A luz de Adélia

Ela diz que não inventa poemas, apenas os recolhe e garante que voltou a escrever para manter diálogo com Deus

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2010 | 00h00

A realidade também exerce forte influência nos versos de Adélia Prado. O destino do ex-presidente iraquiano Saddam Hussein, por exemplo, que foi capturado, julgado e condenado à morte, causou-lhe tão forte impressão que o desabafo tomou forma de poesia, O Ditador na Prisão. A força da poesia está a oferecer um conforto moral. "A tristeza num poema é alegria, ainda que lacrimosa", observa, lembrando ainda, em elogiado bom senso, que a arte é maior que o artista.

No período em que não criou versos, Adélia exercitou-se na prosa, que também se revelou apurada, como comprova na seguinte entrevista, realizada por e-mail, com respostas elaboradas em meio à tranquilidade de sua Divinópolis, onde cuida de sua delicada saúde.

Você continua consciente do papel oracular da poesia e do caráter epifânico da arte. Como isso funciona?

Acredito, do mesmo modo que funciona para todo poeta. A poesia, "a beleza", é epifânica sempre. É uma aparição oracular pedindo corpo por via da palavra. Não a invento, eu a recolho. Como? Ainda não se descobriu o misterioso caminho da criação de um poema, estranho ao próprio autor. Ao fim, a arte é maior que o artista. Sem esta convicção (e se equivoca bastante) não deve vir a público. A beleza exige obediência estrita.

Apesar de sua autonomia, os poemas guardam uma surpreende unidade. Como isso funciona?

É uma pergunta que não sei responder. Há um pequeno sinal de que preservar a unidade de uma obra é obedecer-lhe e vigiar para não nos rendermos a enfeites, truques, novidades. Às vezes a beleza é uma litania sobre a feiura e a dor.

Como chegou ao título?

Cheguei ao título desta vez com um pouco de sofrimento. Passeei bastante por Van Gogh e Chagall, querendo campos, messes, muito sol, fainas, trabalho no campo, mas no fundo a imagem não se acoplava perfeitamente ao livro, até que em Magritte, aqueles ovos e aquela vela acesa resolveram o problema. Não dá para dizer aqui tudo que o quadro me provocou em relação ao conjunto dos poemas, a unidade do livro, mas acredito ter acertado.

Como vê a poesia num mundo perturbado pelo terrorismo e pela guerra?

Da horrível morte de Saddam Hussein nasceu o poema O Ditador na Prisão. A poesia não é nem nasce necessariamente do bem-estar. Ela vem apesar e por causa de tudo. Por isso nos consola tanto. A tristeza num poema é alegria, ainda que lacrimosa.

E o que diz sobre o dualismo que mostra tanto a fragilidade do corpo como sua perenidade?

Perfeitamente. Porque experimento um corpo sujeito à doença, à velhice, à morte, mas creio na ressurreição da carne, na promessa de Jesus: "Aquele que crer em mim viverá para sempre."

Ferreira Gullar disse, certa vez, que poesia é energia. O que pensa disso?

Assino embaixo. Não sei se nos mesmos termos de Ferreira Gullar. É energia porque é viva, pulsa, tem sangue e alma divina.

Você não publicava um livro de poesia desde 1999. A Duração do Dia traz, portanto, poemas escritos ao longo destes dez anos ou há material mais antigo? Tem poemas muito novos e outros que foram extraídos de material antigo, que em seu tempo não estavam resolvidos como poema, mas agora encontraram a sua forma.

Você também acredita que a forma de criar um poema muda de um para outro, como rezam diversos poetas?

Penso que um autor se escreve. Seu texto é ele mesmo, nem ficção científica escapa. Portanto, se faz uma coisa só, vista a luzes e profundidades diferentes. Do meu limite não há como sair.

Uma curiosidade de leitor: o que influi para um poema ocupar apenas uma página enquanto outro necessita de várias delas?

A dimensão do poema é do mesmo tamanho do que deve ser dito. Uma cachoeira ou um pingo d"água.

Você acredita que o escritor se torna mais lúcido, mais criativo, mais capaz, se ele tiver uma obstinação?

Acho obstinação aqui um perigo. Engraçado também. Entendo obstinação em ginastas, ciclistas, corredores de maratonas em atletas. Ainda assim é horrível ver alguns chegarem sem fôlego e trocando as pernas.

A religião sempre lhe foi inspiradora?

A fé, o contexto de minha religião, doutrina, liturgias, devoções, foram e são experiências vitais para mim, e não há experiência verdadeira que não inspire. A religião, em que pesem excessos ou erros doutrinários, equívocos de catequese, se ela oferece o sentimento de estar ligado a uma fonte de transcendência e sentido, de perenidade, melhor que eu, mais poderosa que eu, onde possa prostrar-me como criatura diante de um Criador, que me castiga, protege e consola, qualquer um de nós tem a terra e o céu para lhe inspirar.

QUEM É

ADÉLIA PRADO

POETA

Adélia Luzia Prado Freitas nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, em 13 de dezembro de 1935. Professora durante mais de 20 anos, seus textos são sempre norteados por sua inabalável fé católica e retratam o cotidiano e os moradores de sua cidade. Mãe de cinco filhos, seus primeiros versos surgem em 1950 e seu livro de estreia, Bagagem, em 1976.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.