A invenção das crenças inspira ciclo de debates

Organizadas por Adauto Novaes, conferências tratam da mudança de ideias a partir da descrença do pensamento

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

Adauto Novaes é um filósofo inquieto, sempre disposto a decifrar questões sobre a intrincada relação humana. Graças a essa constante insatisfação, ele coordena um ciclo de debates e palestras que chega ao 31.º ano, sempre organizado pelo Centro de Estudos Artepensamento, montado por ele. Desta vez, o tema é "Mutações: a invenção das crenças", que vai debater um dos efeitos da revolução tecnocientífica que está na mudança das ideias e práticas da crença. A lista de 22 conferências começa no dia 5 de agosto, no Sesc Vila Mariana - as inscrições abrem na terça-feira e podem ser feitas pelo portal www.sescsp.org.br.

Trata-se do quarto ciclo sobre mutações. "Partimos da ideia de que o Ocidente não vive propriamente uma crise e, sim, mutações em todas as áreas da atividade humana, da política, passando pelas mentalidades e costumes e até mesmo as crenças", comenta Novaes. "Neste processo, pensamos que, por ser uma revolução conduzida pela tecnociência, pela biotecnologia e pela informação, ela se faz no vazio do pensamento; ou melhor, o pensamento vem a reboque dos acontecimentos." O filósofo, porém, tomou o cuidado para não estabelecer um dualismo entre conhecimento dos fatos e reflexão, entre a ciência como conhecimento experimental e filosofia, ainda que seja inevitável pensar na cisão proposta por Heidegger entre ciência e pensamento.

Uma das consequências práticas é a evidente descrença no pensamento. "Para se construir algo de novo, uma "autêntica visão de mundo", é preciso ter visto realmente o mundo, ter conhecido os fatos", continua. "A tecnociência traz hoje uma infinidade de fatos novos. É preciso ir a eles para sair deles com outra visão do mundo."

Foi essa visão tecnicista da ciência que inspirou os três ciclos anteriores. No primeiro, chamado de Novas Configurações do Mundo, foi apresentado como ciência e a técnica estão produzindo transformações sem precedentes na história em todas as áreas da atividade humana; em seguida, no ciclo A Condição Humana, as discussões baseavam-se em uma questão: o que é viver neste mundo? Finalmente, o terceiro ano de discussões focou o vazio do pensamento. "Porque a mutação se origina da revolução tecnocientífica e praticamente sem a ação dos pressupostos das ciências humanas, tendemos a dizer que ela é feita no vazio do pensamento", comenta Adauto. "Ou melhor, vivemos uma realidade tão inteiramente nova que nem mesmo os velhos conceitos conseguem explicar o que acontece."

Crenças. O desenrolar das discussões levou naturalmente ao tema deste ano, sobre a invenção das crenças. "Um dos efeitos da revolução tecnocientífica está na mudança das ideias e práticas da crença, entendendo por crença não apenas as religiões, mas também, e principalmente, os ideais políticos, os valores morais e éticos, as novas visões de mundo, as construções imaginárias nas arte", aponta Adauto Novaes.

Para manter sempre viva a discussão, o filósofo conta com a participação constante de colaboradores, especialmente para os quatro ciclos sobre mutações. Neste ano, algumas palestras já despertam atenção - a de José Miguel Wisnik, por exemplo, chamada A Crença no Espelho, parte do conto O Espelho, de Machado de Assis. "O texto desenvolve-se em torno de uma "teoria da alma" que supõe um ceticismo radical frente à constituição imaginária e alienada do eu, suportada pelo vazio e reposta pelo comércio especular das aparências", escreve. "Não é propriamente novidade ver no conto O Espelho, de Guimarães Rosa, uma resposta à negatividade machadiana, em que o vazio vertiginoso e corrosivo do primeiro passa por uma espécie de reversão capaz de direcioná-lo ao horizonte, mesmo que árduo, de uma crença."

Já o escritor e colunista Marcelo Coelho apoiou-se no filme Dúvida, inspirado na peça do mesmo nome, de John Patrick Shanley, para propor a distinção entre os conceitos de "fé", "crença" e "opinião". A trama é instigante: em uma escola católica, a madre superiora Aloysius Beauvier desconfia que um padre, Brendan Flynn, justamente aquele com perfil mais progressista, teria molestado um menino negro (o único do colégio), mas não tem provas concretas sobre essa suspeita. Ela comunica sua desconfiança à mãe do menino, senhora Muller, e busca apoio na sua auxiliar mais próxima, irmã James, mas a incerteza a perturba: seria ele realmente inocente, como proclama?

"Estamos aqui diante de três ordens, digamos assim, de convicção pessoal", observa. "O plano da fé é compartilhado pelos três personagens: são todos católicos, seguem rigorosamente os preceitos externos da religião, embora tenham modos de vida e interpretações mais rígidas ou mais amplas do que é o ensinamento católico."

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