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Ignácio de Loyola Brandão
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A magia de uma permanente de cinema

Quando ganhei aquele pequeno cartão mágico, passei a ver filmes todas as noites. Foi um alumbramento, diria Manuel Bandeira

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

01 de março de 2019 | 02h00

Para Fernando de Barros, in memoriam

Desde que, criança, meus pais me levaram para assistir a A Canção de Bernadette, no cine Paratodos em Araraquara, fui contaminado pelo vírus do cinema. Estava com 8 anos. Nunca mais esqueci a primeira fala do filme, Soubirous, sobrenome do pai de Bernadette. Meu pai me traduzia baixinho as legendas, resumindo-as. Até hoje sinto o cheiro da cera passada no assoalho (seria Parquetina?), dos perfumes variados, do cheiro do chiclete de hortelã e da bala Fruna, uma que trazia figurinhas com artistas de cinema.

Essa ligação com o cinema me voltou semana passada, quando recebi um envelope do Reserva Cultural. Achei que era um convite. Mais que isso, foi uma memória afetiva. Uma permanente para aquelas salas. Hoje se chama credencial. Assim, regressei aos meus 16 anos, quando fui conversar com o dono e diretor do semanário Folha Ferroviária, Lázaro Rocha Camargo, um homem seco, esquálido, que tinha paixão por jornal e criou um dos primeiros house organs da imprensa. Aquela Folha era dedicada aos funcionários da EFA e da CP, as duas ferrovias que passavam pela cidade.

Eu sabia que o Graciano, dono dos dois cinemas, dava uma permanente a cada jornal, para que o diretor e o crítico assistissem de graça aos filmes. Perguntei: “Verdade que a permanente existe?”. Lázaro – que também mantinha um diário, O Correio Popular, me olhou com um riso irônico: “Existe, mas não vou a cinema, não tenho tempo, e minha mulher também não, acha o cinema um pecado”. E ele me mostrou aquele pequeno cartão mágico. “E o crítico de cinema vai?” Ele deu uma gargalhada: “E existe crítico de cinema em Araraquara?”. Ao sair, eu disse a ele: “Pois vai ter”.

Ora, eu lia o Estadão, devorava Almeida Salles e Paulo Emílio, lia a Folha, onde Benedito J. Duarte escrevia, lia Moniz Vianna, porque, sabe-se lá por que milagre, o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, chegava a minha terra, lia Van Jafa na revista Carioca, Alex Viany e José Amádio em O Cruzeiro. Tinha um arquivo de recortes de críticas enorme. Confesso que a minha primeira, sobre o filme Valentino, biografia do célebre latin lover foi escrita plagiando discretamente uma qualquer. Levei ao Lázaro, ele publicou. E aceitou duas, três. Na quarta, perguntei: “Sou o crítico?”. Ele respondeu sim e me estendeu a permanente. Passei a ver cinema todas as noites, foi um alumbramento, diria Manuel Bandeira. 

Minha primeira promoção se deu quando Paulo Silva me chamou para o melhor jornal da cidade, O Imparcial, também diário. Ali fiquei por cinco anos, até 1957. Neste 2019, aquele jornal comemora 120 anos. Fiz crítica, reportagens, entrevistas, notícias, aprendi a compor em linotipo, a fazer clichê de zinco, a fotografar, fui o primeiro cronista social da cidade, imitando a coluna do Jacinto de Thormes, pseudônimo da Manuel Bernardez Muller, um filho de diplomata que no Diário Carioca deu forma moderna ao colunismo social. Em seu formato e estilo beberam Ibrahim Sued, Zózimo Barroso do Amaral, Hildegard Angel, Ricardo Amaral, Alik Kostakis, Ricardo Boechat (Swan), Wilson Frade, Joyce Pascowitch. 

Fui amigo de Maneco Muller no final de sua vida. Fizemos vários trabalhos juntos na revista Vogue, um deles, o melhor e mais bonito, um gigantesco perfil de Carmem Mayrink Veiga, última grande socialite carioca de um tempo de fausto e brilho. Carmem foi a derradeira representante de uma época que se esvaziou com a mudança da capital para Brasília, com o advento de um dinheiro novo, com a chegada de formas estranhas de se fazer dinheiro, com o advento dos chamados emergentes, com o politicamente correto e com a ditadura militar pelo meio. Essa que muitos negam hoje. 

Em São Paulo, herdei o espaço de cinema do cineasta Fernando de Barros, que muito me ensinou. Na Última Hora, a certa altura, os críticos eram Armindo Blanco, um português exilado, Maurice Capovilla, Jean-Claude Bernardet, e eu, todos a defender o cinema novo e a combater o cinema americano. A coisa era brava. A primeira vez que pedi visto para os Estados Unidos me negaram, alegando que eu atacava muitos os filmes de Hollywood. Depois liberaram, nem sei quantas vezes fui para lá, e adorei Hollywood quando conheci.

Eram muitos os cinemas, centenas as salas, dezenas de distribuidores. No jornal, havia nem sei quantas permanentes, um pacote, que ficavam com o chefe de redação, e ele nos entregava à medida que necessitávamos. Os exibidores reclamavam: “Vocês entram de graça e metem o pau no filme”. Mas eram democratas, jamais cancelaram nenhuma, ao que eu saiba. Depois, nunca mais ouvi falar delas. E agora, uma me veio, e trouxe memórias. Alegro-me de ver também que salas de rua estão ressurgindo, abertas para sonhadores. Cinema é sonho.

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