herói "peripatético" e os nossos concidadãos que, nas metrópoles, arrastam penosamente carrinhos cheios com os detritos da civilização. Não se trata, está claro, de uma comparação entre as dores existenciais e o sofrimento dos párias sociais. Puxando seu carrinho de trastes, oculto sob o manto precário dos vagabundos, o narrador invoca a mais pungente imagem de solidão impressa no imaginário coletivo. Desde o início da narrativa, a interpretação prepara a coda em que as lágrimas entremeiam as últimas reflexões sobre a consciência da mortalidade. Quase murmurado, com serenidade elegíaca, Chico Diaz entoa a belíssima invocação final endereçada "aos que só choram quando há motivos para chorar".

Moacir Chaves trabalha sobre a ideia do livro, organizando áreas de luz e sombra que funcionam como páginas intercaladas, espaços entre parágrafos e divisões em capítulos. Só a música se desprende do signo verbal, evoluindo do agradável ao enervante, seguindo a sugestão de Campos de Carvalho, que imagina sua personagem insone, com a respiração suspensa no intervalo entre uma nota e outra. É uma encenação diáfana como o espaço mental a que a narrativa se refere e os elementos sem peso que mobiliza, sobretudo os sinais gráficos projetados, são referências ao universo de onde se desprende a leitura delicada e pessoal de Chico Diaz.

A LUA VEM DA ÁSIA

CCBB. R. Álvares Penteado, 112, 3113-3651. 6ª e sáb., 19h30; dom., 18 h. R$ 15. Até 5/6.

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