A liberdade nas trevas do meio-dia

Ao pressentir a voracidade de Stalin para o poder, Lenin teria advertido Leon Trotsky: "Cuidado, ele tem olhos amarelos". Descontando-se o possível preconceito eslavo de Lenin porque Stalin era da Geórgia, uma república nos limites da Ásia, e falar russo com sotaque, a frase parece romance político. Trotsky morreu por se opor a Stalin que dominara a máquina do PC soviético quando Lenin ainda vivia, mas já doente. Quem o matou com um golpe de picareta de alpinismo chamava-se Ramon Mercader. Era espanhol, mas usava o falso nome franco-canadense de Jacques Mornard. Ao narrar essa vida sinistra em A Segunda Morte de Ramon Mercader, Jorge Semprun, outro espanhol, fez o alerta irônico: "Os acontecimentos abordados nessa narrativa são imaginários. Mais que isso: qualquer coincidência com a realidade seria não só fortuita como absolutamente escandalosa". Agora, um terceiro espanhol, Juan Mayorga, embaralha outra vez a História do século 20, literatura e realidade para recontar a tirania em Cartas de Amor para Stalin. Tomou como assunto o caso exemplar de Mikhail Bulgakov (1891-1940), escritor de altos méritos engolfado pela paranoia generalizada pelo ditador. No seu desespero de banido pelo regime, com as obras censuradas, Bulgakov desanda a escrever cartas a Stalin numa maníaca ilusão igualitária (afinal, seriam eles todos "camaradas bolcheviques").

Jefferson Del Rios, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2011 | 00h00

O núcleo da peça teria sido um telefonema amigável de Stalin a Bulgakov. Mas, de repente, a linha cai, e não há um novo chamado. Bulgakov enlouquece com isso. Escreve compulsivamente ao Camarada Supremo envolvendo a própria mulher no pesadelo. Que tenta demonstrar o absurdo de tudo. Representa Stalin nas suas possíveis razões. Imita sua voz, seu olhar e um lento e impressionante movimento de mão. Juan Mayorga não pretende refazer a biografia do dirigente ou o relato detalhado do período registrado em trabalhos de grande fôlego (Isaac Deutscher e Simon Montefiore, entre outros). Também não desejou, ou não conseguiu uma tragédia histórica nos moldes da peça Trotsky no Exílio, de Peter Weiss. Mayorga quer mostrar o instante em que o artista e/ou o intelectual perde o senso de medida entre sua vontade, ou desproporcional vaidade, de refazer o mundo e os desígnios do Poder. O que não está bem equilibrado na proposta é esse descompasso. Por vezes, Bulgakov parece ególatra insensível à mulher e aos colegas. Sua recusa em receber o escritor Eugeni Zamyatin também em dificuldades é incompreensível como está apresentada. Zamyatin iria imigrar e os exilados estão sujeitos a ódios doentios. Há em Bulgakov um voluntarismo sem peso dramático quando nas prisões soviéticas pereciam vários dos mais luminosos talentos da URSS-Rússia. Reparo à parte, sempre é oportuno rever a incompatibilidade entre política e a livre criação, e as muitas formas de se calar um artista (ou levá-lo ao exílio completo, o que meio século mais tarde aconteceria com o cubano Guillermo Cabrera Infante que fora amigo de Fidel).

O espetáculo atesta a solidez do grupo BR-116, que reúne talentos comprovados e anuncia a proposta de ação "aberta a parceiros multidisciplinares", o que no caso se traduz pela inclusão de artes plásticas e cinema na composição das cenas. A direção de Paulo Dourado instaura um clima denso na representação e o reforça com imagens de Stalin. A cenografia inspirada na obra de construtivistas russos ressente-se, no entanto, da precariedade do acabamento.

Na luz crua do palco prevalece ao final a entrega de Ricardo Bittencourt e Bete Coelho encarnando com ardor e inteligência um casal na voragem de um tempo implacável. São revolucionários e vítimas, filhos do futuro sem liberdades. Stalin empenha-se em cobrir a União Soviética de linhas telefônicas enquanto, na vida real, se comunica cada vez menos. Ricardo expressa esse desespero com perplexidade ofendida. Bete e seu um rosto enigmático transmite, com voz poderosa, o lado noturno de uma era que surgiu de esperanças luminosas.

A questão da luz e das trevas é relevante, não no sentido místico, mas naquele levantado por Arthur Koestler em O Zero e o Infinito, escrito em 1941, um ano após a morte de Mikhail Bulgakov. O título original desse sofrido alerta é Darkness at Noon ou Escuridão ao Meio-Dia. Cartas de Amor para Stalin segue nessa linha.

CARTAS DE AMOR PARA STALIN

Sesc Santana. Avenida Luis Dumont Villares, 579, telefone 2971-8700. 6ª e sáb., às 21h; dom., às 18h. R$ 20. Até 18/9.

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