A Itália que desperta

Entrevista com Marco Bellocchio

O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2013 | 02h17

Chegam ao Brasil dois novos filmes de Marco

Bellocchio, um dos grandes

diretores italianos

É fato raro que um grande diretor italiano, como Marco Bellocchio, tenha seus dois filmes mais recentes programados para estreia próxima no Brasil. Irmãs Jamais entra em cartaz no dia 19 e A Bela Que Dorme ficou para maio.

São os dois trabalhos novos de um cineasta que foi muito amigo dos diretores do Cinema Novo (leia texto ao lado) e ficou conhecido em 1965 com o explosivo e provocador De Punhos Cerrados, retrato corrosivo da família italiana. Com sua visão política aguda, mesclada pela influência da psicanálise, Bellocchio continuou em seu veio crítico em filmes fortes como A China Está Próxima (1967), Olhos na Boca (1982), Diabo no Corpo (1986) e O Processo do Desejo (1991). Ausente das telas brasileiras durante alguns anos, voltou com dois filmes estupendos, Bom Dia, Noite (2003), sobre o caso Aldo Moro, assassinado pelas Brigadas Vermelhas, e Vincere (2009), ambientado na Itália de Mussolini.

Irmãs Jamais (2010) e A Bela Que Dorme (2012) deverão agradar aos fãs do cinema de autor. O primeiro tem parentes do próprio Bellocchio no elenco. É fruto de um laboratório de cinema que ele promove todos os verões em sua cidade, Bobbio, em Piacenza. O segundo se inspira no caso real de Eluana Englaro, jovem que permaneceu 17 anos em estado vegetativo até que teve os aparelhos desligados. É um filme brilhante pela maneira como capta os reflexos do drama familiar sobre o conjunto da sociedade. Da Itália, Bellocchio conversou por telefone com o Estado.

Irmãs Jamais é um filme feito a partir do seu laboratório Fare Cinema. Como um workshop vira filme?

Irmãs Jamais nasceu um pouco por acaso. A cada ano, fazíamos essa laboratório em minha cidade, Bobbio, na região de Piacenza e, depois de dez anos me dei conta de que seis desses episódios tinham um fio comum. É claro que é um filme único para mim, no sentido em que foi rodado durante dez anos.

Havia um roteiro prévio?

A cada ano havia uma pequena ideia e o roteiro se improvisava em cada dia em que havia o laboratório. Inseríamos atores amigos e também conhecidos de Bobbio e parentes. Por exemplo, há Alba Rohrwacher, que faz uma professora, e Donatella Finocchiaro, que havia feito comigo Il Regista di Matrimoni, e faz no filme a irmã de Pier Giorgio e mãe de Elena. E há personagens que interpretam a si mesmas - as minhas duas irmãs são elas mesmas na história. Enfim, era um filme que se construía à medida que era feito e sem que nos déssemos conta de que estávamos fazendo um filme.

Deve ter sido um exercício único de liberdade, e bastante prazeroso para um diretor, não?

Sim. Claro que quando você faz um filme você faz também um exercício de liberdade, mas há muitas condicionantes. O planejamento, a montagem, a apresentação ao público. Há os investimentos econômicos superiores e portanto uma responsabilidade em relação a quem produz e distribui. É outro espírito.

Em Irmãs Jamais há inserções, bem discretas, de cenas do seu primeiro filme, De Punhos Cerrados. No entanto, são duas visões bastante diferentes, para não dizer opostas, sobre a família.

Eu coloco alguns fragmentos, porque certos ambientes de Irmãs Jamais são exatamente os mesmos do De Punhos Cerrados. Mas o espírito é outro, sem dúvida. Voltei a Bobbio muitos anos depois, e com um espírito afetuoso. Não digo de reconciliação, porque não havia com o que se reconciliar, mas de afeto mesmo. É muito curioso, porque o ambiente é o mesmo, as mesmas paredes, o mesmo lampadário, os mesmos móveis, mas aquele espírito de raiva, de ódio, de enfrentamento, não existe mais. E há o reencontro com minhas irmãs, que foram, de certo modo, vítimas da conformação daquela família. É um filme dedicado a elas, sob esse nome ficcional, Mai.

Escolheu o nome pelo significado da palavra (mai significa mais ou nunca)?

No sentido em que a vida delas foi de sacrifício, como se vivessem no século 18, quando estamos em 2013. "Mai" no sentido de que nunca se casaram ou tiveram filhos, uma vida "normal". Por escolha própria, certo, mas também porque foram levadas a isso pela família. Enquanto os irmãos saíram para o mundo, elas ficaram na casa. Como protetoras da família e, ao mesmo tempo, vítimas da vida familiar.

A Bela Que Dorme é, de certa forma, um filme sobre a família, também, não? Mas há um lado político também. Alguém sugeriu que a bela adormecida do título pode ser a própria Itália...

É verdade (risos), se pode pensar nessa possibilidade mesmo. O filme parte de um episódio que provocou um grande debate, sobretudo no mundo católico. O tribunal acabou decidindo pelo desligamento dos aparelhos e a própria Eluana havia dito que, se algum dia ficasse em estado vegetativo, a deixassem morrer. Esse debate convulsionou a nação, sobretudo nos seis dias em que Eluana passou na clínica de Údine onde finalmente morreu.

Divisões não apenas na sociedade mas no mundo político, não?

Sim, sobretudo no mundo berlusconiano, que, para agradar aos católicos e ao Vaticano, tentou passar uma lei que bloqueasse essa sentença. A partir desses fatos concretos, tentei imaginar algumas histórias inventadas, ficcionais, mas que coubesse naquela "Itália adormecida" de que você falava há pouco. E, nesse processo de adormecimento, há uma série de despertares. A filha que desperta e se reconcilia com o pai; o senador de Berlusconi que escolhe votar de acordo com a sua consciência. E assim por diante. É um filme sobre o sono, mas também sobre o despertar - metaforicamente falando. Nesse sentido, pode-se falar mesmo que a bela adormecida seja a Itália.

Itália que vive uma situação surpreendente, com o impasse nas eleições, a ascensão de Beppe Grillo.

Ou a centro-esquerda faz uma aliança com a centro-direita ou será preciso nova eleição. Por outro lado, há uma descrença generalizada em relação à política e aos políticos e aos partidos. Essa descrença confluiu no movimento de Grillo e em seu partido Cinco Estrelas. Enfim, o futuro está indefinido.

Tem algum novo projeto de filme?

Ainda estou pensando. Na Itália há uma crise da economia que atinge a cultura e o cinema também. Mais difícil ainda quando não se quer fazer uma comédia. Porque agora aqui na Itália se aposta tudo na comédia, e, devo dizer que não vivemos propriamente na idade de ouro da comédia.

Comédias como as de Dino Risi e Mario Monicelli iam além do cômico. Eram comédias críticas.

Eram comédias contra o poder. O cinema tinha essa marca de esquerda muito pronunciada e as comédias eram manifestos contra o poder dominante. Hoje são evasão pura e simples. Podem fazer pequenas caricaturas do poder, mas não têm a força de denúncia das comédias dos anos 60 e 70.

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