A invenção do ''Pop Brasuca''

Tudo Azul, clássico que Lulu Santos lançou em 1984, fez aquela década respirar algo além do rock

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

"Eu já cheguei a dizer que era a Rita Lee, talvez porque seja da mesma época, mas a pessoa que eu conheço há mais tempo na minha vida é Arnolpho Lima Filho." A declaração é dada por Luiz Maurício Pragana dos Santos. O tal do Arnolpho é conhecido do público como Liminha, o maior produtor do pop brasileiro dos anos 1980, e o tal de Luiz Maurício atende há 57 anos por Lulu Santos, goste ele ou não do termo, um dos maiores hitmakers do cancioneiro popular brasileiro desde a mesma década de 80.

Hoje, em seu 22.° disco de carreira, Lulu ainda se refere a Liminha com extremo carinho, reconhecendo o gabarito do produtor. A relação dos dois vem desde o início dos anos 1970, quando Liminha passou a integrar o time dos Mutantes e os dois se conheceram nos vai-e-vens da banda entre São Paulo e Rio. Ambos passaram a trabalhar juntos em 1982, quando Lulu lançou Tempos Modernos e, no ano seguinte, O Ritmo do Momento.

Em 1984, a tabelinha perfeita entre os dois culminaria no disco Tudo Azul, que chega às bancas amanhã em relançamento pela Grande Discoteca Brasileira Estadão. "O Liminha é um produtor muito presente, com uma capacidade de arquitetura musical muito fácil. Ele é o produtor mais bem equipado, com fundamentos musicais para traduzir a vontade do artista. Para você ter uma ideia, antes de gravar, ele começa afinando a bateria, que faz toda a diferença. Eu costumo dizer que ele é a pessoa que melhor sabe onde fica o bumbo e a caixa, o beat", diz Lulu Santos.

Desde o início da carreira na WEA, depois de dar provas de seu talento com os sucessos Tempos Modernos, Um Certo Alguém e Adivinha O Quê - já tocando exaustivamente nas rádios - Lulu chegava ao seu terceiro LP pressionado a provar para gravadora, crítica e público que poderia ir além das expectativas dos dois álbuns anteriores e se reinventar. Apesar de todo o sucesso de Como Uma Onda (parceria com Nelson Motta), era necessário mostrar que ele não era um "bolerento", um mero discípulo de Altemar Dutra, e que não lhe bastava abraçar a letargia e o comodismo de apostar em uma fórmula que havia dado certo.

"O primeiro disco tinha uma inocência. "Será que eu sou assim?". No segundo eu já botei as manguinhas de fora. No terceiro era preciso uma reinvenção, era eu me vendo de fora, deixando claro que havia uma manipulação da indústria e respondendo à crítica, provinciana, que me esculhambava, dizia que Como Uma Onda... era um mau passo, brega. E foi desde a capa até a sonoridade do álbum uma resposta em meio ao turbilhão da indústria pop. Tudo Azul era uma espécie de vim, vi e venci, a pax romana", conta Lulu.

Realizado em tempo relâmpago - nos moldes de antigamente -, o disco ficou pronto em um mês. Gravado de 12 a 29 de março de 1984, no Estúdio Transamérica, no Rio, Tudo Azul contou com o luxo de ser mixado em Nova York, de 2 a 11 de abril, no lendário Eletric Lady, concebido e imortalizado por Jimi Hendrix.

"A gente tinha um entrosamento grande. O Lulu é muito objetivo e sempre gostou de experimentar. Gravamos esse disco em 22 canais de maneira muito rápida. Já havíamos usado a DMX (bateria digital) em O Ritmo do Momento e usamos o clique (espécie de metrônomo guia, que marca o andamento para os músicos) em Tudo Azul. Outro fato que me marcou muito foi que quando chegamos em Nova York para mixar o disco, fazia um dia que o pai do Marvin Gaye tinha matado ele, lembro até hoje", conta Liminha, em seu apartamento no Rio, ao mesmo tempo em que escuta o Tudo Azul para "refrescar a memória".

Será que vai emplacar? Depois de sair nas rádios com A Força do Destino, o álbum não passava a impressão de que estouraria. Como lembra Lulu, a sorte é que ali havia registrado um tema chamado O Último Romântico (parceria com Antônio Cícero e Sérgio Souza). "Além de outros, como Rei do Pop etc e tal, O Último Romântico virou meu título por alguns anos", relembra o guitarrista, que também tocou pandeiro e bongô em A Força do Destino, além de ter gravado sozinho (guitarra, baixo e bateria digital) uma nova versão de O Calhambeque, antes já havia sido abrasileirada por Erasmo Carlos.

E não era só isso, ainda havia espaço para outros sucessos como a faixa que batizava o disco, Tudo Azul, e Certas Coisas (ambas novamente em parceria com Nelson Motta) e Tão Bem, só de Lulu. Em uma época em que pipocavam álbuns na cena do rock dos anos 1980 também produzidos por Liminha, como Selvagem?, dos Paralamas do Sucesso, Cabeça Dinossauro, dos Titãs (os dois que ganham relançamento pela Grande Discoteca Brasileira Estadão) e Seu Espião, do Kid Abelha - com os hits Fixação e Como eu Quero -, Tudo Azul cravava seu nome na história do cancioneiro popular. "O disco celebrou uma trilogia com o Liminha. Tenho muito respeito e afeto por ele", diz Lulu.

LULU SANTOS

TUDO AZUL

R$ 14,90

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