A mais fina tradução da imaginação poética

Os melhores projetos comerciais de Nouvel são a Torre Agbar, de 38 andares, em Barcelona, uma espécie de primo catalão do edifício Gherkin, de Norman Foster, concluída em 2004, ano de abertura do Gherkin, mas apresentando um efeito de mosaico, e não de diamante; sua proposta (infelizmente não construída) para a Tour Sans Fins, um arranha-céu esguio de 400 metros de altura que desapareceria no céu de Paris sobre o complexo de escritórios La Defense; e um hotel em Lucerna, aberto dez anos atrás, que revela novamente a obsessão de Nouvel com a imersão dos ocupantes de seus edifícios numa cor intensa, neste caso o preto.

, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

Certa vez me hospedei neste hotel: foi como ser Jean Nouvel por alguns dias, tamanha a perspectiva do estilo (quase uma filosofia) do arquiteto que a experiência me proporcionou. Minha suíte - totalmente preta em uma das extremidades, e totalmente branca na outra, que se abria inesperadamente para um jardim de bambu - ficava no fim de um corredor preto que tornava impossível distinguir entre dia e noite.

A atmosfera de confusão era sublinhada por um projetor oculto que lançava no teto do quarto cenas de Esse Obscuro Objeto do Desejo, de Luis Buñuel. A mesma cena era reproduzida de novo e de novo, e eu não podia desligar o projetor. A sensação transmitida era onírica, inesquecível e, sinceramente, um pouco enlouquecedora.

Ele é muito talentoso quando trabalha com arte, artistas e conceitos criativos. Seus dois grandes projetos de arte estão no Oriente Médio: o Louvre Abu Dabi e o Museu Nacional do Catar. Ambos são tentativas de encontrar um projeto que responda à paisagem desértica, e ambos se situam sobre jardins d"água. "Parece que estamos nos primórdios do trabalho de arquitetos europeus no Oriente Médio", diz ele.

"Temos de apresentar algo melhor do que antes - precisamos encontrar formas de ajudar a moldar uma arquitetura verdadeiramente árabe, em vez de simplesmente jogar projetos prontos e inapropriados no meio do deserto."

Curingas. Nouvel é um arquiteto cheio de curingas nas mangas de seus inseparáveis paletós pretos. Mas suas ideias podem ser tão românticas quanto são filosóficas: a proposta Tour Sans Fins mostrou como até o mais pragmático dos tipos de edifício (neste caso, um bloco de escritórios) pode se transformar numa obra de imaginação poética, finesse e ousadia estrutural.

Enquanto o sol banha este pavilhão escarlate, é difícil não pensar em Nouvel também como um otimista, dotado de uma visão bastante não francesa do clima britânico. Ele certamente teve sorte ao revelar seu "dispositivo solar" em meio a uma onda de calor. Nouvel poderia facilmente ter sido obrigado a explicar sua inspiração sob um guarda-chuva vermelho, enquanto o mundo se dissolvia no cinza. / TRADUÇÕES DE AUGUSTO CALIL

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