Tiago Queiroz
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A linguagem e a covid

A covid-19 trouxe para o nosso convívio uma série de palavras e conceitos. Por isso, organizei um glossário

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2020 | 03h00

A covid-19 trouxe para o nosso convívio uma série de palavras e conceitos. Hoje, qualquer conversa fiada tem ares de congresso de medicina. É inevitável apropriar-se de algumas expressões e até criar uma certa relação conflituosa com elas. Abaixo um pequeno glossário das minhas emoções linguísticas nesse “novo normal”.

Novo normal

Usei, abusei, enjoei. Se você der uma raspadinha na expressão, tirar a casquinha dela, vai perceber que significa pouca coisa. Que raios é o novo normal? Virou muleta para preencher qualquer silêncio. Pode funcionar em letra de música. Tanto faz se sertaneja ou tropicalista. Serve para Jorge & Mateus, Caetano & Gil.

Achatar a curva

Gostaria muito de saber a opinião de Oscar Niemeyer sobre essa expressão. No futuro, acho que pode guardar um certo erotismo: “vamos achatar a curva lá em casa”.

EPI

Tenho problemas com siglas. Mas já me senti aliviado ao saber que não se tratava de um novo imposto parecido com a CPMF (mas que o ministro nega ter qualquer relação com a CPMF). A saber: EPI – Equipamento de Proteção Individual. 

Assintomático

Palavra que carrega um peso, parece um título de nobreza: “Fulano é o assintomático do condado de Durham, no sul da Inglaterra”. Pode ser usada por sommeliers ao detectarem um vinho impróprio para o consumo. “Infelizmente, esse vinho já está assintomático. Vou buscar outro na adega.”

Vírus chinês

Paro de ler qualquer texto (ou tuíte) que tenha essa expressão, que costuma dar uma boa pista sobre as inclinações políticas de quem usa. Pior, pode indicar racismo. Meus amigos não usam “vírus chinês” perto de mim.

Comorbidades

É uma palavra tão feia que o meu corretor insiste em “conformidades”.Me dói menos falar “pessoas com outras doenças” do que pessoas com “conformidades”. Minha tendência é achar “comorbidades” muito mais grave. Talvez encontre em poemas de Augusto dos Anjos, Álvares de Azevedo ou Lord Byron.

Transmissão comunitária

Fora do contexto da pandemia pode ser usada para se referir a uma rádio local ou comunitária – que transmite para um bairro ou região da cidade (com programas patrocinados pelo açougue do Agenor). 

Cloroquina

Sou tão velho que já cheguei a usar a expressão “pirou na batatinha”. Convoco a nação a atualizá-la para “pirou na cloroquina”. Para ser usado em frases como: “Vossa Excelência pirou na cloroquina”. 

Distanciamento social

Minha adolescência cabe nesse conceito. Muito tempo trancado no quarto, sabe? 

Imunidade de rebanho

Sempre que ouço essa expressão, canto mentalmente: “Êh, ô, ô, vida de gado/ Povo marcado/ Êh, povo feliz!”. Também penso em virar vegetariano. 

Lockdown

Palavra que me leva para os anos 80. Mullet no cabelo, ombreiras e outras coisas de gosto duvidoso. Certeza que você vai encontrar umas 5 mil bandas de rock (oitentista) com esse nome. Também foi muito usada como nome de danceterias no mesmo período. O mesmo serve para a palavra “surto”.

Pico da curva

Hoje, todo mundo sabe o que é. Mas bem que poderia ser uma praia pouco conhecida no litoral norte de São Paulo. Uma praia liberal, com muito reggae. 

Lives

“Fazer uma live” e “assistir a uma live” são expressões com fôlego para resistirem ao tempo. Certamente irão ganhar outros significados. Que podem ser de caráter sexual ou escatológico. Em um contexto mais radical, pode se relacionar ao consumo de drogas (“vou fazer uma live”). 

Home office

Amava. Hoje, odeio. A palavra funcionava no meu imaginário. Agora, tudo o que eu quero é um escritoriozinho, uma mesinha e uma maquininha de café ruim no corredor da firma. 

Vacina contra covid-19

É a nova palavra “amor”. 

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