Carina Zaratin/Divulgação
Carina Zaratin/Divulgação

A liberdade do som marginal

Em seu primeiro disco, MarginalS busca o improviso sem holofotes para solistas

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2011 | 00h00

Haja moeda tilintando. Entre caçadores de níquel e pasteurizados do cenário fonográfico pululando aos borbotões, eis que o ano de 2011 ainda reserva mais de sua boa safra. Depois de maravilhas como Nó na Orelha, de Criolo, Memórias Luso/Africanas, de Gui Amabis, Metá Metá, de Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França, e Um Labirinto em Cada Pé, de Romulo Fróes, entre outros, o mercado agora é tomado de assalto pelo primeiro CD da carreira do MarginalS, que será oferecido gratuitamente na internet nesta segunda-feira.

O trio formado por Marcelo Cabral, Thiago França e Tony Gordin respeita os cânones e os catedráticos, mas tem por timão artístico o sentimento e, principalmente, o bom senso estético e o acaso musical. Pela formação - baixo (Cabral), sax, flauta e EWI (França) e bateria (Gordin) - o olhar precipitado logo aponta para a rasa definição de um trio de jazz. Há espaço para todos, mas a marginália no nome que batiza o grupo não é fortuita. O MarginalS prima pelo não manjado, pelo som que está à margem do convencional. Em vez do palco formal e do altar artístico, aquele que estabelece uma hierarquia e um distanciamento entre plateia e artista, o trio assumidamente busca a rua e a balada, provando ser mais do que possível oferecer um som instrumental de extrema qualidade a preços populares e a ouvidos e peitos abertos, sem a casaca pomposa do erudito.

"A gente respeita os caras que buscam o tradicional, mas não quer holofote para nenhum solista. No jazz, os caras partem de um tema para desconstruí-lo e chegarem ao improviso. A gente faz totalmente o contrário, partindo do improviso para chegar num tema legal ou num groove", diz Thiago Franca.

Entre o show de hoje - que marca um ano de trabalhos do MarginalS -, na Serralheria, e a primeira apresentação, o trio foi se entrosando. Tony Gordin recebeu carta branca para escalar quem quisesse em uma noite livre no Tapas Club, na Augusta, e resolveu convocar Cabral e Thiago França. Mal sabiam o que iriam tocar. Nem sequer haviam ensaiado. Após uma noite incendiando a pista da balada, sem roteiro prévio, decidiram dar continuidade ao projeto instrumental.

Não que a comunhão dos três representasse algum mistério. Gordin e Cabral já se conheciam de longa data. O baixista e Thiago França também se esbarravam em projetos como a saudosa Gafieira Nacional, que embalava as noites de segunda-feira no Ó do Borogodó, na Vila Madalena. No meio do caminho, eles compartilharam experiências em projetos bem-sucedidos, envolvendo nomes como Criolo, Lurdez da Luz, Romulo Fróes, Gui Amabis, Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Rodrigo Campos.

Depois de maturações do som - embora cada show seja completamente diferente - em casas como Berlin, Studio SP, Bar B e o manancial louvável de atividades gratuitas artísticas Matilha Cultural, o trio chegou ao dilema benéfico de como registrar a liberdade e a "indisciplina" sonora em disco. "A intenção era registrar a sonoridade do trio feita especificamente naquele momento", diz Cabral. "Teve um show em que um cara veio me perguntar o que era aquela música e qual o nome dela. Eu respondi que quem definiria era ele mesmo. Essa interação com o público é importante pra gente", comenta Tony Gordin.

Embora siga seu traçado sem passos programados, em aspectos musicais, o MarginalS - com toda razão existente - abomina o clichê do termo jam session. "O nosso som é resultado do que os três criam o tempo inteiro. Esse lance de jam cria uma impressão de que qualquer um pode chegar para tocar e não é bem assim. Se chegar um cara que não tem nada a ver com a nossa sonoridade, o som não vai sair pelo caminho que a gente gostaria, por mais liberdade que se busque", diz Marcelo Cabral.

Por falar em liberdade, o som do MarginalS se aproxima muito mais do dionisíaco do que do apolíneo. Tanto que no disco o grupo optou por não dar nome aos "temas". "A gente decidiu não dar nome para não guiar as pessoas. Se a gente dá o nome de uma música de Nuvem, você só vai mentalizar uma nuvem. Em relação a estabelecer os cortes nas músicas, a gente decidiu fazer isso para explicar que em determinado ponto termina uma ideia e começa outra", explica França sobre dividir o álbum em faixas, diferentemente do show, que transcorre em "um take só".

Daqui um ano, se o trio resolver palmilhar novas searas musicais, o público que não se espante. O atual e primeiro disco do MarginalS é capaz de encerrar diversos estilos em um só disco. É uma radiografia sonora de quem tem produzido o suprassumo instrumental de hoje.

MARGINALS - Serralheria. Rua Guaicurus, 857, Lapa, telefone 6794-0124. Hoje, às 22 horas. R$ 15.

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