A luta de um sertanejo

Internado por complicações decorrentes de um câncer no pulmão, Dominguinhos briga e chora como um cabra valente

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2013 | 02h09

Três rapazes chegaram quarta-feira do Recife só para ver Dominguinhos. Era um sonho conhecer o mestre. Guadalupe aceitou levá-los até o quarto. Enquanto Domingos dormia, ela contava sobre o dia em que o "trouxe de volta". Guadalupe implorava para que o marido saísse de seu estado de inconsciência. "Domingos, acorde. Sei que você está me ouvindo. Venha comigo homem, você consegue. Pegue nas mãos desse homem de branco a seu lado e venha..." De repente, nas lembranças de Guadalupe, o sanfoneiro levou o tronco para frente e ergueu os braços. Quando tentou falar, percebeu que não podia e, então, sua expressão foi de pânico.

Guadalupe contava esta história quando percebeu que os rapazes não olhavam surpresos mais para ela, mas para Dominguinhos. Seu Domingos, notou a mulher, estava acordado e chorando. "Ele ouviu o que eu disse e se emocionou." Ela não chamou os médicos, só confortou o paciente. "Não desista, não deixe o que aconteceu hoje abalar você." Antes dos três fãs chegarem do Recife para beijarem suas mãos, uma cena triste vivida sobre seu leito pela segunda vez deixou Dominguinhos visivelmente triste.

Quem passou pelo hospital foi Mauro Moraes, filho do sanfoneiro e de Janete, sua primeira mulher. Mauro, 53 anos, não tem boas relações nem com Guadalupe, a segunda esposa de Domingos, nem com Liv, a filha do casal. Segundo testemunhas, Mauro chegou para visitar o pai quando se desentendeu com Márcio, o acompanhante que Guadalupe contratou para ficar o tempo todo ao lado de Dominguinhos. Mauro pediu para ficar a sós com o pai, mas Márcio se negou a deixar o quarto. Mauro então teria começado uma discussão acalorada com Márcio, pedindo privacidade e dizendo que ninguém teria o direito de fazer aquilo com ele. O clima esquentou e impropérios foram trocados.

Mauro vive no Rio de Janeiro mas está em São Paulo desde que o pai chegou ao hospital. Contra a vontade de Liv e de Guadalupe, hospedou-se no apartamento de Dominguinhos e diz que não tem planos de sair de lá tão cedo. "Sou filho legítimo, que mal tem em eu ficar na casa dele? Estão me tratando como se eu fosse um bastardo. Eu só quero que me respeitem. Dizem que estou atrás da herança do meu pai. Eu nunca liguei para isso, nem carro eu tenho", diz.

Guadalupe não gosta de alimentar discussões, mas diz estar exausta das desavenças provocadas por Mauro. Em março, sites publicaram frases do rapaz dizendo que seu pai estava "em coma irreversível", informação nunca confirmada pelo hospital. Dias depois, redes sociais multiplicavam o boato de que Dominguinhos havia morrido. "Você imagina as pessoas me ligando dizendo que meu pai morreu", conta Liv. "Quando disse que ele estava em coma irreversível, só repeti o que um médico disse para mim." O Sírio Libanês não dá notícias que vão além de um boletim divulgado em 18 de março: "Houve melhora do quadro cardiológico, respiratório e renal. Do ponto de vista neurológico, ele apresenta estado minimamente consciente, demonstrando discretos sinais de recuperação. O paciente permanece internado, sem previsão de alta." O coração de José Domingos de Moraes, 72 anos, tem o tamanho do mundo e segue batendo no ritmo de um xote doído e comovente.

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