A Liga dos Villa-Lobos superstars

"É uma palmeira que pensa como palmeira, sem sonhar com pinheiros nórdicos". Villa-Lobos adorava e repetia sempre esta frase que seu amigo, o cubano Alejo Carpentier, usava para defini-lo. Villa Lobos foi um mediador por excelência na cultura brasileira, trafegando nas rodas de chorões e nas salas de concerto. Uma outra frase foi descrita com precisão apaixonante pelo escritor italiano Roberto Cotroneo: "Os músicos têm o mesmo poder que têm os espelhos. Refletem tudo dos outros. Espelham os sentimentos das pessoas. A música não é nada sem isso, meu rapaz."

O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2012 | 03h10

Sinceramente, não conheço outro músico capaz de "espelhar" de um jeito tão original e brasileiro "os sentimentos das pessoas" e de demonstrar que a música só existe "se te passa através do corpo, se te recorda aquilo que você foi e aquilo que será" como Villa-Lobos.

Juntei estas maltraçadas reflexões enquanto ouvia o magnífico CD Villa-Lobos Superstar, que será lançado hoje e amanhã, em shows no SESC Vila Mariana. Ao todo, dez artistas dialogam entre si e constroem belas e comoventes recriações livres de doze obras do compositor. Uma alquimia tecida com o encontro de dois grupos de excelência: o quinteto Pau-Brasil e o Ensemble SP. Décadas de estrada e convívio com o melhor da música popular instrumental e com a música dita clássica. Com direito a um convidado especial, o cantor Renato Braz, de afinação impecável e belo timbre.

Nelson Ayres e Paulo Belinatti dividem a autoria dos arranjos, alguns a quatro mãos, num nível de refinamento admirável. Lá estão várias das melodias mais conhecidas do Villa, transfiguradas e ao mesmo tão fiéis ao espírito de Villa-Lobos.

Tudo parece no lugar, mesmo quando a recriação se afasta mais do original, como nas canções. Assisti ao espetáculo ano passado em São Paulo. O CD é tão emocionante quanto o show: traz Villa para o século 21 sem desfigurá-lo, provoca em quem não o conhecia a vontade irresistível de curtir mais Villa; e quem já o conhece sente, como diz Cotroneo, "a música passar através do corpo."

É difícil destacar uma entre as doze faixas. Um ponto culminante é, sem dúvida, a recriação das Bachianas Brasileiras no. 5 - Ária (Cantilena) e Dança (Martelo). Outro é o Allegro do quarteto de cordas no. 5, onde aos quatro integrantes do Ensemble SP juntam-se Teco Cardoso e Ricardo Mosca do Pau-Brasil. Entre os arranjos, destaque para dois de Belinatti (o Choros no. 1, original para violão solo recriado com os nove músicos em ação, e o Sexteto Místico); e para dois de Nelson Ayres no domínio das canções (Cair da Tarde e o Lundu da Marquesa de Santos).

Os dez músicos responsáveis por Villa-Lobos Superstar certamente comungam com o compositor brasileiro duas convicções: são palmeiras que pensam como palmeiras; e só validam as músicas que passam através do corpo de quem as ouve, tanto quanto de quem as cria. / J.M.C.

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