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A literatura dos filhos

Os pais de Zambra não o adormeciam com a leitura de ficções de qualquer gênero

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

04 de janeiro de 2020 | 03h00

A gente lê de uma sentada o romance Formas de Voltar Para Casa, do chileno Alejandro Zambra. Primeiro, porque é curto: 151 páginas. Segundo, por ser um belo romance, que, embora escrito e publicado oito anos atrás, continua em perfeita sintonia com o que os chilenos estão vivendo e combatendo nas ruas de Santiago e outras cidades desde outubro. 

Terceiro ou quarto livro de Zambra traduzido no Brasil pela Tusquets e quase certamente o melhor, os tumultos que lhe servem de pano de fundo são as manifestações estudantis de 2011, quando o Chile já sofria as consequências da perebice neoliberal de Sebastián Piñera, sem ainda ter-se livrado do fantasma do sanguinário general Augusto Pinochet. 

Também corrupto do quepe ao coturno, Pinochet, ídolo confesso de Bolsonaro, tornou-se, com todos os deméritos, o símbolo máximo do neofascismo continental. Ao longo dos 16 anos que durou sua ditadura, mais de 30.000 pessoas foram mortas e 200.000 buscaram o exílio. 

Zambra não desce a tais detalhes. Interessam-lhe mais ou apenas os efeitos danosos do autoritarismo sobre a sociedade e as relações familiares, o silêncio espontâneo ou imposto aos chilenos, a indulgência covarde e cúmplice da alta e pequena burguesia diante da repressão e da tortura. E também os medos e traumas de alguns de seus sobreviventes, como um professor que aparece no segundo capítulo. Preso e torturado durante a ditadura, ele quase enfarta ao ouvir os estampidos de um banal tiroteio entre policiais e assaltantes, no estacionamento da escola. 

“Vivemos um momento em que não é bom falar sobre essas coisas”, diz outro professor, referindo-se, obviamente, aos abusos do período pinochetista, que o pai do narrador justifica: “Ao menos naquele tempo havia ordem”. O que leva o filho a se perguntar em que momento o pai se tornara um reaça – se é que não fora sempre daquele jeito. 

Qualquer semelhança com brasileiros saudosistas da ditadura militar de 64 e inocentes úteis do bolsonarismo não é mera coincidência. A rigor, os sismos são a única coisa que abala a simetria entre o Chile e o Brasil dos últimos 46 anos. 

O narrador do romance nasceu, como Zambra, em 1975, dois anos depois do golpe que derrubou Allende, numa família “sem mortos e sem livros”. Ou seja, sem incentivo familiar à leitura nem vítimas fatais da ditadura, de que ele só guardou lembranças difusas e a certeza de ter sido uma época em que “a gente boa às vezes era perseguida por pensar diferente”.

Nas eleições de 2010, os pais votam, coerentemente, em Piñera. Desalentado, o filho/narrador prevê a vitória do candidato de centro-direita nos dois turnos, o que de fato ocorre, e uma cândida e plácida entrega do país aos agentes do grande capital, ao Opus Dei e aos legionários de Cristo. Seu desabafo (“Chile é um país de merda que será governado por um ricaço branco que vai fazer discursos e mais discursos celebrando o bicentenário”) também se confirmaria, antes e durante as celebrações do bicentenário da independência do Chile, em 2018. Em novembro, apenas 13% do eleitorado apoiavam o presidente.

Apesar de criado sem livros em casa, o protagonista de Formas de Voltar Para Casa virou um escritor, passível de ser confundido com o próprio autor, como o Julian de A Vida Privada das Árvores, outro hábil criador de matrioscas narrativas da têmpera de Roberto Bolaño e Paul Auster. 

“Mesmo que queiramos contar histórias alheias, terminamos sempre contando nossa própria história.” Com essa observação, Zambra praticamente nos liberou para acreditar no caráter autobiográfico de suas obras ficcionais. Para disfarçar um pouco as semelhanças entre ele e o narrador de Formas de Voltar Para Casa, Zambra desistiu de também fazê-lo sofrer de crônicas enxaquecas, como planejado na primeira versão do romance. 

Os pais de Zambra não o adormeciam com a leitura de ficções de qualquer gênero, e sua avó só lhe contava histórias das vítimas fatais de um terremoto ocorrido em 1939, que também matou os bisavós e um tio do escritor. Terremotos sempre foram os pinochets da natureza no Chile. Natural, portanto, que Formas de Voltar Para Casa comece e termine com um abalo sísmico.

A intenção inicial de Zambra era escrever algo indefinido sobre Las Terrazas, a vila da comunidade de Maipu, na zona urbana de Santiago, onde ele cresceu. Queria deixar as ideias correrem soltas, sem planificação, embora atentas ao desejo de retratar e refletir sobre o sentido de comunidade, a solidariedade entre as pessoas e a nossa necessidade de pertencer a algum lugar. 

O cruzamento com a ditadura era inevitável. “É quase impossível para mim separar a ditadura da minha infância e a democracia da minha adolescência”, disse numa entrevista. “Minha geração viveu a democracia e a adolescência ao mesmo tempo, e nos demos conta de que só a segunda era totalmente segura.”

Foi Zambra quem criou a expressão “literatura dos filhos” (título do terceiro capítulo do romance), depois utilizada para rotular as narrativas carregadas de culpa, cobranças e perplexidade da nova geração de escritores chilenos, como Lina Meruane, Alia Trabucco, Nora Fernández etc, todos herdeiros desse jovem senhor de 44 anos, que, na minha modestíssima opinião, é o mais cativante ficcionista latino-americano vivo. 

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