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A intriga é uma doença...

Como descobrir o início de um fuxico numa cidadezinha na qual todos falavam bem e mal uns dos outros?

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2020 | 03h00

Ele usou um outro adjetivo, mas foi isso que ouvi do professor Wagner que, como se diz, “dava” aulas de História no Ginásio de São João Nepomuceno, Minas, lá pela década de 1950...

Naquela época, a cidade viu-se enfeitiçada pelo boato de que a menina mais bonita da escola, a louríssima Sonia DeAngelo, havia perdido – e eu peço perdão pela linguagem – os “tampos”, a sua indispensável virgindade. Uma atual enfermidade que, naqueles tempos remotos, era tão ou mais falada do que os trágicos efeitos do coronavírus, da esquecida corrupção petista ou do comportamento anormal de Bolsonaro. 

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Esse o boato contaminador. Eu, rapazinho, o ouvi pela voz do Tulio, um interno de 17 anos que, dizia-se, era viciado em masturbação e por isso tinha o peito estufado (daí o apelido de “rinoceronte”) e uma cara esverdeada.

O delegado Ribeiro, carrancudo como mandava o seu ofício, cujo prazer era cortar as nossas preciosas bolas de futebol com um canivete afiadíssimo, pois tinha horror às peladas de rua, uniu-se imediatamente a “seu” Dino, pai da suposta ex-donzela, um italiano grandalhão e o único taxista da cidade. 

O caos foi investigado, mas, como toda apuração tem um lado bíblico porque o começo é tudo, dificuldades surgiram. Como descobrir o início de um fuxico numa cidadezinha na qual todos falavam bem e mal uns dos outros? 

Para o pai, era um caso de vida ou morte. Mas num boato dentro do fuxico diziam que ele próprio poderia ser o vilão, encantado pela beleza da filha. E, em paralelo, surgia o nome do Chupeta, um palhaço de circo que a jovem admirava. Toda essa boataria abarcava, conforme me lembro, “meninos” e “homens feitos” (adversários ferrenhos quando se confrontavam no time dos casados contra o dos solteiros). 

Recordo que havia uma enorme inveja escondida do “bandido”. Todos faziam o jogo “político” brasileiro: em público, eram solidários ao pai, ao delegado e a eles próprios, pois muitos tinham filhas, mas no bar do Neném e quando relaxavam na barbearia do Wanderley, abriam suas fantasias especulando quem teria sido o “sortudo”.

Pouco depois, soube que o Tulio havia sido interrogado por “seu” Dino e, entre bofetadas, havia falado o nome de três dos possíveis culpados, os namoradores Valério, Levy e Arnaldinho. Todos se qualificavam como suspeitos: o primeiro era um excelente jogador de voleibol, o segundo, de futebol e o terceiro, poeta. O que pesava contra eles era serem “galãs” e terem namorado a vítima em encontros qualificados como “namoros escandalosos”. Uma expressão que ficou na minha cabeça até quando eu a vivi, namorando a Regina Pudim e, pelas 11 da noite, ao chegar em casa silencioso como um ladrão, ter sido recebido pelo olhar severo de mamãe, ao lado da rispidez de um sibilado: “Seu sem vergonha!”.

Meu pai, funcionário do Ministério da Fazenda, foi transferido para Juiz de Fora, fui vítima de mais uma mudança e jamais soube do desfecho desse caso.

*

Trinta anos depois, voltei a São João Nepomuceno com a desculpa de investigar o conceito de amizade na cidade e, por tabela, no Brasil. Fui com uma admirável equipe de estudantes de Antropologia Social do Museu Nacional da UFRJ – hoje ilustres professores e profissionais –, graças ao decisivo apoio do professor Afrânio Raul Garcia Jr. 

Após nossa instalação, encontrei um companheiro daqueles velhos tempos. Falamos dos dualismos no campo esportivo – a rivalidade entre o futebol do Mangueira e do Botafogo – e no campo recreativo e carnavalesco, a adversidade entre o clube Democráticos e Trombeteiros. Naquela época, eu não atinava como a dualidade mistifica a desigualdade. 

O tema nos levou ao boato do desvirginamento da Sonia, bem como ao Tulio e aos galãs – Valério, Levy e Arnaldinho –, ex-namorados e suspeitos. Que fim levou tudo aquilo, questionei. 

Não deu em nada..., respondeu meu amigo. O Tulio e os velhos suspeitos se foram. O culpado foi o Arnaldinho que, após uma amigável confissão, se casou com Sonia, tiveram três filhas e hoje, felizes, esperam um neto. 

Tudo o que estava no ar concretizou-se. Nascer e morrer, adoecer e sarar, mentir e falar a verdade formam o miolo da vida, terminou sabiamente Mario Roberto, meu querido e saudoso amigo e colega de ginásio, hoje também falecido. 

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