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A lição do outro

Aprendi que discordar não era falta de educação e descobri que copiar era para os medíocres

Roberto DaMatta, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

12 de janeiro de 2022 | 03h00

São comuns as comparações entre Brasil e EUA e eu sou um “culpado” menor entre Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Monteiro Lobato, Erico Verissimo a Viana Moog. Pôr lado a lado sociedades e culturas leva a perplexidades. Porque eles não são como nós ou nós como eles?

Na América, aprendi que discordar não era falta de educação e descobri que copiar era para os medíocres. Ter opinião era a marca da

excelência. Pensar com minha própria cabeça tornou-me um outro para o meu lado treinado discutir com os mais velhos ou sábios. 

Descobri que eles foram feitos por muitas guerras. A primeira foi a da independência que os formou enquanto que nós fomos formalmente constituídos por uma corte fugida de Lisboa. 

Decepcionou-me o futebol jogado com as mãos, o individualismo e a falta de relacionamento, algo que quando Joaquim Nabuco, num artigo exemplar, mostrou como a palavra “saudade”, esse amor profundo usado nas cartas de amor e nos túmulos, era intraduzível em inglês...

Quando, num longínquo setembro de 1963 recebi – de um saudoso professor inglês, David Maybury-Lewis, o homem mais civilizado que conheci – uma bolsa para estudar em Harvard, ele teve comigo o seguinte diálogo:

– Roberto, nos EUA, faça sempre o oposto do que ordena a sua índole brasileira. Por exemplo: quando você telefonar, não pergunte agressivamente “quem fala?!!!” mas diga que é você quem está falando. Lembre-se que é você quem está entrando na casa do outro. 

– Numa conversação – continuou –, escute os outros. Não fale ao mesmo tempo como é hábito no Brasil onde vocês vão de um obsequioso e falso silêncio, quando quem fala é o mais importante, a uma Babel verbal quando todos falam ao mesmo tempo. 

Ouvi e, irritado, retruquei: algo mais professor? 

– Sim, respondeu, sereno. Quando você for convidado para um jantar, não deixe de levar sua esposa. Nos Estados Unidos, não há essa fantasia brasileira de comer a mulher do amigo...

Fui um estranho entre os nativos timbira do sul do Pará. Mas lá eu era o pesquisador branco dominante que dava presentes. Agora, porém, eu viajava como estudante e como “latino-americano”. Na América dos iguais, descobri que não era “branco”. Era “hispânico” e, em pelo menos duas situações, “negro”. 

A experiência de virar o outro marcou minha vida. Estranhamentos promovem dramas, mas não é por meio deles que se chega à mais profunda compreensão do mundo? Sobretudo do nosso mundo? Hoje vemos uma clara tentativa de destroçamento da democracia americana, ao lado de um belo “vidas negras são importantes” – como a de todo mundo. Estranhamentos ensinam.

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