A literatura pop encontra a erudita

Fenômeno editorial que deu nome a uma geração, 'Nocilla Dream', primeiro volume da trilogia escrita pelo espanhol Agustin Fernández Mallo, chega ao Brasil e faz do autor o possível sucesssor de Bolaño

Antônio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2013 | 02h19

O sucesso popular do escritor espanhol Agustín Fernández Mallo, 46, foi tão grande em 2006, quando lançou o primeiro volume de sua trilogia Dream - o livro Nocilla Dream, agora publicado no Brasil -, que era comum ver jovens da Catalunha discutindo, nas ruas, as teorias de Mallo, ao lado do skate e de um frasco de Nocilla, o equivalente ao nosso Nutella. Mallo é definitivamente pop. Tem até um grupo musical, o duo Frida Laponia, que lançou no ano passado o CD Pacas Go Dowtown. Em entrevista ao Sabático, Mallo diz, aliás, que o nome do livro não é uma homenagem ao creme de chocolate espanhol, mas a uma canção punk-dadaísta chamada Nocilla Qué Merendilla, do grupo punk Siniestro Total.

Físico de formação, Mallo já está sendo considerado um sério candidato à vaga do chileno Roberto Bolaño, com o qual, aliás, guarda certa semelhança estilística. Nocilla Dream é um livro fragmentado, on the road, de capítulos breves e sintaxe pop, com personagens atípicos e paisagens desérticas, que servem de representação metafórica do isolamento e solidão do homem contemporâneo, sintetizada na imagem de um álamo no monótono e árido deserto de Nevada, nos EUA. Nele, andarilhos, num gesto de abandono, penduram suas botas, que dançam num "baile caótico" quando o vento sopra rijo de Carson City.

Mallo é ambicioso. Já escreveu até um remake de Borges, El Hacedor, que foi retirado das livrarias há dois anos pela Alfaguara quando a viúva do escritor argentino, Maria Kodama, pediu a seus advogados que movessem uma ação contra a editora (mesmo sem ter lido o livro). Mallo diz que foi uma homenagem. Kodama diz que é paródia. Seja como for, Mallo não precisa mais homenagear nenhum escritor. Já foi consagrado por jovens leitores e fez até um filme doméstico sobre sua trilogia.

Nocilla Dream é um romance de desertos e seus personagens estão, de alguma maneira, no limite, na fronteira. Como você explicaria o deserto como metáfora condutora do projeto Nocilla Dream?

Os desertos, sejam quentes ou frios, sempre me interessaram. O deserto, como você disse, é um lugar de fronteira, onde o orgânico se faz inorgânico, um espaço mestiço. Nessa espécie de lugar é onde pode se dar a emergência do novo, seja ele biológico ou cultural, um novo DNA cultural. No caso de Nocilla Dream, trata-se de um novo lugar cultural, onde as referências e experiências que eu havia acumulado ao longo de minha vida como escritor de poesia se combinam com outros materiais para compor esse livro - a ciência, as artes, especialmente a arte conceitual, a cultura popular . Minha formação não é literária, mas científica. Sou físico de profissão, mas sempre acreditei que na física, assim como na sociedade de consumo que nos cerca, há uma poética, algo novo por dizer com tais materiais. Assim, cheguei de um lugar muito distante da literatura e foi nessa fronteira que construí minha obra.

O projeto Nocilla Dream é ambicioso. Por que uma trilogia no lugar de um único livro?

A trilogia surgiu de uma maneira natural. Sempre escrevi poesia de caráter abstrato, ainda que introduzindo nela elementos pós-modernos. No ano de 2004 me encontrava em viagem pela Tailândia quando fui atropelado por uma moto, acidente que me quebrou o quadril. Assim, tive de passar 25 dias na cama de um hotel tailandês à espera de ser levado de volta à Espanha. Nesse momento, no hotel, lembrei imediatamente de uma foto que vi publicada no New York Times, a imagem de uma árvore no deserto de Nevada, nos EUA, que sustentava mil pares de sapatos pendurados sem que ninguém soubesse explicar a razão de estarem ali. Essa imagem se apresentou então de uma maneira tão potente, poética, que comecei a escrever textos sobre ela, textos que eu não sabia o que eram, se poesia, ensaio ou narração. E, em 25 dias, escrevi na cama do hotel da Tailândia quase toda a primeira parte de Nocilla Dream. Ao terminá-la, concluí ser esse um novo formato narrativo, que me interessava investigar de um ponto de vista estético, e escrevi os dois volumes seguintes. Nocilla Experience e Nocilla Lab, sem saber se alguém se interessaria em publicá-los. A surpresa veio quando, em 2006, a editora Candaya quis publicar o primeiro volume, que veio a ser um grande sucesso na Espanha. Depois, a Alfaguara publicaria Nocilla Experience e Nocilla Lab. Segundo dizem os estudos socioliterários, a trilogia se converteu num acontecimento integral, cruzou as fronteiras do estritamente literário, influenciando o meio social e levando a uma mudança de paradigma. O caso é que os três romances foram escritos como escrevo um poema, sem saber onde vou, sem uma planificação prévia, guiado apenas por analogias, pela intuição, com muita liberdade. Continuei trabalhando do mesmo modo. A investigação de minha estética é a única coisa que me interessa. Se, depois, esses textos interessam a outras pessoas, muito bem, mas, se não, dá no mesmo. O importante são os fios poéticos que atravessam esses romances e lhes dão coerência. Não se trata de juntar pequenos textos, o que seria muito fácil. O difícil é dar e eles uma estrutura poética.

