A leitura movida a cliques

Aderi ao Kindle. A bem dizer, resolvi experimentar o Kindle. Sem gastar um tostão com o leitor eletrônico da Amazon. Ganhei acesso aos livros eletrônicos (e-books) comercializados pela maior livraria virtual do mundo via Kindle for PC. Economizei em torno de R$ 900, que é quanto custa aqui a versão global do mais badalado dos e-readers.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

A oferta era irresistível: do site da Amazon.com você baixa, gratuitamente, um software que lhe possibilita ter um Kindle no computador; depois, é só comprar os títulos disponíveis em versão eletrônica, que chegam ao seu computador em questão de minutos. Como não leio na rua e ainda prefiro me distrair em salas de espera com livros impressos, o Kindão (ou seja, meu laptop dotado de Kindle) dá pro gasto. Se não for melhor: sua tela LCD, com tecnologia XBRITE, tem luz própria, um chuá no breu.

Sou bibliófilo juramentado, mas não um ludita - e, acima de tudo, um curioso das chamadas novas tecnologias. Menos avesso à leitura na tela de um computador que a maioria das pessoas, considero uma imensa vantagem a possibilidade de navegação oferecida por qualquer hipertexto. Quantas vezes Machado usa, em Dom Casmurro, a palavra "ciúmes"? Resposta: 14. Tente computá-las e encontrar cada uma delas na versão impressa do romance. Também só na versão e-book de Guerra e Paz posso ir direto, em segundos, ao duelo de Pedro com Dolokhov ou a qualquer outra passagem do caudaloso romance.

Gostei, com reservas, do Kindle for PC. Faltam-lhe alguns recursos do Kindle (opção áudio, mecanismo de busca, anotações e realce), prometidos sine die pela Amazon, mas é possível alterar o tamanho da fonte e marcar páginas, o que ainda é pouco para justificar uma opção pelo livro eletrônico, que, mesmo em sua mais bem acabada encarnação, exagera nas esquisitices.

Páginas sem números, por exemplo. No lugar da numeração tradicional, temos, no rodapé, algo chamado "location". Na versão digital de A History of Histories, de John Burrow, a informação de como Edward Gibbon teve o estalo de historiar a queda e a ascensão do Império Romano (flanando pelo Capitólio, em 15 de outubro de 1764), não fica na página tal, mas na "location 6.335-47".

Comecei minha kindleteca com mais dois ensaios que precisava ler com urgência, Reality Hunger, de David Shields, e You Are Not a Gadget, de Jaron Lanier, seguidos de algumas amostras grátis, para eventual compra, entre as quais o último romance de Don DeLillo, Point Omega. Eis o que mais nos move a recorrer à versão digital de um livro: a pressa de consumi-lo. Se pudesse comprá-lo, impresso, na livraria da esquina ou recebê-lo pelo correio em menos de 24 horas, minha kindleteca teria menos títulos que a mesinha de cabeceira de um BBB - até por ser ínfima a diferença de preços entre os livros e e-books recém-lançados. Solar, o mais novo romance de Ian McEwan, sai por US$ 15.75 em capa dura, e por US$ 14.99 na versão eletrônica.

Há livros baratos e mesmo de graça no acervo Kindle da Amazon, mas lixo, nem de graça, certo? Há clássicos que nada custam, é verdade, pechincha inócua para quem já os leu com lombada e deles não se desfez. O catálogo de e-books da Amazon, praticamente restrito a obras em inglês, tem muitos furos. Nada de Nabokov, Greene, Bellow, Salinger, Pynchon, Edmund Wilson, Mary McCarthy, Gore Vidal. De John Cheever, só uma modesta seleta de oito contos. De J. M. Coetzee, seu último romance, Summertime: Fiction, e olhe lá.

Duvido que o livro, o maior artefato civilizador inventado pelo homem, esteja com os dias contados. Não tenho como provar sua imperecibilidade, mas como seus tecnófilos coveiros tampouco têm como provar a inevitabilidade de sua obsolescência, fiquemos no concreto: o livro tem 550 anos de serventia e seu avatar eletrônico, menos de 20 anos de experimento e alguns meses de modismo. Frívolo modismo, em muitos casos. Gente que não tinha o hábito de ler - gostar de ler, eis a questão - não modificará seus hábitos motivada, exclusivamente, pelo Kindle.

Assim como o CD não acabou com o vinil, o cinema não acabou com o teatro, nem a TV com o cinema, por que duvidar que algo tão prático e entranhado em nossas vidas como o livro impresso possa desaparecer para sempre? Seu desaparecimento seria inevitável sobretudo por razões econômicas, já que as crescentes despesas com papel, impressão, encadernação e distribuição tendem a inviabilizar a produção do livro tal como o conhecemos. Ocorre que os gastos com todos aqueles itens devoram apenas 20% de seu preço de capa.

Das notórias vantagens do livro eletrônico (suas páginas não viram à nossa revelia, ao sabor do vento; se um é roubado, compra-se outro e baixam-se de novo os títulos já adquiridos, etc.), nenhuma é mais enaltecida que a sua portabilidade e sua capacidade de armazenamento. Num Kindle, cabe uma biblioteca inteira. Mas quantos tomos somos capazes de devorar num feriado ou nas férias?

A despeito do enorme potencial do livro eletrônico, seu sucesso ainda é, et pour cause, relativo. Caro, ele responde por apenas 5% do mercado de livros e o grosso de sua freguesia pertence à geração baby boomer (gente na faixa dos 46-64 anos). A clientela mais jovem talvez estivesse esperando pelo iPad, o superKindle que a Apple afinal lançou no sábado passado e cuja variedade de recursos deixa no chinelo todos os leitores eletrônicos existentes no mercado.

O iPad é um misto de e-reader com notebook, TV e celular inteligente, e suporta imagens em cores, ao contrário do Kindle e similares, monocromáticos e monocórdios. Até luditas enrustidos gostaram do brinquedo, mas ainda é prematuro proclamar Steve Jobs como o Gutenberg do novo milênio.

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