JF Diorio/AE
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A justiça da ficção, pelos olhos da lei

Advogados assistem a Doze Homens e Uma Sentença, peça de Eduardo Tolentino inspirada no filme homônimo

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2010 | 00h00

Faz muito calor. Talvez seja o dia mais quente do ano em Nova York. Trancados dentro de uma sala, 12 jurados deliberam sobre a vida de um rapaz, acusado de matar o próprio pai. Precisam chegar a uma decisão unânime. Se for considerado culpado, o destino do garoto será a cadeira elétrica. O enredo não é novidade para ninguém. Dirigido por Sidney Lumet, Doze Homens e Uma Sentença figura como o mais reverenciado "filme de tribunal" da história. Teve três indicações ao Oscar, arrebatou o Urso de Ouro em Berlim e um séquito de fãs. Mas teria sua história sobrevivido ao tempo? A Justiça funciona assim ainda hoje?

Foi para responder a essas questões que dois advogados assistiram à versão teatral de Doze Homens e Uma Sentença, peça que Eduardo Tolentino, premiado diretor do grupo Tapa, leva a partir de hoje ao CCBB. A convite do Estado, o criminalista Arnaldo Malheiros Filho e o especialista em direito internacional Carlos Pinheiro Jr. concordaram em apreciar a montagem protagonizada por Genézio de Barros e Norival Rizzo (que vive o personagem interpretado por Henry Fonda no cinema).

A encenação conduzida por Tolentino é muito semelhante ao filme. Reproduz diálogos inteiros. Lembra a movimentação em cena. Tem exatamente a mesma trama: um caso de culpa inequívoca que gradativamente se revela frágil, um conflito que se desfaz em camadas.

Sua dramaturgia, tributária do melhor estilo do teatro norte-americano dos anos 1950, é capaz de fisgar a atenção de qualquer espectador. Não foi diferente com os dois juristas. Sentados lado a lado na plateia do teatro, viram todo o espetáculo em silêncio, aparentemente atentos a tudo o que se passava no palco. Quando as luzes se acenderam, ambos foram conversar com o elenco. E já aí ficou patente a atualidade do texto do roteirista Reginald Rose.

Ao pé do palco, os atores aproveitam para fazer perguntas sobre o sistema judiciário norte-americano. Então a decisão para a pena de morte precisa ser sempre unânime? Nem sempre, lembra Pinheiro Jr. "No Oregon e na Louisiana basta a maioria simples." Também surgem inevitáveis referências a crimes recentes, como o nebuloso episódio que envolve o casal Nardoni. No caso que foi a júri popular, os dois foram condenados pelo assassinato da menina Isabella, jogada do sexto andar de um prédio. Teria sido diferente se os jurados pudessem discutir, como acontece nos Estados Unidos? Difícil arriscar um palpite. Mas ambos reconhecem falhas no modelo brasileiro, que proíbe o debate. "É um sistema artificial, que parte da ideia de que você pode se influenciar", aponta Malheiros. Posição compartilhada por seu colega: "A não ser que você seja um monge beneditino e viva enclausurado, na vida real não é assim. Formamos opiniões ouvindo os outros, expondo as nossas próprias posições."

Primeiro na TV. Antes de ser levado às telas por Sidney Lumet, Doze Homens e Uma Sentença surgiu como telepeça. Foi ao ar ao vivo, pela CBS, em 1954, e fisgou imediatamente Henry Fonda, que decidiu encomendar um roteiro para o cinema. Desde então, a trama não cessou de ganhar novas versões. Foi refilmada para a televisão em 1997 com Jack Lemmon no papel principal, inspirou o filme 12, do cineasta russo Nikita Mikhalkov, mereceu montagens teatrais inspiradas, como a assinada por Harold Pinter, em 1996. "O grande charme dessa peça é a necessidade de julgar que ela impõe", opina Malheiros.

