A luta entre amor e conhecimento

O inacabado e póstumo Meu Fausto, do francês Paul Valéry, faz releitura irônica da lenda em forma de diálogo filosófico

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2011 | 00h00

Não era por acaso que o poeta e crítico francês Paul Valéry (1871-1945) tinha tanto interesse em figuras como Leonardo da Vinci, Voltaire e Goethe. Foram pensadores que sempre procuraram aproximar as artes, as humanidades e as ciências - e ele, Valéry, não foi muito diferente. Seus famosos Cadernos (publicados em livros a partir de 1973) e o jornalismo reunido nos cinco volumes de Variedades (1924-44) mostram a abrangência de seus interesses, que iam da matemática ao teatro, da filosofia à biologia, passando pela dança (A Alma e a Dança), pintura (Degas, Dança, Desenho) e arquitetura (Eupalinos ou o Arquiteto). E é dele a célebre observação de que não tinha mais paciência para romances que começavam com "A duquesa acordou às 10 da manhã", romances que só se prestavam ao resumo, de tão lineares e prolixos.

Não espanta, assim, que ele tenha abordado a mais famosa lenda sobre as tentações do conhecimento e escrito Meu Fausto, enfim traduzido no Brasil, com muita competência, por Lídia Fachin e Sílvia Maria Azevedo. Mas, remarcando a principal diferença entre Valéry e seus ídolos intelectuais, o livro tinha que ser curto e inacabado. Foi publicado postumamente, em 1946, e, como tantas outras obras que abordaram o mito fáustico depois de Goethe (incluindo o Primeiro Fausto do português Fernando Pessoa), terminou à sua sombra. Eis a diferença: o que em Leonardo, Voltaire e Goethe é a realização de uma obra grandiosa, volumosa e original nos mais diversos campos, em Valéry se torna brevidade, fragmento, incompletude.

O Fausto de Valéry, como o de Pessoa, não tem a grandeza da obra-prima do gênio alemão, que viu no enredo toda a ambivalência da crença no progresso. Talvez as melhores releituras modernas do texto goethiano sejam as que transplantam o personagem para outras profissões e realidades, como em O Mestre e a Margarida, de Bulgakov, Dr. Fausto, de Thomas Mann, e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Dito isso, porém, o mais importante é afirmar que o Fausto de Valéry vale a leitura atenta de cada linha, sobretudo pela força dos diálogos, que não precisam de trama ou ação para soar reais e permanecer ecoando em nossa mente depois que terminamos a leitura.

Com uma cabeça científica rara entre artistas, o escritor conhecido pelos poemas A Jovem Parca e O Cemitério Marinho une em seu Fausto o vigor cerebral de sua prosa à sua habilidade com o ritmo e a sonoridade das palavras que desenvolveu em versos. Há, de imediato, um diálogo com seu trabalho em ficção mais conhecido, Monsieur Teste, que nada tem a ver com ficções que descrevem duquesas despertando e foi escrito quando Valéry tinha apenas 25 anos (mas já tinha publicado, aos 24, o excelente Introdução ao Método de Leonardo da Vinci). Teste, afinal, também enfrenta os problemas de um cérebro altamente intelectualizado diante de um mundo que não o é; acima de tudo, diante de suas próprias pulsões sensíveis, de seu próprio caos interior.

Em seu Fausto, a questão é muito parecida, mas as vozes que debatem com ele são tão fortes que criam um teatro de ideias, um drama filosófico. Valéry, que dizia que os otimistas escrevem mal, faz um Fausto sem a polarização redentora de Goethe, com fortes pitadas de ironia e pessimismo: "A mulher é difícil de inflamar. O tempo todo é preciso vigiar a combustão e manter acesa a chama. É muito caro e cansativo". Isso ele diz para Lust, sua secretária, de nome que sugere desejo e perdição, a quem dita suas memórias e que é fascinada por sua inteligência. Valéry dá a seu Fausto a melhor objeção feita a Mefistófeles: "Você está na eternidade, meu Diabo, e não passa de um espírito. Portanto, não tem pensamento. É incapaz de duvidar e de procurar. No fundo, é infinitamente simples, (...) Devorador de almas que não sabe degustá-las! Você nem suspeita que há no mundo muitas coisas além do bem e do mal".

Esse é um Fausto que não acredita na imortalidade da alma e na perfeição do saber, e por isso causa má impressão no discípulo que lhe chega ávido de iluminação e só recebe humor amargo: "Você esperava conselhos, meu jovem amigo?... Mas o melhor dos conselhos não vale a menor imprudência e jamais evitou que aquele que cometeu um erro não o fizesse pela segunda vez". Lust tampouco ouve o que quer de Fausto: "Estou vendo que a senhorita também acredita na felicidade, essa palavra própria das mulheres". Paródias da Bíblia igualmente atravessam todo o texto.

Mas nada disso resolve o problema de Fausto, nem mesmo seu lema "Cuidado com o amor", à medida que o sentimento por Lust lhe fala ao corpo, clamando por aquilo que chama de "convulsão grosseira" (o ato sexual). E então é Mefistófeles que fala com mais propriedade: "Amor seria sem mim breve clarão, ato ingênuo. (...) Que seria do Amor sem a Serpente que fala? Uma monótona e periódica combinação dos sexos de acordo com a história natural". Curioso por essência, Fausto sabe que o amor lhe reserva essa "maravilhosa variedade" que o diabo lhe cicia. Ao mesmo tempo, Mefistófeles o inveja pelo mesmo motivo, pois não tem nem sequer o prazer do sono, e vai se vingar em Lust, mostrando a ela que tem medo de amar o belo e jovem discípulo de Fausto.

Na parte final, que Valéry batizou de O Solitário ou as Maldições do Universo, Fausto se depara com um ermitão, que lhe diz que o pensamento só serve para estragar o prazer, e com um grupo de fadas, que lhe oferecem devolver o dom adolescente da paixão. "Meu espírito soberbo aboliu o desejo", diz Fausto a elas, e mais adiante resume toda sua condição: "Sei demais para amar, sei demais para odiar, e estou farto de ser uma criatura". Mas Valéry não dá a Fausto a última palavra, literalmente, e põe na boca das duas fadas principais a observação de que Fausto esquece que "a palavra tem poder sobre a metamorfose" e de que ele "não sabe senão negar". Com isso, a obra deixa aberta a sensação de que a mesma palavra que aprisiona o desejo de Fausto poderia tê-lo libertado, aberto à metamorfose do amor.

Mesmo em sua angústia, Valéry sempre acreditou que o pensamento e o prazer são compatíveis. Seu Fausto, como leitura, não nos oferece nada senão outra prova disso.

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