A mãe

Juliana convocou suas irmãs, Joyce e Janice, para uma reunião na sua casa. Assunto seriíssimo. Urgentíssimo. Não, não poderia ser tratado pelo telefone.

VERISSIMO,

09 de fevereiro de 2014 | 02h11

Joyce e Janice chegaram juntas na casa da Juliana. Que nem esperou elas se sentarem para anunciar:

- A mamãe voltou.

Joyce e Janice se entreolharam.

- Como é?

- A mamãe voltou.

- Juliana - disse Joyce -, nós enterramos a mamãe não faz uma semana...

- Eu sei. Mas o fato é que ela está aqui.

- Como, está aqui?

- Acordei, hoje, com ela do lado da minha cama, perguntando se não era hora de eu levantar.

- Mas... era o quê? O espírito dela? A alma? Um fantasma?

- Não sei.

- Juliana, francamente - começou a dizer Janice, rindo - você está nos dizendo que... Mamãe!

Janice tinha visto a mãe atravessar uma parede e entrar na sala. Vestida e maquiada como fora enterrada, e transparente.

- Mamãe - disse Juliana - você quer nos dar licença? Estamos discutindo uma coisa importante...

A mãe saiu da sala, atravessando uma porta fechada.

*

- Como ela explica ter voltado?

- Só disse que lá estava muito chato.

- Lá?

- Lá.

- E o que ela quer?

- Nada. Só quer me azucrinar, como fez toda a vida. E eu não vou poder aguentar. Fiquei com ela depois que o papai morreu, porque aqui tinha mais lugar. Mas já cuidei dela o bastante. Uma de vocês duas poderia ficar com ela desta vez...

- Eu não - disse Joyce. - E as crianças? Vou botar uma assombração dentro de casa, com as crianças?

- Eu, nem pensar! - disse Janice. - Vocês sabem como ela e o Mauricio nunca se deram bem.

Juliana insistiu:

- Ela não vai dar despesa nenhuma. Não precisa de comida. Não precisa mais de remédios.

- Não posso - disse Joyce,

- Nem pensar - repetiu Janice.

- Fazer o que, então?

Não havia o que fazer. A mãe ficaria com Juliana, a filha mais velha.

*

Uma semana depois, Joyce telefonou para Juliana. Queria saber como ia a mãe.

- Pior do que nunca - disse Juliana. - Não tem o que fazer, e fica se metendo nas coisas da casa. Dando palpite. Me criticando o tempo todo.

- Mas ela não faz tricô? Ela gostava de fazer tricô.

- Fantasmas não fazem nada! Ela fica perambulando pela casa, atravessando as paredes. No outro dia quase matou a faxineira de susto porque estava andando no teto. Eu mesmo, vivo levando sustos.

Joyce se apiedou da irmã. Combinaram fazer um revezamento. O fantasma ficaria uma semana com cada uma. Joyce encontraria uma maneira de explicar a avó gasosa para as crianças. E o Mauricio simplesmente teria que aprender a tolerar a sogra,

- Sabe o que eu penso? - perguntou Juliana, um dia. - Que não foi ela que se chateou lá e quis voltar. Lá é que não aguentaram ela e mandaram de volta!

As irmãs concordaram.

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