Wilton Junior/AE
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A longa viagem de Gloria

Em Anel de Aço, ela relança canções de Paulo Cesar Pinheiro para santos e orixás, gravadas em 2007

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2011 | 00h00

RIO

Para o compositor e poeta Paulo Cesar Pinheiro, "Gloria Bomfim é uma das vozes mais representativas do canto afro-brasileiro". A instrumentista Luciana Rabello diz que a voz da cantora é das mais expressivas que conhece: "Seu canto primitivo, forte, verdadeiro, despretensioso e absolutamente intuitivo é diamante bruto que representa, de forma emocionada, a cultura dos terreiros de candomblé". Com incentivo do casal, Gloria gravou o CD Santo e Orixá em 2007, com 14 composições inéditas de Pinheiro, e Maria Bethânia o relança agora por seu selo Quitanda, com outro título, Anel de Aço, outra capa e com duas faixas a menos e em outra ordem.

A longa viagem de Gloria até chegar a esse disco daria um filme. Desde criança, "de 7 para 8 anos", em Areal, interior da Bahia, já cantava nas festas de casamento, que duravam até três dias, levada pelo pai. Quando havia evento no lugar que pedisse música, Seo Tutu, um senhor que já morreu, mandava chamar "a menina da Viagem". Ela que nem sonhava em ser cantora ganhou o apelido porque sua canção predileta, que emocionava os ouvintes era Viagem, de Paulo Cesar Pinheiro e João de Aquino.

Segundo Gloria, como costuma ocorrer com famílias numerosas (ela tem sete irmãos) no interior, chega uma hora em que os pais doam os filhos para quem chega da cidade grande, como Salvador, com intenção de adotá-los. "Saí de casa com 12 anos, levada por uma mulher que tinha uma casa de veraneio perto de Salvador, mas ela mentiu pra minha mãe. Não me levou para me criar, mas pra cuidar dos filhos dela. Não era bem tratada por ela, trabalhava sem receber nada. Foi uma pequena escravidão."

Desde então, a vida de Gloria foi trabalhar em casa de família. Devolvida para a mãe por aquela mulher, Gloria foi doada à família de outra mulher, conhecida por Nona, cuja irmã, a médica Josilda, então viúva, precisava de alguém de confiança para trabalhar em sua casa no Rio. Gloria se ofereceu para ir. "Queria ir pra cidade grande justamente para conhecer o dono da Viagem", lembra. Nona achava que a mãe de Gloria não a deixaria viajar por ser menor de idade, então, a pedido da menina, assinou um termo de compromisso e deu de presente de aniversário, no dia 3 de novembro de 1971, a passagem só de ida para o Rio.

Aqui chegando, no dia seguinte, Gloria foi direto para a casa da doutora Josilda. Não tardou a escrever um bilhete pedindo que a ajudasse a conhecer "a pessoa que tinha feito aquela música", que Gloria sempre cantava e emocionava a patroa. "Não faço nada sem cantar", diz. "Não tinha muito papo com ela, não sabia nem escrever nem ler direito, mas escrevi o pedido. Ela ficou sem saber o que fazer, porque não era do meio artístico, não conhecia ninguém. Quando gravei meu CD fui levar uma cópia pra ela. Aí voltou toda aquela história e ela me disse que ainda tinha aquela cartinha guardada", lembra a cantora.

Nesse meio tempo, a mãe de Gloria descobriu que ela estava no Rio. Então a ex-patroa ligou para a irmã Josilda, pedindo para mandá-la de volta, porque a mãe dela estava criando caso. "A doutora me contou toda a história e fugi, pra não ter de voltar pra Bahia. Essas loucuras que eu fazia. Por aí foi indo."

Gloria teve um filho, hoje com 29 anos, que criou sozinha, trabalhando como cozinheira e manicure. "Não ia levá-lo pra morar em casa de outra família, já conhecia bem o que era aquele sofrimento. Foi quando decidi fazer unha em domicílio." Indicada por uma cliente, foi parar na casa de Luciana Rabello, que também precisava de uma cozinheira, 22 anos atrás. Certo dia na cozinha, Gloria cantarolava mais uma vez Viagem e Luciana, impressionada com o canto dela, perguntou: "Está querendo agradar o patrão, é?"

Ela não entendeu a brincadeira. "Como assim puxando o saco do patrão, se estou fazendo o que ela mandou fazer pro almoço", pensou Gloria. "Essa coisa de conhecê-lo, achava que nunca ia acontecer. No fim, fui trabalhar na casa dele sem saber que ele era autor da música. Quando Luciana me disse aquela frase, me assustei e perguntei. Ela me disse que aquela música era dele, Paulo Cesar Pinheiro. Falou isso e saiu. Na hora fiquei muda, procurando chão. Comecei a chorar, fui pro quarto de empregada, troquei de roupa e me mandei, foi um susto muito grande, voltou o filme todinho na minha cabeça."

Estar na casa dele aquele tempo todo sem saber, sem ser por intermédio de ninguém, tirou Gloria do eixo. "Depois não voltei mais lá. E Luciana me procurando e eu fugindo dela. Até hoje não sei por que tive esse medo de continuar lá. Mas um dia ela estava entrando no condomínio e eu estava saindo, parou, me perguntou o que tinha acontecido. Aí contei a história e ela me disse que era bobagem eu me comportar daquela maneira."

Luciana ainda precisava dela na cozinha, não conseguira substituta. "Concordei em voltar desde que ela não contasse essa história pra ele. Ela prometeu, voltei e continuo até hoje. Claro que contou pra ele logo em seguida, mas eu só soube disso em 2007 na gravação do meu CD."

Morando em Campo Grande, no subúrbio depois de Bangu, a portelense Gloria é conhecida nas rodas das escolas de samba. Nunca estudou música, mas aprendeu com os patrões a entrar no tom certo, a "lapidar um pouquinho" aquele diamante bruto.

Há mais de três anos não volta à Bahia, onde a família mora, desde que a mãe morreu. Não que ela tenha grande afeição por quem a botou no mundo. "Ela só me deu vida. Quem me criou, me guiou, me protegeu, me socorreu, também me chicotando na hora certa, com quem aprendi a gritar sempre sozinha neste mundo foi minha mãe espiritual, Iansã", diz. "Primeiro Deus, depois Iansã e Ogum, que me abriu os caminhos. Minha vida espiritual é na Bahia, mas preciso resolver isso no Rio, não posso ficar indo e vindo. Um tio meu me dizia que a melhor coisa é ser filha de santo viajante. Vai lá, faz e vai embora. Porém, toda essa "viagem" dela foi para chegar até aqui.

Paulo Cesar havia reunido as 14 canções dedicadas aos santos e orixás que ele próprio tinha intenção de gravar, mas as mantinha guardadas. Porém, após esse episódio, ninguém melhor do que essa guerreira filha de Iansã para cantá-las: parecem feitas na medida para ilustrar sua história e espiritualidade.

Luciana fez a produção musical e executiva e colocou um mínimo de instrumentação para ressaltar a força do canto de Gloria, reunindo, além dela, músicos do calibre de Mauricio Carrilho, Pedro Amorim, João Lyra, basicamente cordas, percussão e vocais. "Agora com o relançamento do CD, espero fazer shows e levar essa música adiante. Eles acreditaram em mim e quero fazer bonito", diz Gloria.

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