Você crê que é condição indispensável para a ficção contemporânea ter uma ligação com a docuficção? Como você articula a construção de seus livros? Seria possível dizer que o que você faz é olhar a realidade de outro ângulo?

A respeito da docuficção, não, não creio que seja imprescindível, mas, em meu caso, sim, é um componente muito importante. Deformar a "realidade" é uma das condições necessárias - ainda que insuficientes - para que se dê o fato estético. Não creio que exista uma realidade externa e uma ficção nos livros: a própria realidade é uma ficção, uma ficção verossímil, só isso. A respeito da segunda pergunta, creio que todo criador deva ver o mundo como se fosse um extraterrestre, com um olhar que ninguém teve antes. E nisso incluo também as ciências. Por exemplo, quando Newton viu cair uma maçã e, a partir dessa queda, teve uma intuição que terminou na formulação da teoria da gravidade universal, o que fez foi olhar essa maçã como ninguém antes dele olhou, como se fosse um ET recém caído na Terra. Essa é a tarefa do criador em qualquer disciplina.

Como você decidiu unir o popular creme de chocolate Nocilla (o equivalente no Brasil ao Nutella) com a vocação sofisticada de seu romance Nocilla Dream, abandonando as regras da narrativa tradicional e abrindo novos caminhos formais para a literatura?

Primeiro devo esclarecer que a palavra Nocilla - que, como você bem disse, é um creme de chocolate espanhol - não vem, no meu caso, dele, mas de um grupo musical espanhol, Siniestro Total, que tem uma canção punk-dadaísta chamada Nocilla Qué Merendilla. Mas, como digo, todos os meus referentes culturais, sejam de alta ou baixa cultura, podem me servir para criar uma narrativa. Dou um exemplo: se num romance acreditar que seja pertinente fazem uma ligação analógica e poética entre um determinado spot publicitário - que é cultura popular - e um pensamento de Platão ou de Deleuze, eu o faço sem preconceito estético, porque dentro do romance funciona. Isso tem uma implicação mais ampla e importante, da qual não tinha consciência até a conclusão desses romances e sua leitura final: minha narrativa se estrutura em forma de rede, não de árvore. Vale dizer, não há hierarquias bem definidas entre as diferentes partes. E essa é precisamente a forma em que a sociedade de hoje se ordena. Creio que essa coincidência pode ser um dos motivos pelos quais a trilogia tocou tanta gente.

O espírito inconformista de Nocilla Dream parece ter sido herdado dos anos 1980, mas pode também revelar uma atitude deliberada de agitar a narrativa literária estabelecida, como fizeram no passado Roberto Bolaño e David Foster Wallace, não?

De certo modo, sim. Mas devo esclarecer que não o pretendia. Era apenas uma pessoa desconhecida que escrevia em seu tempo livre e que acreditava ter de escrever para investigar a realidade de um ponto de vista estético. Nunca pensei que algum dia iria ter sucesso junto aos críticos e ao público. Quando alguém faz uma obra com a pretensão de ser "moderno", quase nunca funciona. As coisas devem sair de maneira natural, de modo orgânico, porque, de fato, estão inscritas no cotidiano, na vida.

Como físico, o que o atrai no mundo da

ciência?

A física é uma maneira - como a literatura, o cinema, as artes - de construir a realidade. Só isso já basta. Por outro lado, sempre notei que havia uma poética na ciência. O tempo me deu razão. Teorizei a respeito num livro de ensaio, Postpoesía, Hacia un Nuevo Paradigma, que em 2009 foi finalista do Prêmio Anagrama de Ensaio.

Como você vive o êxito literário de Nocilla Dream? Pensa em transpor seus livros para o cinema?

Para ser sincero, vivo o sucesso de maneira distanciada, como num filme em que vejo passar pessoas, jornalistas, editores, leitores, mas no qual não estou inserido. Sobre o cinema, não, não pretendo adaptar meus livros. Talvez se um diretor ou diretora se interessarem, creio que seria uma experiência visual interessante. O que faço são filmes domésticos, com câmaras amadoras, para colocar no meu blog. Gosto de trabalhar com aquilo que tenho à mão em casa, como se fosse um laboratório. Gosto, enfim, de filmar e montar, investigar minha poética por meio da imagem. Como em meus romances, me interesso pela poética que há nos escombros, no impuro. Do Projeto Nocilla fiz um filme de 60 minutos, que está no meu blog e traz no epílogo a imagem da árvore de Nevada com os sapatos.

O romance tradicional é, para muitos escritores, como seu conterrâneo Vila-Matas, um artefato inútil, que, de algum modo, necessita de uma revisão. Como você vê o futuro da literatura pós-internet?

Creio que o tempo em que o romance servia para modificar as raízes de uma sociedade não mais existe. O bom romance já não é um produto de massas. O que agora transforma a sociedade é o cinema, a arquitetura, a publicidade ou a economia. É preciso admitir isso. Com respeito ao futuro na internet: creio que, para os autores, se abre um campo ilimitado com dispositivos como o tablet, como o iPad. Ao poder não só escrever o texto, mas também fazer vídeo e inserir som, o escritor passa a ser outro ser distinto do autor tradicional, uma espécie de compositor de uma sinfonia que incorpora várias linguagens. Assim fiz em meu livro El Hacedor (de Borges), Remake. Penso que ainda estamos engatinhando nesse campo, ainda somos muito primitivos. Há muito que fazer, estamos ainda na pré-história.

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