A intenção revelada na obra de arte

A mostra 'O Triunfo do Detalhe', a partir de quinta no Masp, analisa como os pintores começaram a se preocupar com ele

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

31 de outubro de 2013 | 21h04

Detalhe é tudo na pintura antiga. O exemplo mais frequente na história da arte é a técnica de Vermeer, que fez uso da camera obscura para pintar ínfimos detalhes, usou o caro lápis lazuli afegão no lugar do barato azurite para obter um azul ultraespecial e foi capaz de pintar um brinco de pérola mais real que a própria pérola. O Masp inaugura nesta quinta uma mostra com 60 pinturas de diversas épocas que se encaixam exatamente no tema, O Triunfo do Detalhe (e Depois Nada), organizada pelo curador-chefe do museu, professor Teixeira Coelho. A exposição não traz Vermeer, de quem o museu paulista mostrou até fevereiro a tela Mulher de Azul Lendo uma Carta (1663-1665), do Rijksmuseum. Ela reúne exclusivamente peças pertencentes ao acervo do Masp, algumas ausentes de suas paredes há tempos (leia abaixo entrevista do curador). Elas saem do cofre por tempo indeterminado para a mostra, patrocinada pelo Banco Pactual com apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

A exposição tem desde arte asiática do período Tang até contemporâneos como Mimmo Rotella e Leon Ferrari. O período compreendido entre os séculos 16 e 19 concentra a maior parte das obras, como é natural, considerando que o advento da fotografia fez a pintura enveredar por outros caminhos. O detalhe, então, foi desaparecendo da tela. “A partir de meados do século 19, com Turner, Monet e o impressionismo, o mundo começa a se dissolver e com ele a sua imagem e o próprio detalhe”, diz o curador.

Enquanto a imagem da pintura se dissolvia, “velando o mundo aos poucos”, a fotografia “o desvendava”, conclui Teixeira Coelho, citando as primeiras sequências de pessoas e animais em movimento (entre 1877 e 1878) registradas pelo fotógrafo inglês Eadweard J. Muybridge (1830-1904). Ao inventar o zoopraxiscope, em 1879, ele antecipou não só o moderno projetor cinematográfico como escancarou as portas do mundo, obrigando a pintura a trocar a representação pela interpretação do real, o que a fragmentação cubista fez com sucesso. A mostra tem Picasso (Busto de Homem, 1909), para provar que a experiência formal da pintura cubista buscou, efetivamente, chegar ao todo por suas partes, sem compromisso com a representação real.

Retratos (que respondem por parte significativa do acervo do Masp) e naturezas-mortas foram os gêneros em que o detalhe assumiu maior importância. Na mostra destacam-se, entre outros, o retrato do cardeal Cristoforo Madruzzo pintado em 1552 por Ticiano, o do poeta Henry Howard assinado por Hans Holbein, o Jovem, em 1542, e o retrato de um jovem aristocrata feito por Lucas Cranach em 1539. Em todos eles, o anel tem o papel de definir a posição social do retratado. Outros detalhes recorrem ao valor simbólico dos objetos para revelar o mundo em que viveram nobre, religiosos e plebeus.

Na pintura abstrata, lembra o curador, “não faz sentido isolar um pedaço de obras de artistas como Kandinski ou Pollock, porque o detalhe nada separa, pois tudo é uma coisa só”. É o caso também das pinturas do expressionista abstrato Karel Appel e da brasileira Wega Nery. Sabe-se, no caso do holandês, que a pintura representa um garçom segurando uma bandeja, mas a figura é só sugerida, como na tela de Wega, que evoca a esperança por meio de uma rosa. Há outros brasileiros na mostra, entre eles os irmãos Arcângelo e Thomas Ianelli, ambos falecidos, e Regina Silveira.

Um dos destaques da mostra é a graciosa tela de Chardin, um retrato do garoto Auguste Gabriel Godefroy pintado em 1741, que revela o ambiente e a condição social do jovem pela peruca e os objetos sobre a mesa.

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