A invenção do século

De repente, você se vê perdido. O medo domina suas ações. É preciso tomar decisões. O destino parece incerto, dúvidas à frente. Tantas possibilidades a seguir...

Marcelo Rubebs Paiva, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2010 | 00h00

O que fazer, que caminho traçar, o que vem adiante, devo ou não devo?

Então, uma voz doce, calma e sábia surge. Nos dá segurança. Parece entender de tudo, conhecer os atalhos do desconhecido.

Com um comando convincente, indica: "Virar à direita. Seguir em frente. Contornar o obstáculo. Na próxima esquina, virar à esquerda. Você está a apenas uma quadra do seu fim. Objetivo alcançado. Você chegou ao seu destino."

Pode ser uma voz feminina amiga. Pode ser programado para que a voz seja masculina firme e didática. O motorista não se sente mais sozinho. E, por um pequeno monitor colorido, está protegido, monitorado pelo que há de mais moderno.

Por um GPS (Global Positioning System), a preço acessível, configurado em painéis de carros e celulares - navegador global regido por uma rede de satélites que, sob sol e chuva, frio e calor, indica a localização confiável de qualquer canto obscuro deste planeta.

Mantido pelo governo norte-americano, é facilmente adquirido por qualquer cidadão do mundo, independente de suas virtudes e defeitos. Não tem preconceitos de raça, credo, não faz distinções de classe social e instrução, não está nem aí para as boas e más intenções do seu usuário. Pode ser uma freira indiana ou um homem-bomba.

É como a voz de um todo-poderoso, que a todos protege, que ninguém entende de como é feito, mas o segue como a um guia espiritual.

Criado em 1973 pelo Departamento de Defesa norte-americano, começou a ser operado com a ajuda de 24 satélites. Hoje, são 32, que orbitam a Terra.

Ironicamente, foi o Sputnik, o satélite soviético do tamanho de uma panela de paella valenciana - o primeiro objeto do homem lançado no espaço -, que inspirou a sua criação.

Cientistas norte-americanos, que monitoravam as suas transmissões por antenas espalhadas em 1957 percebiam que, por causa do efeito doppler, a frequência era maior quando ele se aproximava, e menor quando ele se afastava. O que poderia indicar a sua localização. E vice-versa.

Há indícios de que este é apenas o começo de uma revolução no comportamento humano. Como a máquina de calcular, que nos fez esquecer de como realizar operações corriqueiras de somar e subtrair em guardanapos de mesas de bar, na hora de dividir a conta.

Como o computador, que fez do gesto ancestral de escrever à mão algo tão desnecessário quanto uma torneira num deserto. Ou o Google, que dispensa a abertura de dicionários, listas telefônicas, enciclopédias e até a consulta de farmacêuticos.

Estamos apenas no limiar de uma nova era. O pequeno aparelho vai evoluir. Novas ideias irão aparecer. A começar pela voz do além que nos orienta.

Será possível, em breve, programar um GPS para que a voz saia e indique os caminhos de acordo com as preferências do usuário. Exemplos:

1. O conquistador. Poderá optar por uma voz sedutora, doce e lascívia: "Vire à direita, gostosão. Agora à esquerda, tigrão. Vai fundo. Vem com tudo, como você é lindo, me atrai, suas mãos no volante me excitam, mude a marcha agora, ai, que gostoso, mude de novo, isso, não para, estou arrepiadinha. Como você é potente, acelera, isso, rápido, estamos chegando, vai, vai... Ufa. Você é uma máquina, hein? Gozou comigo?"

2. O sadomasoquista: "Vai, palhaço, entra à direita, não viu que tinha um farol, otário?! Tá maluco, corno? Mais devagar. Quer se arrebentar todo, então cruza esta preferencial, quero ver se tem coragem, idiota! Anta, era à esquerda! Não serve pra nada, mesmo, bem que seu chefe tem razão, seu inútil!"

3. O mimado: "Filhinho, você está bem agasalhado, está entrando uma frente fria, trouxe guarda-chuva? Vai com cuidado. Era à esquerda. Tudo bem, errar é humano, não chore, entre na próxima, mamãe te ajuda a encontrar o caminho. Tá com fominha?"

4. A insegura: "Vai, linda, arrebenta. Canta comigo: It"s raining man, aleluia... Essa esquina é tuuudo. Tá combinando, sim, o cabelo tá brilhando, que olhos lindos. Adorei suas unhas. Próxima à direita. Emagreceu, hein?"

5. O marombeiro: "Flexione os bíceps para entrar à direita, um, dois, um, dois, agora o outro, um, dois, um, dois, atenção com os pedais, alongue no adutor, um, dois, um dois, não pare..."

6. A iogue: "Respire pelo nariz, sinta as boas vibrações que emanam do universo. Olhe que árvore bonita que você está cruzando. O verde nos acalma. Que astral está o dia hoje. Não ligue para esses chatos que buzinam, te xingam, te fecham, vá devagar, curtindo este pôr-do-sol. Maior astral se você entrar à esquerda na próxima."

7. O mano: "Direita, certo! É nóis. Siga em frente, tá ligado? Aê, mano, a próxima é às esquerda, certo, truta? Pelas quebrada deste mundão, agora. É nóis mesmo. Demorô! Embaçado..."

Em anos, o sentido do GPS será estendido para outras funções, como chips implantados no cérebro, que orientam dúvidas profundas existenciais e jogam com o inconsciente. Controlarão impulsos nervosos, como um superego digital.

Numa briga com a mulher ou o marido, aparecerá a voz que só o usuário escutará: "Diga que ela é a pessoa mais importante da sua vida, elogie sempre, cite datas importantes, diga agora que você adora, agora fique em silêncio, faça uma cara pensativa, sorria e vá, abrace, beije."

E todas as dúvidas da nossa existência serão esclarecidas por uma voz que vem do espaço. Indicará os caminhos. Reinventaremos Deus. A 400 pratas. Basta configurá-lo. Como os homens fazem há milênios.

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