A irada estrela do Goncourt

A irada estrela do Goncourt

Há muito de Franz Kafka no novo trabalho de Marie NDiaye, Coração Apertado - relato de um casal de professores atormentado pelo sentimento paranoico de perseguição -, que chega ao País

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2010 | 00h00

Marie NDiaye é uma escritora praticamente desconhecida do leitor brasileiro, mas, no ano passado, ganhou o principal prêmio de literatura na França, o Goncourt, por Trois Femmes Puissantes (Três Mulheres Poderosas, que será brevemente publicado pela editora Cosac Naify). Na semana passada, estreou em Paris o filme White Material, com Isabelle Huppert, que tem roteiro dela e vem recebendo ótimas críticas. Agora, a mesma Cosac Naify revela ao público um romance tão poderoso quanto seu livro premiado e o filme da diretora Claire Denis para o qual fez o roteiro. Trata-se de Coração Apertado (Mon Coeur à L"Étroit), livro sobre o qual a escritora de origem senegalesa falou ao Sabático.

A narrativa de Marie Ndiaye é sóbria, seca, pródiga em metáforas, mas não isenta de apelo emocional. Há muito de Kafka em sua escritura e a autora mesmo reconhece que o escritor checo é, de fato, uma de suas referências literárias. Aos 42 anos, a primeira mulher negra a ganhar o Goncourt ? com uma história de traição e imigrantes ilegais africanos ? trata, em Coração Apertado, do sentimento paranoico que persegue um casal de professores de Bordeaux. Ange e Nadia, os mestres, são devotados profissionais que há 15 anos trabalham na mesma escola, dividem classes contíguas e passam, sem maiores explicações, a ser vítimas de olhares desconfiados dos alunos, colegas de ofício e vizinhos. A autora, sem poupar ninguém, escancara as portas da paranoia também para o leitor, testemunha tanto de defesa como de acusação do casal, que inspira antipatia brutal em seus pares.

Nadia é a narradora dessa história em que uma ferida exposta ? a do marido, na altura do fígado ? assume uma dimensão alegórica. À medida que ela cresce e domina a casa com o cheiro forte de tecido necrosado, as relações do casal com o mundo se fecham a ponto de justificar o adjetivo kafkiano para definir a atmosfera opressiva da cidade onde vivem. Há, evidentemente, algo de autobiográfico nisso. Marie e seu marido, o escritor e roteirista de cinema Jean-Yves Cendrey, já viviam isolados com os três filhos antes de decidirem morar em Berlim após a vitória de Sarkozy. Ambos são hostis aos correligionários do presidente e essa hostilidade, ao que parece, é recíproca (muitos deles protestaram contra o Goncourt concedido à escritora). Ela, evidentemente, ignorou os protestos, como os críticos e editores mais exigentes. Entre eles se destaca o editor de Samuel Beckett, Jêrome Lindon, que a descobriu quando era ainda uma jovem estudante.

Lindon publicou o primeiro livro da escritora em 1985, quando Marie tinha apenas 18 anos. Ela enviara os originais de Quant au Riche Avenir a vários editores. Ele, responsável pela escolha dos títulos das Éditions de Minuit, não se limitou a enviar uma carta de aprovação à autora. Foi esperá-la na saída do colégio com um contrato na mão. De lá para cá já foram oito os romances publicados da autora. Surpreendentemente, Marie NDiaye lembra sem muito entusiasmo da história. Suas respostas soam, ao telefone, como uma mistura de desânimo e descrédito. Um pouco como Nadia, em Coração Apertado, acha que nada vai mudar por causa de um prêmio ou reconhecimento internacional. Nem mesmo vibra com a estreia do filme White Material em Paris. Diz que escreveu o roteiro porque "precisava" contar essa história de uma mulher branca que insiste em defender sua plantação de café e permanecer numa África em que pipocam rebeliões.

"Veja, não me sinto africana só por ser de origem senegalesa, mas creio que é preciso falar sobre racismo." E por que não na França? "Sim, ele existe lá, mas não foi isso que me fez mudar para Berlim, e sim a atmosfera sufocante provocada pelo governo de Sarkozy." Marie lembra que é casada com um escritor branco e se diz otimista com a possibilidade de diálogo inter-racial entre os franceses.

E por que, então, escolheu Bordeaux como cenário dessa sufocante parábola sobre a intolerância em tempos de atentados terroristas? "Conheço bem Bordeaux e a primeira coisa que me vem à mente quando penso nela é a neblina que a encobre", diz Marie, não com nostalgia dessa romântica cidade portuária, em que a névoa densa encobre as placas com os nomes das ruas estreitas ? tanto como a cabeça de alguns dos seus habitantes, que hostilizam o casal Ange e Nadia como cães sarnentos. A exemplo de Nadia, a autora do livro imaginava conhecer a cidade intimamente, até que tudo nela passou a lhe provocar pânico, dos nomes das ruas a pessoas próximas que assumem uma identidade desconhecida. Nadia não consegue nem voltar para casa porque, ao contrário da menina de O Mágico de Oz, o lar não se apresenta como o lugar mais seguro da Terra.

E não há seres excepcionais que povoam esse universo. A própria Nadia é uma mulher comum, que nasceu na Cité des Aubiers, periferia de Bordeaux, e repele o passado com vigor, renegando inclusive os pais. Ela, porém, se acha generosa e solidária. Os outros a enxergam como uma sórdida egoísta. Só mesmo uma viagem para fora do seio familiar para que Nadia confronte e acerte as contas com o passado. Seria essa uma crítica ao núcleo familiar como gerador de toda a paranoia social que alimenta o conflito com o "outro", que está fora desse círculo? "A família de Nadia é um microcosmo que forma uma barreira, que restringe, mas não tenho uma visão negativa desse universo e, se falo de pessoas comuns e de coisas banais, é porque nunca conheci pessoas excepcionais."

E onde entra Kafka nessa história? Na busca de Nadia para dar significado aos fatos que narra. "O absurdo não é a única condição dos personagens, que enfrentam, sim, situações um pouco alegóricas, ilustrativas de um desespero kafkiano, mas devemos considerar que não estamos mais vivendo na Praga dos anos 1920, mas no século 21, quando a realidade em muito superou o imaginário de Kafka ? e estou falando de coisas como a internet."

Sem preconceitos contra a linguagem visual, ela diz que gosta tanto de cinema que se arriscou na profissão de roteirista graças ao apelo do marido Jean-Yves Cendrey, também coautor de Puzzle, uma trilogia teatral montada em 2007 pela Comédie Française ? ela está no repertório da companhia desde 2003, quando foi montada sua peça Papa Doit Manger. Como sempre, é a família e seus preconceitos o tema, o que a aproxima do cineasta alemão Michael Haneke, de A Fita Branca, cujos casais vivem em aparente harmonia, ameaçada por uma tempestade social. "É mesmo uma boa comparação", diz. "Adoro seus filmes, especialmente Caché."

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