A lírica de um mundo em convulsão

Poeta e juiz, Régis Bonvicino assume a posição do flâneur e conta, nos poemas de 'Estado Crítico', o que há lá fora

Moacir Amâncio, especial para O Estado de S. Paulo,

09 de novembro de 2013 | 02h14

O crítico brasileiro Alcir Pécora na orelha e o poeta norte-americano Charles Bernstein na contracapa de Estado Crítico sugerem, e é indiscutível, que Régis Bonvicino assume neste livro a atitude poética do flâneur. Uma figura de aparência passiva que, no entanto, encara e reage aos quadros detectados em seu desfilar imaginário não só pela cidade, mas pelo mundo, com temas e flagrantes locais e não locais, pois tudo lhe é estranho e familiar, independente do lugar e da hora. O seu ponto de vista móvel expande ou contrai o que se entende por local, revelando que não importa onde se coloque, o flâneur se deixará tocar enquanto segue levado por uma totalidade intuída a partir dos fragmentos em desfile. É um fluxo mimético da enxurrada com seu entulho.

Veja-se pelo flagrante sinestésico (desculpem a palavra, mas ela é precisa ao indicar a simultaneidade das sensações, além de apropriadamente evocar a aura simbolista) de Chama Acesa, na página 37, uma cena em que a majestade do ipê amarelo florido torna-se o correlato objetivo do noia a consumir crack, e sendo consumido enquanto vê a imagem de uma garota num cartaz e a deseja ajoelhada diante dele. O circuito das sensações simultâneas forma uma rede de significados num panorama unido pela sensibilidade do flâneur. Uma espécie de explosão fixa a partir do choque provocado pela paisagem onde burros pastam grama encardida pela fuligem dos ônibus num pasto onde também queimam pneus, de onde são vistos alguns prédios por trás dos quais o sol se põe e acende pela última vez as flores do ipê. Enquanto o noia é acendido pela pedra ardente e pelo desejo fantasmagórico ao notar o anúncio da garota, ou seja, pela representação da mercadoria da qual o crack se torna a melhor expressão sintética.

É uma poesia de releitura na qual os quadros urbanos contemporâneos se sobrepõem aos anteriores - como dizia Michel Butor, novos livros são escritos na tentativa de dizer o que o autor não encontrou em suas leituras, para preencher os vazios e, deve-se acrescentar, abrindo novos espaços à interrogação. Na página 61, com Poema Claro, o eu lírico assume o foco de um sem-teto embrulhado num saco de dormir de onde vê o mundo em convulsão já tediosa. Novamente, o sol interfere sobre o paralelismo tenso das imagens finais ou terminais? O que brota do asfalto é um edifício opaco, assumindo a diluição da luminosidade em sua própria condição de coisa sem vida. Há uma flor sim, que tardia "cai na grade / sol alto, puro ego", puro lixo, o descartável. Não seria possível ver aí, na linha que se estabelece entre o edifício que se ergue e a flor que cai para nada uma revisão daquela conhecidíssima e intocável flor do asfalto drummondiana, com evidente ironia?

Este Estado Crítico pode ser considerado um ponto a mais, pela lucidez de seus traçados, para reforçar o argumento de que a verdadeira crítica da arte se faz pelo próprio exercício da arte - como Baudelaire e outros autores demonstram de maneira inesgotável. Estes poemas propõem uma revisão do futuro.  

 

"Estado Crítico"

Autor: Régis Bonvicino

Editora: Hedra (114 págs., R$ 34)

* Moacir Amâncio é professor de literatura hebraica da USP, autor do livro de poemas "Ata" e de "Yona e o andrógino - Notas sobre poesia e cabala"  

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