A luta pelo poder e o corpo da rainha

Talvez no drama histórico Maria Stuart, Katherine Hepburn tenha encontrado o grande papel de sua vida. Ela é nada menos que estupenda ao interpretar a trágica rainha da Escócia, que renega o grande amor de sua vida para manter o poder. Mesmo assim o perde, como também perde a vida no confronto com a rainha da Inglaterra, Elizabeth. Katherine, que durante as filmagens mantinha um caso com o diretor John Ford, dá mostras aqui de uma entrega completa ao papel. Esse é um dos pontos altos do filme.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

30 Junho 2011 | 00h00

O outro, o absoluto equilíbrio com que Ford conduz a intriga palaciana. Como estamos aqui longe do universo em geral associado ao diretor - o do western - poderia haver o temor de certo ranço, traço muitas vezes presente no filme histórico transformado em museu de imagens.

Nada disso acontece. O rigor dos planos, o despojamento dos meios e a concentração com que Ford distribui os elementos visuais fazem de Maria Stuart uma grande experiência cinematográfica. Ford não constrói um museu da história; ao contrário, faz com que ela renasça, com todo o frescor, diante dos nossos olhos.

Katherine, mais uma vez, é responsável por essa sensação de vida. Em especial quando surge, de volta à Escócia depois de haver passado 30 anos na França. Numa corte formada por conspiradores, em duas ou três cenas, ela consegue distinguir quem são seus inimigos e quem são os aliados. Quem poderá lhe valer na dificuldade e quem está apenas bajulando e trocará de barco na primeira tempestade.

A arte de Ford consiste em apresentar a complexa disputa pelo poder sem qualquer firula discursiva. Com poucas frases e um trabalho sábio na composição das imagens, ele nos traz para dentro dessa guerra travada a distância entre as duas mulheres. Como o próprio Ford dizia, rabugento, ele era um homem vindo do cinema mudo. Homem portanto de poucas palavras. Habituado a resolver as dificuldades de expressão contando apenas com a força das imagens, sem a muleta do verbo. Quando o sonoro chegou, John Ford estava pronto para enfrentá-lo, sem baratear sua forma de expressão. Isso é o que o torna grande.

De modo que somos conduzidos pelo drama de Maria Stuart através dessa forma rigorosa em que Ford o inscreve. Maria é toda poderosa quando aparece em primeiro plano, ao chegar e sentar-se ao trono; é pequena quando renuncia ao Conde Bothwell (Frederic March) e sai por uma porta que parece engoli-la. É enorme quando os olhos de Katherine brilham e enfrentam os juízes, colocados num plano superior. Depois se fragiliza ao saber da morte do amado e ao consentir sentar-se na cadeira - ela que encarara em pé seus algozes. Por fim, é grandiosa no momento terrível do cadafalso.

O drama de Maria Stuart poderia ser descrito como o da intermitência do poder, sua oscilação e incerteza, que se expressa no corpo da rainha.

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