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Luis Fernando Verissimo
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A janela

Freud escreveu em algum lugar que não existe nada mais parecido com a paranoia do que a filosofia. Querendo dizer, acho eu, que a filosofia também vê uma trama por trás de tudo. Assim como todo complexo é o sintoma de uma disfunção a ser descoberta na análise, toda filosofia é uma tese conspiratória. Para a filosofia, tudo que existe é a ponta de um iceberg, exceto, talvez, a ponta de um iceberg, que deve ser outra coisa. Há uma lógica secreta na vida dos homens e das nações. O retorno do reprimido freudiano é o eterno retorno nietzschiano depois de uma análise.

Luis Fernando Veríssimo, O Estado de S. Paulo

17 Maio 2015 | 02h00

Tirando um exemplo do chapéu: quando fizeram um plebiscito para decidir que nome deveria ter Leningrado, depois que Lenin caiu em desgraça, a maioria da população escolheu São Petersburgo. Não quis nem Petrogrado, nome dado em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial, quando, presume-se, a antipatia com santos era grande. A população quis o santo e o “burgo” de volta à cidade que Pedro o Grande construiu sobre um pântano para ser uma janela através da qual a Europa veria como a Rússia se civilizava. O custo humano deste capricho foi terrível. Em The Russia House, John Le Carré escreveu que em nenhum outro lugar do mundo o barbarismo se fez um monumento tão bonito.

A sina da cidade é ser um símbolo. Era de São Petersburgo que os exilados da União Soviética falavam quando falavam das delícias da vida antes da revolução. Ela era a “capital da memória” de Nabokov, sua cidade natal, e pelo resto da sua vida ele misturou seus mármores e seus canais e os verões idílicos nos seus arredores com lembranças de infância, e com ressentimento. O retorno do reprimido, no caso, foi a tentativa de retomar o jardim dos prazeres do qual o tempo e a História expulsaram a criança. A lógica secreta do plebiscito foi a necessidade de anular o tempo e transformar Leningrado, de novo, num símbolo de ocidentalização.

O tempo fez outros símbolos do velho pântano. Lenin instalou seu quartel-general num ex-colégio de moças da aristocracia local, que só falava francês em casa e veraneava em Biarritz, antes de ser corrida para o exílio. A resistência da cidade ao cerco alemão por quase dois anos, na Segunda Guerra, empolgou o mundo. Mas nada valeu tanto, para os que votaram pela mudança do nome da cidade, do que a sua conotação de fracasso. O plebiscito serviu como um réquiem para a maior experiência de engenharia social já feita, e o tempo não foi suficiente para suprimir o reprimido: Lenin, o santo secular homenageado, não teve a força do outro santo. Se o que venceu foi a nostalgia imperial, outro capricho ou a liberdade, depende da sua filosofia, ou da sua paranoia. O fato é que pela cidade-janela se viu a outra grande convulsão na alma russa depois da revolução, que foi o fim do comunismo.

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