A LÍNGUA DE LIMA

Com peça que une Padre Vieira e Guimarães Rosa, Lima Duarte abre festival ibero-americano

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2013 | 02h10

Foi um encontro e tanto. Lima Duarte pouco conhecia do Padre Antônio Vieira quando o cineasta português, Manoel de Oliveira, convidou-o a interpretar o pároco jesuíta em Palavra e Utopia. Para fazer o filme, o ator precisou mergulhar fundo na obra do mestre do barroco. Ler todos os seus sermões, estudar sua biografia, compreender sua destreza única no manejo das palavras.

Já se passaram 13 anos desde então. O longa foi lançado em 2000. Mas Lima volta a encontrar-se com Antônio Vieira em Língua de Deus, montagem que abre hoje o 6.º Festival Ibero-Americano de Teatro. Durante o evento, que se estende até o dia 24, serão encenados também outros 13 títulos, de seis países.

Ainda que integre a grade oficial da mostra, Língua de Deus não é propriamente um espetáculo. Mais adequado, talvez, fosse chamá-la de obra em construção. "Ainda não está acabado. Será um primeiro teste com o público. É como se fosse um stand-up. Um 'old stand-up' porque parece que só jovens fazem esse gênero, não é? ", questiona o intérprete, que assina também a dramaturgia e a direção.

A obra surgiu por acaso; enquanto participava de um colóquio de intercâmbio cultural Brasil-Portugal, na Universidade de Coimbra. "A Globo me enviou para lá e eu não sabia ao certo sobre o que falar", conta. Acabou concebendo esse recital, em que a voz do padre Vieira encontra outra: a de Guimarães Rosa. "Pensei em unir o mais brasileiro de todos os portugueses, que era o padre Vieira e, do outro lado, João Guimarães Rosa. Trouxe Riobaldo Tatarana, herói do Grande Sertão: Veredas", explica. "Bolei um diálogo dos dois. Porque o Vieira leva o idioma aos píncaros do que pode ser. É um imperador da língua. E o Guimarães Rosa é um 'inventa-língua'. Quando a palavra não traz exatamente o que ele quer dizer, ele cria uma outra."

Na tentativa de temperar essa conversa entre Guimarães Rosa e Vieira, o intérprete convoca um terceiro elemento. Traz a imagem de um velho índio tupi e recupera um episódio dos primórdios da colonização. Obrigado a rezar uma versão da Ave-Maria - transposta pelo padre Anchieta do latim para o tupi -, o indígena arruma um subterfúgio linguístico para não louvar uma santa da qual não era devoto.

"Juntei esses três cavalheiros, o padre, o jagunço e o índio, e os coloco para falar", conta o ator. Dessa reunião fictícia, Lima tenta extrair respostas para as perguntas: do que falavam esses homens? Que língua era essa? E qual seria a língua de Deus? "A língua divina é a da justiça, da compreensão, do amor", diz ele. "Neste tempo de tanta grosseria e crime queria fazer algo sofisticado, elaborado. Depois, quero pegar esse meu stand-up e sair por aí, para mostrar a quem quiser me ver."

Outras línguas. Em sua sexta edição, o festival persiste em seu propósito original: trazer uma parcela da produção de países da América Latina, como Argentina e México. Além de abrir o leque para Portugal e Espanha.

Como de costume, a curadoria não exibe um recorte específico. Tenta ser o mais abrangente possível, abarcando trabalhos de linguagem clássica ou contemporânea. Além de mapear o que está sendo feito em cada uma dessas praças estrangeiras, a intenção do coordenador da programação, Luiz Avelima, é traçar um paralelo entre o que se faz nas Américas e na Europa ibérica.

Ainda que não tenha um enfoque temático, a programação privilegia trabalhos de conotação histórica e política. O espetáculo argentino ADN (Hijos Sin Nombre) discute o onipresente trauma da ditadura militar no país. Já a Cia. Tryo Teatro Banda, do Chile, traz Pedro de Valdivia: La Gesta Inconclusa, espetáculo musical que conta a história da colonização do Chile (1536-1553). De Portugal vem 1325, uma visão bem-humorada da Resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas que exorta os Estados membros a incluir as mulheres na construção da paz.

Os espetáculos brasileiros são maioria na mostra. A grade contempla oito produções nacionais. E é uma oportunidade de conferir montagens de outros Estados. A carioca Uma Noite na Lua, de João Falcão, é protagonizada por Gregorio Duvivier. Outro destaque é a peça É Só Uma Formalidade, do grupo Quatroloscinco, de Belo Horizonte.

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