Pascal Victor/Divulgação
Pascal Victor/Divulgação

A magia de Brook

Sem a presença do diretor inglês, adaptação de ópera de Mozart chega ao Brasil

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2011 | 00h00

Fila e confusão em bilheterias de teatro não são comuns de se ver. Ainda mais quando não é o musical do momento, não há qualquer grande nome da TV Globo no elenco, tampouco galãs de apelo adolescente. Mais surpreendente ainda é quando se trata de uma adaptação de uma ópera de Mozart, falada em francês (com legendas eletrônicas).

"Só vim mesmo por ser espetáculo Peter Brook, um dos maiores teatrólogos contemporâneos. Quando é que eu vou ter a oportunidade de ver uma peça dele por esse preço de novo?", justificava, na segunda-feira de manhã, o estudante de teatro Christian Estevam, de 22 anos, o primeiro da fila. Ele pagaria R$ 5 pela meia-entrada.

O rapaz acordou cedo para chegar antes das 9 horas ao Teatro Dulcina, no centro do Rio, onde as vendas para a sessão extra de Uma Flauta Mágica (a quarta desta minitemporada carioca) só começariam às 14 horas. Às 13 horas, mais de 60 pessoas esperavam na fila, metade sentada na calçada; às 18 horas, a funcionária da bilheteria informava que ainda havia uma boa leva para vender. No Sesc Pinheiros, as apresentações serão na semana que vem, de quarta a sábado. A trupe de Brook passa ainda por Belo Horizonte e Porto Alegre.

"A procura foi surpreendente", disse ontem Antonio Grassi, presidente da Fundação Nacional de Artes, dona do Dulcina, que fez obras de recuperação (estava fechado, caindo de velho, havia anos) e o reabriu um mês atrás. Como a peça foi trazida em parceria com o Consulado da França e a Prefeitura, foi necessário separar uma grande quantidade de ingressos para convidados, daí as filas e a necessidade da sessão extra, esclareceu.

Alheios ao burburinho na entrada, dentro do teatro, Marie-Hélène Estienne e Franck Krawczyk davam entrevistas no lugar do dono da festa. Os dois assinam a adaptação com Brook; Krawczyk está também no piano que condensa todas as cordas e metais previstas pela partitura original, escrita por Mozart em 1791, no final da vida.

A montagem, de 1h30, metade da duração da ópera, circulou na Europa e faz sua estreia sul-americana. A dupla conta que Brook adoraria ter vindo com Tamino, Pamina, Papagena, Papageno, a Rainha da Noite e companhia, mas, afinal, está com 86 anos (quase 70 de profissão, 70 peças, seis delas com passagens pelo Brasil, dez filmes, dez óperas). Sente muitas dores na coluna, o que inviabiliza uma viagem intercontinental.

Brook já passou o bastão de condutor do vanguardista Théâtre des Bouffes du Nord. A construção parisiense do século 19 transformada em Centro Internacional de Pesquisa Teatral foi onde por quase 40 anos desenvolveu seu teatro sem formalismos e de incentivo à participação do público. No entanto, o lendário diretor, influência maior há décadas, não pensa na aposentadoria. "Em geral, num espetáculo assim, o diretor ensaia no início, e depois deixa os assistentes levarem. Brook, não, ele fica até o fim", contou Krawczyk.

"Esta Flauta é longe de ser aquela que esperamos", avisa o programa, que promete um Mozart "eternamente jovem", "leve e efervescente". "É mais acessível do que o original", diz Marie-Hélène, que chama a atenção para a diferença entre ser simples e ser simplista. "Extraímos o essencial, mas "redução" não é a palavra. Ficou mais puro, claro."

Quando Mozart encerrou os ensaios no Theater auf der Wieden, em Viena, ele chegava em casa, sentava-se ao piano e chorava, tocado pela própria criação, disse Krawczyk, ao explicar que "tudo nasceu do piano".

O artigo indefinido em vez de "A" Flauta esclarece que esta é apenas uma interpretação da obra de Mozart e do libretista Emanuel Schikaneder. Críticos ingleses se incomodaram com a condensação de personagens e com opções cênicas difíceis de digerir. A quebra das convenções teria ido longe demais. Em outras adaptações de óperas (Carmen, de Bizet, e Pelleás et Mélisande, de Debussy), as reclamações foram quanto a certas liberdades com a música original.

Seja como for, é Peter Brook como se espera ver: o palco simples, o minimalismo se estendendo aos figurinos e à performance dos atores, que atuam descalços, a ênfase na palavra dita, a economia de tudo que foge ao indispensável. Ele há muito abandonou a direção de óperas - sente "um ódio total desta forma cristalizada", como disse na entrevista impressa no programa. "Era uma perda de energia: no teatro, fora da ópera, é possível ir muito além. Mozart reinventa-se a cada instante, e é seguindo essa direção que trabalhamos."

UMA FLAUTA MÁGICA

Sesc Pinheiros. Teatro Paulo Autran. Rua Paes Leme, 195, tel. 3095-9400. De 14 a 17/9, às 21 h. R$ 8 a R$ 32.

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