Kenzo Tribouillard/AFP
Kenzo Tribouillard/AFP

A irreverência do Charlie Hebdo sobreviveu, intacta, ao massacre

Semanário satírico foi alvo de ataque em 2015, após publicar uma charge de Maomé

Frédéric Pouchot e Anna Pelegri, O Estado de S. Paulo

31 de agosto de 2020 | 12h12

Charlie ainda é Charlie? Mais de cinco anos após o atentado que dizimou sua redação, o semanário satírico francês continua a se apresentar como um baluarte da liberdade de expressão e mantém intacto seu tom provocativo, embora seus objetos de ironia estejam mudando. 

"Antes mandávamos ao inferno Deus, o exército, a Igreja, o Estado. Atualmente, tivemos que aprender a mandar para o inferno associações tirânicas, minorias egomaníacas, blogueiros e blogueiras que nos repreendem como se fôssemos educadores", escreveu em janeiro Riss, o diretor de redação, por ocasião do quinto aniversário do massacre. 

Em 7 de janeiro de 2015, os irmãos jihadistas Said e Chérif Kouachi invadiram a sede do Charlie Hebdo em Paris e mataram 12 de seus colaboradores, incluindo os renomados cartunistas Cabu, Charb, Honoré, Tignous e Wolinski. 

Os autores dos ataques pensaram "vingar" Maomé dessa forma, depois que o semanário publicou várias charges zombando do profeta, da mesma forma que costuma debochar de outras religiões, o que é permitido na França, onde o crime de blasfêmia não existe. 

A linha anticlerical foi a marca registrada da casa desde a sua fundação, em 1970, embora ao longo do tempo seus cartunistas zombassem de tudo e de todos, a ponto de enfrentar denúncias de difamação por parte da Igreja, empresários, ministros e celebridades que obrigaram seu fechamento por 11 anos, entre 1981 e 1992. 

Mas sua irreverência não diminuiu e as sátiras ao Islã a tornaram alvo de ameaças por anos.

No atentado de 2015, o Charlie Hebdo perdeu vários de seus melhores profissionais e alguns dos que sobreviveram partiram pouco depois, traumatizados. Foi o caso de Luz, pilar da escrita e autor do desenho de Maomé proclamando "Tudo está perdoado", capa do primeiro número pós-ataque, o qual vendeu quase 8 milhões de cópias. 

"Cada vez que fechamos um número é uma tortura porque os outros não estão mais lá. Passar noites sem dormir, invocando os desaparecidos, imaginando o que Charb, Cabu, Honoré, Tignous teriam feito é cansativo", confidenciou Luz ao jornal Libération

Desde então, o cartunista tem se dedicado aos quadrinhos e entre suas publicações se destaca Catarse, onde conta como se recuperou do ataque, do qual escapou por pouco. Patrick Pelloux também saiu devido à necessidade de "virar a página". 

O jornalista Philippe Lançon ficou e no livro O Retalho narra como viveu o atentado e o doloroso processo de reconstrução facial que sofreu depois de ser gravemente ferido, ganhou vários dos mais prestigiosos prêmios literários da França.

À frente da redação está Riss (Laurent Sourisseau), cartunista do semanário há quase 30 anos. Sucedeu Charb após sua morte no atentado - ele foi ferido no ombro - e realizou a reforma da redação com a chegada de novos jornalistas. 

"Hoje em dia, o politicamente correto impõe uma grafia de acordo com o gênero, nos aconselha a não usar palavras supostamente incômodas", Riss ataca, atacando os "novos censores" que "se acreditam os reis do mundo por trás de seu teclado telefônico" . 

"As chamas do inferno de outrora deram lugar aos tuítes reveladores de agora", acrescenta.

Quanto às vendas, o ataque reverteu um período financeiramente difícil. Dos cerca de 20 mil exemplares semanais vendidos nas bancas e 10 mil assinantes, o Charlie Hebdo, que vive sem publicidade ou subsídios, se beneficiou de uma onda de solidariedade que o levou a adicionar 240 mil assinantes em fevereiro de 2015. 

Posteriormente, os números se estabilizaram e atualmente cerca de 25 mil cópias são vendidas a cada semana, além de cerca de 30 mil assinaturas. O seu volume de negócios passou de 5 milhões de euros (5,9 milhões de dólares no câmbio atual) em 2014 para mais de 8 milhões no ano passado (9,4 milhões de dólares). 

Depois do atentado, o semanário tornou-se a primeira mídia francesa a adotar o estatuto de empresa solidária de imprensa, pela qual se comprometeu a reinvestir 70% dos lucros anuais e com o restante se financiar. 

No ano passado, Riss, que detém dois terços do capital do Charlie Hebdo, cedeu algumas partes a três membros da redação, com o objetivo de preparar uma futura mudança geracional à frente da publicação.

 

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