A literatura acima da própria vida

Relançamentos e a publicação de inéditos trazem à tona a radicalidade do projeto autoral do carioca Lima Barreto, que distinguia ''escritores'' de meros ''literatos''; os que ''criam'' dos que ''seguem a moda''

Antonio Arnoni Prado, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

A quase noventa anos de sua morte, só mais recentemente a obra do carioca Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) passou a receber de seus estudiosos o cuidado que sempre fez por merecer. Depois da decisão de Caio Prado Júnior, que em 1956 a publicou em 17 volumes, reunindo-a pela primeira vez, sob critérios editoriais de opera omnia, os trabalhos de edição crítica, estabelecimento de texto e aparato histórico-literário coordenados por Francisco de Assis Barbosa, com a assistência de Antonio Houaiss e M. Cavalcanti Proença, afora a notável biografia do próprio Assis Barbosa, vemos agora se renovar o interesse da crítica pelo tratamento e a elucidação contextual dos escritos do autor de Recordações do Escrivão Isaías Caminha, sabidamente descurados por ele, naquele cipoal de frustrações e tristezas que se abateu sobre sua vida.

Em grande parte deles, como na reedição do Diário do Hospício e do Cemitério dos Vivos, organizada por Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura; na publicação de Lima Barreto e a Política - Os Contos Argelinos e Outros Textos Recuperados, organizada por Mauro Rosso; ou na reunião dos Contos Completos (incluindo inéditos) prometida para outubro pela Companhia das Letras, com organização de Lilia Moritz Schwarcz, renova-se o empenho de alguns trabalhos anteriores interessados não apenas em selecionar, classificar e estudar a natureza da crônica, do conto e do romance de Lima Barreto (caso do Triste fim de Policarpo Quaresma, editado em 1997 pela Colección Archivos), como também para reordenar a leitura das relações internas que dão equilíbrio à própria essência de seu universo imaginário. Com isto, vemos ampliar-se o panorama da recepção crítica de seus livros, trazendo para a trajetória da obra, agora em domínio público, e para a significação literária do próprio autor perante as novas gerações, um avanço mais que expressivo.

O desejável, no entanto, é que essa retomada não se reflita apenas no enriquecimento de seu contexto documental e biográfico, por mais decisivos e auspiciosos que sejam a correção dos fatos, a descoberta de textos e papéis, o contraponto do cenário histórico e político. Pela simples razão de que, se houve alguém em nossas letras que anulou a própria vida em favor da literatura, esse alguém foi Lima Barreto, o que implica dizer que se há nele algum projeto, este é sobretudo um projeto literário, ainda que soterrado, como vem sendo, pelo jorro infrene da colagem contextual, pela repetição anedótica das fontes, pelo enredo convertido em fotograma casuístico, pelo recorte que argumenta com números, imagens e datas, reduzindo a criação literária a um mero apêndice bibliográfico das circunstâncias, a pouco mais que moldura fungível na rotação dos textos de época.

É verdade que a análise literária, como a estética, está em baixa, e que nem mesmo a crítica como gênero encontra hoje lugar fora da universidade, cujos métodos de interpretação e leitura, com as exceções de praxe, há muito se ajustaram à reprodução mecânica e sistemática da última voga do ibope acadêmico, que o martelo do "especialista" encaixa à força no texto, com o pressuposto da autoridade e da competência, de tal modo que, hoje, o bom estudante de Letras é aquele que "sabe" teoria, não o que "lê" literatura e amadurece nas obras a consciência crítica de seu próprio repertório. E não se trata de querer recusá-lo, num momento em que as referências se multiplicam por mil e em que o tempo da leitura e dos desdobramentos do próprio ofício de escrever (e de ler) parecem remeter o futuro do livro e da arte literária a contextos vertiginosamente imponderáveis. Isto para não falar da crítica-relâmpago, que daí decorre, pretendendo esgotar a análise de um livro nas dicas do parágrafo mais abrangente da "orelha", a ponto de julgar penosas leituras que sequer são feitas, por incúria ou indiferença.

Daí a necessidade de assinalar, nessa retomada altamente positiva de obra de Lima Barreto, a vocação essencialmente literária de seu projeto, que precisa ser destacado na profusão simultânea, e igualmente fecunda, do enfoque multicultural, responsável direto pela reavaliação de seu legado junto a camadas cada vez mais amplas da consciência crítica nacional.

