A maior cantora do Brasil

Patrícia

O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2012 | 03h09

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Fui ao show Recanto de Gal Costa e fiquei absolutamente emocionada. É tão bom quando um artista nos tira do lugar. Desde as primeiras notícias sobre esse CD minhas expectativas foram grandes. Adoro Gal Costa. Sou fã e admiradora de sua trajetória na história da música brasileira. Recanto não me deixou na mão. Amei o CD. Difícil na primeira audição, impactante e avassalador logo depois. As estranhezas que Kassin inventa, o piano de Daniel Jobim, o violoncelo de Jacques Morelenbaum, o Rhodes de Donatinho, prato e faca de samba de roda do Recôncavo tocados por Moreno Veloso, programações, sintetizadores, e dois violões apenas: Caetano em Tudo Dói, e Luiz Felipe de Lima no 7 cordas em Recanto Escuro. Produção primorosa e nada convencional de Moreno e Caetano Veloso. Queria muito ver isso tudo no palco.

Caetano dirigiu o espetáculo de roteiro primoroso. Ela cantou Baby, Divino Maravilhoso, Mãe, O Amor, Vapor Barato, clássicos de seu longevo e fundamental repertório e, claro, as novas canções.

Depois de Recanto, o show, posso dizer: Gal Costa é a maior cantora do Brasil. Torquato Neto já dizia isso em 70 quando Gal fez o Fa-Tal. E eu repito isso agora em 2012, com o Recanto. Que artista maravilhosa! Entrou com rouquidão, desafinou, se desculpou, assumiu uma faringite e depois só arrasou. Foi nas notas mais baixas, nas mais altas, emocionou e fez chorar. Foi aplaudida de pé no meio das canções. Que instrumento impecável, bem usado, que poder.

Recanto é um disco histórico. Gal e Caetano juntos outra vez. Estrearam juntos em LP com Domingo em 67. Pré-tropicalistas com a referência fortíssima de João Gilberto, da bossa que tentavam inventar e desconstruir como dois quadradões desafinados na genial música manifesto Saudosismo. Autotune Autoerotico faz as vezes agora em 2012, diz tudo sobre a voz, a reinvenção, o artificial e nos leva ao delírio com a força dos versos e do caminho melódico que explora toda a força do instrumento Gal Costa. Neguinho foi outro momento marcante. No disco tem o baixo de Kassin, a guitarra de Pedro Sá, programação e sintetizadores de Zeca Veloso. No palco tem Pedro Baby maravilhoso na guitarra e violões, Domenico Lancelotti totalmente genial na bateria e MPC e Bruno di Lullo, baixo e violão.

Assisti a Recanto pertinho de Caetano Veloso que tomava sua indefectível Coca-Cola. Quando Gal cantou com dificuldade no começo do show, ela se dirigiu a ele, disse pra não ficar nervoso que ela faria um show bonito. E foi mais que isso, foi uma noite pra se guardar. O disco e o show têm um recado pra dar, ou vários. Mas o que mais diz é sobre a história dessa parceria. E responde aos que estão sempre querendo saber por que os tropicalistas são uma referência tão forte pra cultura nesse país jovem e diverso.

Caetano Veloso tem sempre o que dizer. Suas canções fazem pensar, emocionam, encantam. As letras de Recanto são de uma beleza e de uma dor que há muito esperava ouvir com essa voz tamanha. Um repertório que faz jus a ela, que é perfeito pra essa mulher importante, essa cantora emblemática.

Eu nunca fiz o coro dos que detrataram Gal Costa por conta de seus discos corretos, mas pouco originais, cobrando mais revolução fora do tempo. Eu esperava sempre por algo mais com a certeza desse potencial e com o crédito que ela tem por tudo o que já foi feito. Nem preciso listar aqui suas gravações definitivas, antológicas. São conhecidas por todo o Brasil. Fato é que Recanto é um grande disco. Procure saber. Se ainda não ouviu, corra pra se assombrar. E caso esse show se repita, não perca. Coisas sagradas permanecem, mas o momento passa ligeiro.

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