A jornada é maior do que o destino

Final de 'True Detective', exibido hoje, chega ao ápice do suspense ao solucionar crime e deixar questões em aberto

CLARICE CARDOSO, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2014 | 02h09

Não há respostas definitivas. E quem só esperar por elas pode perder o melhor. Elas não serão dadas no final de True Detective, que irá ao ar hoje, às 22 horas, na HBO. O capítulo não tem esse objetivo, muito menos a série.

Já no terceiro episódio, essa dica estava dada quando o niilista personagem Cohle afirma: "Este é um mundo em que nada é resolvido". Por mais que o pano de fundo seja a caça de um serial killer, é algo que está mais no interior de si mesmos o que buscam os detetives Rust Cohle e Marty Hart, interpretados por Matthew McConaughey e Woody Harrelson.

Sob um líder carismático (e psicótico), anos de loucura e violência fizeram vítimas mulheres e crianças. Há quem diga que a série é machista, mas não seria isso o sinal da trama expondo de forma ainda mais veemente um traço forte que guiava a seita patriarcal por trás dos crimes?

É nessa investigação que os dois detetives se lançam depois de encontrar o corpo de uma ex-prostituta numa cena de crime com elementos de ritual satânico no primeiro episódio. Dezessete anos se passam ao longo de oito capítulos, enquanto eles procuram entender quantas pessoas e o quão envolvidas elas estão naquela seita. O relacionamento entre os dois se desenvolve, e três momentos se sobrepõem: em 1995, quando começam a trabalhar no caso, em 2002, quando os dois se desentendem, e em 2012, quando os crimes voltam a ocorrer e novos detetives pedem pela ajuda deles.

Estão lá as pistas para encontrar o assassino, mas o que True Detective fez semana após semana foi construir camadas que aprofundavam as razões para os crimes e as motivações para os homens da lei se envolverem tão intimamente na investigação. Uma explicação que foi dada desde o começo pelo diretor de todos os episódios, Cary Joji Fukunaga, e pelo criador Nic Pizzolatto.

No final, são entregues algumas soluções, mas não de forma óbvia ou didática. Há paz mesmo sem soluções últimas, até porque os finais nem sempre são definitivos.

Mais que a captura do criminoso, o momento alto é o último monólogo de McConaughey, em que vislumbra um outro lado de Rust. No papel, fica claro porque o Oscar de melhor ator foi merecido. Assim como no cinema, Matthew entra sem freios no personagem e traz uma interpretação intensa. Passa por uma transformação visual e psicológica profunda para viver o que identifica como as quatro fases de Rust. Para chegar aí, escreveu nada menos do que 450 páginas sobre o personagem. Não é mais nem de longe o galã de comédias românticas de antigamente.

Pizzolatto já havia mostrado o talento para o suspense em sua colaboração para a série The Killing, mas foi no desenrolar de True Detective que seu lado romancista realmente transpareceu. Ex-professor universitário de ficção, ele é autor de dois romances e fez uma produção fortemente baseada no gênero literário. Ao falar dela, cita teorias como a do iceberg de Hemingway, e não hesita ao colocar frases nietzschianas nos monólogos de McConaughey. Mas só o fez porque controlou todo o processo: escreveu todos os episódios e os deixou na mão de um único diretor, o que fez diferença.

Para quem perdeu algum episódio ou quer aproveitar para revê-los, a série está disponível no site sob demanda da emissora no Brasil, o www.hbogo.com.br.

A propósito, a procura pelo episódio final nos Estados Unidos tirou do ar o serviço local no domingo passado, quando foi exibido. Até agora, o canal não soube dar uma explicação técnica para o acontecido, mas o fato é que não estava preparado para tamanha demanda. De fato, a recepção foi grandiloquente: atraiu em média 11 milhões de espectadores norte-americanos. Era um número que a emissora não via desde 2001, com Six Feet Under, que é considerada um clássico da televisão moderna. Pelas inovações que propôs, True Detective tem tudo para entrar para a mesma lista.

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