Uma das vantagens dessa retomada é que, rearticulando a imaginação inventiva - como ocorre com a nova edição do Cemitério dos Vivos, por exemplo -, ela o recoloca em seu leito de origem, fazendo ressoar com outra densidade os registros dissonantes que a sua ficção sempre soube harmonizar sem trair a complexidade da realidade que transfunde. Diante deles, é como se os focos da imaginação criadora, imbricando-se por entre o tempo real e as figurações mais fundas do devaneio, rompessem com todas as limitações dos gêneros, para arrojar-se numa escrita solta - meio documento, meio confissão - por onde irrompem o sofrimento oculto, o preconceito, a vergonha de existir, o arrependimento de não haver sabido amar e a paixão irrefreável pela literatura, sempre dividida entre a repulsa do cinismo e a obsessão por descolorir as ilusões, cuja remissão pela loucura ou pelo álcool surge por vezes como o único sucedâneo para escapar, literariamente, ao mau jeito do destino.

Tal circunstância - vislumbrada já em alguns prefácios da mencionada edição das Obras Completas de 1956 - entra em cheio nos escritos, hoje esquecidos, sobre arte e literatura, em particular os comentários e notas sobre livros, as memórias e esboços literários do Diário Íntimo, as trocas de impressões com os jovens autores que o procuravam, conforme os registros de sua ampla correspondência ativa e passiva, sem deixar de mencionar as relações de todo esse material com a obra ficcional, que ia transpondo para o domínio da arte o que as notações pessoais anunciavam como projeto.

Uma edição que reunisse e anotasse com critério o essencial dessa matéria, cruzando-a com os artigos esparsos sobre os "males" do espírito acadêmico, com a retórica dos literatos de fancaria, com a nota inventiva dos poetas e violeiros de arrabalde, alguns deles personagens-chave de contos e romances dos mais expressivos na obra do autor; uma edição que articulasse, no bojo dessa vertente, o humor anárquico do "manifesto samoieda" com a carta de princípios da revista Floreal, por exemplo, em que Lima Barreto recusa o figurino "letrado" e seus "teoremas de arte com seguras teorias de estilo", daria ao leitor de hoje, na plenitude de sua verve, a atualidade de alguns sintomas "passadistas" que nem talvez as nossas escolas de Letras têm clareza em rechaçar. Entre estes - nas palavras do próprio Lima - a presença dos que "só querem a aparência das coisas /.../ e a banal simulação de notoriedade, umas vezes por incapacidade de inteligência, em outras por instrução insuficiente ou viciada"; "a falta de verdadeiro talento poético"; e "a necessidade de disfarçar os defeitos com pelotiquices e passes de mágica intelectuais"; a submissão às "ideias feitas, receitas de julgamento [por parte dos que] nunca se aventuram a examinar por si qualquer questão, preferindo resolvê-la por generalizações quase sempre recebidas de segunda ou terceira mão"; a intenção "de disfarçar a sua própria inópia poética com padrinho esquisito e misterioso"; a insistência no "culto da harmonia imitativa".

Como se vê, descontadas as inegáveis marcas de época, envenenadas pela dicção rascante do autor de Clara dos Anjos, trata-se de notações reversíveis aos dias de hoje, particularmente se nos lembrarmos de que o que permanece em jogo, em sua base, é a distinção entre "escritores" e "literatos", que, no espírito crítico de Lima Barreto, equivale a separar os que escrevem "criando" dos que escrevem "seguindo a moda".

É sobretudo para esse espírito que devemos atentar, ao registrarmos o auspicioso retorno, agora sob critérios renovados, da escavação intimista do Diário do Hospício e de Cemitério dos Vivos, enriquecidos do "misterioso realismo" dos Contos Completos (com inéditos) e da paródia político-farsesca dos Contos Argelinos e Outros Relatos Recuperados.

ANTONIO ARNONI PRADO É PROFESSOR DA UNICAMP, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE LIMA BARRETO: O CRÍTICO E A CRISE (MARTINS FONTES),TRINCHEIRA, PALCO E LETRAS (COSAC NAIFY) E ITINERÁRIO DE UMA FALSA VANGUARDA (EDITORA 34)

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