Diante dos incontáveis indícios levantados durante o julgamento, é difícil duvidar da culpa do menino acusado em Doze Homens e Uma Sentença. Além disso, há duas testemunhas que confirmam a versão da promotoria. O vizinho do andar de baixo garante que ouviu uma briga minutos antes de escutar o corpo da vítima cair no chão. Reconheceu a voz como sendo do garoto. Do outro lado da rua, uma mulher também conta que viu o assassinato, no exato momento em que o pai teria sido esfaqueado. Rapidamente, todos decidem pela condenação. Todos menos um. E é aí que começa o conflito motriz dessa obra, quando gradativamente o oitavo jurado impõe uma dúvida razoável sobre a autoria do crime e coloca em cheque a veracidade das testemunhas.

Paixões. "Isso é muito comum. A testemunha não vai deliberadamente mentir, mas pode cometer aquilo que chamamos de auto-engano. Além disso, na hora de julgar as pessoas carregam consigo as suas razões pessoais, suas paixões, suas raivas", comenta Pinheiro Jr.

Talvez Doze Homens e Uma Sentença tenha tanto potencial para agradar os advogados e os amantes do Direito pela própria forma como o autor desenvolve o mote inicial. Em seu desenrolar, a peça se assemelha a uma discussão socrática, em que se tenta alcançar a essência dos fatos pela discussão, e evoca as antigas tragédias gregas, nas quais se investigava a natureza humana e sua complexidade.

"É quase uma peça clássica, em que o coro grego é colocado diante de duas posições antagônicas", esclarece o diretor. "Também pode se dizer que coloca em discussão um tema político." Político não no sentido partidário do termo, é bom lembrar, mas uma discussão sobre a pólis, sobre uma questão da sociedade que reúne todos pelo bem comum.

QUEM SÃO

CARLOS PINHEIRO JR.

JURISTA

Especialista em Direito Internacional, o jurista trabalha no mercado financeiro. Nos Estados Unidos, estudou também Direito Comparado, um segmento das Ciências Jurídicas que se detém justamente sobre as diferenças e as semelhanças dos sistemas de cada país.

A. MALHEIROS FILHO

CRIMINALISTA

Criminalista, Arnaldo é professor de direito penal econômico na Fundação Getúlio Vargas e sócio da Malheiros Filho, Camargo Lima e Rahal Advogados. Tornou-se conhecido por defesas de clientes famosos, como Edemar Cid Ferreira, presidente do Banco Santos, e Eliana Tranchesi, da Daslu.

12 HOMENS E UMA SENTENÇA

CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651. 5ª a sáb., 19h30; dom. 18 h. R$ 15. Até 19/12.

VERSÕES DA MESMA HISTÓRIA

Televisão

O argumento de Doze Homens e uma Sentença foi escrito originalmente por Reginald Rose como uma telepeça, em 1954. Ao mesmo autor coube a autoria do roteiro cinematográfico, dirigido por Sidney Lumet três anos depois, com Henry Fonda no papel principal. Assim como na telepeça, o filme é influenciado pela linguagem teatral, resquício de um tempo em que o palco ainda inspirava o cinema.

Cinema

Em 1997, a telepeça de Reginald Rose ganhou uma refilmagem dirigida por William Friedkin, diretor de O Exorcista. Na versão, pensada para a televisão e depois exibida no cinema, Jack Lemmon interpretava o protagonista. Na Rússia, a história também inspirou o diretor Nikita Mikhalkov a criar 12, filme em que um garoto checheno é acusado de matar o pai adotivo, um oficial do Exército russo.

Teatro

O texto já mereceu diversas montagens teatrais. Em 1996, o dramaturgo Harold Pinter dirigiu uma elogiada produção da obra de Reginald Rose. No Festival de Edimburgo, em 2003, também foi apresentada com sucesso, Na Broadway, a história foi montada pela Rondabout Theatre Company, em 2004, e mereceu três indicações para o prêmio Tony. Neste ano, ganhou nova versão em Paris.

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