Ernesto Rodrigues/AE
Ernesto Rodrigues/AE

A luz de Cildo

Artista retoma projeto antigo e cria, para a 29ª Bienal, Abajur, obra crítica e de encantamento

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2010 | 00h00

"Queria uma imagem que se aproximasse da perfeição", diz o artista Cildo Meireles entre fotografias de mares, céus, de um veleiro e gaivotas que estarão a girar na sua instalação inédita Abajur, criada para a 29ª Bienal de São Paulo. Depois de meses de conversas por telefone com o fotógrafo Renato Cury, que o ajuda na complexa construção dessa nova obra, Cildo veio do Rio a São Paulo encontrar seu colaborador e tratar dos últimos detalhes do trabalho que o público verá a partir do dia 25. Abajur é feito de três grandes cilindros de imagens idílicas em movimento cuja beleza depende da força humana, de pessoas que vão se revezar na tarefa de girar um dínamo que ativa seu sistema.

"São situações diversas de mar, uma espécie de ciclo com dia, tarde, noite; como se tivesse um navio passando", conta Cildo, que recebeu o Estado no ateliê de Cury, no Butantã. "Vamos estabelecer o movimento das imagens, sem ser um carrossel", continua ele, aos 62 anos, criador consagrado nacional e internacionalmente, que promove reflexão crítica unida de encantamento.

Abajur era seu "plano B" para a 29ª Bienal: quando convidado pelo curador-geral da mostra, Moacir dos Anjos, a ideia era apresentar a instalação Homeless Home (Casa Sem Casa), nunca feita no Brasil (trata-se de um banheiro, um quarto, uma sala e uma cozinha abrigados no cruzamento de duas avenidas). Pela complexidade burocrática e por uma questão de tempo, optou-se pela "segunda opção", obra pensada para grande exposição de Cildo, em 2012, na Fundação Serralves de Portugal (a instituição portuguesa está coproduzindo a peça). Na entrevista, o artista, que também vai exibir na Bienal o Projeto Cédula, da década de 1970, parte da série Inserções em Circuitos Ideológicos e fala sobre sua participação no evento.

Como nasceu o Abajur?

Acho que os primeiros rascunhos da obra são de 1995. Tinha pensado em fazer esse projeto quando me convidaram para a Bienal de Johannesburgo de 1997. Achei que tinha tudo a ver com a coisa da África/Brasil, mas na época acabei mudando e fiz o Marulho. Sabe esses abajures asiáticos que ficam movimentando? Basicamente, queria uma imagem que fosse bela. Que você só visse quando subisse ao convés de um navio, uma coisa ideal.

Como é a obra?

Os cilindros são feitos de material fotográfico transparente em que se imprimem as imagens de quatro elementos: mar, navio, aves e nuvens. É um dínamo, quer dizer, a luz e o próprio movimento são dados por trabalho humano. Serão quatro homens fazendo aquilo existir daquela maneira. É um pouco isso: causa e efeito, labor e capital. São dois espaços. Em cima, subindo uma escada, chega-se a um guarda-corpo de onde se vê os cilindros e, lá embaixo, o dínamo com os trabalhadores (é uma caixa construída com área de cerca de 70 m² e dois níveis). Do lado de fora, você só vai ver a imagem. E quando subir, o que a está movimentando.

Já pretendia exibir esse trabalho na Bienal?

Em setembro do ano passado, o Moacir (dos Anjos), me ligou. Uma coisa que me dá o maior medo é a superexposição. Disse a ele que um monte de artista jovem no Brasil tem trabalho estruturado. As instituições deveriam fazer isso (chamar os jovens), mas eles ficam voltando aos mesmos nomes. Ele insistiu e queria que eu fizesse uma obra que já fiz duas vezes, mas nunca vi (a Casa Sem Casa). Me balançou porque eu queria mesmo ver esse trabalho. Mas logo acertamos uma segunda opção que, no caso, era o Abajur.

Como a obra se insere na reflexão que a Bienal quer fazer sobre arte e política?

Tenho fugido ao longo dos anos 1990 e 2000 de exposições sobre arte e política, porque virou uma febre. Acho que os trabalhos políticos nunca foram a totalidade do que fiz. Tem o Tiradentes e Inserções que são mais explícitos, mas sempre estive tentando me livrar da armadilha do panfletário. Sempre tive questões formais, de linguagem mesmo. Mas o Abajur tem um viés político. Quase coloquei nele o título do poema de Castro Alves, Navio Negreiro. Queria algo que tivesse essa preocupação do belo no primeiro momento. Até você subir, que é quando você desmonta um sistema porque o dínamo é movido por força humana.

Em 2006, você não participou da 27ª Bienal em protesto à reeleição do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira no conselho da fundação. Como vê a instituição?

Naquela Bienal eu ia fazer o Casa Sem Casa. Fiz o que muita gente estava pensando porque era um absurdo Cid Ferreira (preso por gestão fraudulenta do Banco Santos) aprovar as contas da Bienal de dentro da cadeia. Agora, sem nenhum tipo de nacionalismo, qualquer pessoa que faz um trabalho tem prazer de mostrá-lo em sua terra. Sou contra o modelo de Bienal. Seria mais produtivo se você pegasse uma Bienal com 240 artistas e, em vez de mostrá-los em dois meses, fizesse um programa que se estendesse por dois anos. Acho que cada Bienal, também, já deveria começar anunciando o nome do próximo curador.

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