A inspiração de Dominguinhos em pessoa

"11 de Abril" foi inspirada em 1981. E é mais importante do que qualquer outro sucesso que o mestre do forró, compositor, poeta e instrumentista José Domingos de Moraes presenteou o Brasil. Dominguinhos, nascido em Garanhuns, e que recebeu apoio de sua família e do amigo Luiz Gonzaga, nunca tocou por tocar. O País todo se reflete nele, e a sua vida, em sua arte. Naquele dia, nasceu Liv Moraes, sua filha com a cantora Guadalupe, que se fez também cantora e, já no segundo disco, lançado agora, "É você", consolida-se como interprete com a energia estelar de pai e mãe.

ROGER MARZOCHI, Agência Estado

24 de dezembro de 2010 | 19h21

Eles se apresentarão em São José do Egito (PE), em show de virada do ano, com forte campanha de divulgação do disco no Nordeste, com apresentações em Recife, Caruaru, João Pessoa e Campina Grande. "Vamos passar a virada do ano em cima do palco, se Deus quiser, e começar com o pé direito", diz Liv, que começa a compor para seu próximo trabalho, para o qual escreveu "Eterno Agora". A sua primeira letra escreveu aos nove anos, após ter aprendido com a mãe de onde surge a inspiração. "Você escreve o que está sentindo", aconselhou. Saiu "Vários Caminhos", que levou o pai a fazer uma música. "Minha mãe e meu pai cantam. É muito emocionante vê-los cantando essa música."

A reportagem pediu e ela cantou um trechinho de "Eterno Agora", que só foi interrompido pela sua alegria em ouvir o filho Luca, de dois anos, que acabara de acordar do soninho da tarde, fazendo coro. "Você me deu o seu coração, e eu não soube o que fazer. O despedacei, sem consideração... Meu filho tá cantando (risos)... Qualquer música que você canta, ele canta junto, ele adora cantar", diverte-se. Se vai seguir o caminho da mãe? Vai saber. Mas foi assim que a pequena Liv viveu a música.

"A gente morava na Vila Mariana. E lá era, assim, o retiro dos artistas, literalmente. Porque todo mundo ia pra lá, de zabumbeiro a cantor. E também tinha Luiz Gonzaga, que ia lá em casa também", lembra. "Cresci nesse meio musical, minha mãe cantando... ela sempre fez como se fosse uma roda de violão, cantando com os amigos, e eu ficava de fora, observando, nunca entrei na roda. Meu pai sempre pegava a sanfona em casa e tocava. E cantava pra mim."

Ela sorri muito, simpática, mas já foi muito tímida. Chegou a cursar Psicologia, mas resolveu estudar música e, na escola, conseguiu vencer a inibição. Ao descobrir o que a barrava, soltou a voz. E, até hoje, sente às vezes o mesmo que o pai confidenciou no início da carreira da filha. "Eu não sabia isso, soube com meu pai. Ele fala assim: às vezes me dá uma vergonha quando eu subo no palco, a primeira música me dá aquele peso e, depois, fico calmo. E é verdade. Depende de cada show. Mas quando você sobe e você está tranquilo, em cima do palco, é uma sensação de liberdade."

No primeiro disco, que conta com arranjos de Sandro Haick, Dominguinhos e Thiago Espírito Santo, também presentes na banda, a menina Liv vai do rock ao forró, ao funk, ao samba, com participação especial de Chico Buarque e Daniel D''Alcantara no flugelhorn, um tipo de trompete que alcança tonalidades mais graves, na música "Samba do Grande Amor". Tem gente que vê nessa variedade de gêneros num disco falta de unicidade. Ainda mais quando, no segundo disco, ela resolve mergulhar só em ritmos nordestinos.

O novo disco é o maior tributo que Dominguinhos poderia receber. Fora o fato que - Liv não esconde - é no forró que ela sente o mundo. "Gosto de xote, de baião, mas eu adoro forró. Então, eu falei, nossa eu quero fazer, ainda mais em homenagem ao meu pai, e ele tocando em praticamente todas as faixas, me dando essa honra."

Desde o primeiro disco, a honra também é de quem ouve. Em "Casa Tudo Azul", de Dominguinhos e Fausto Nilo, Liv canta com o pai e a mãe. E é de arrepiar. O que imaginava Proveta naquele clarinete? No segundo disco, em "O Ciúme", de Caetano Veloso, difícil saber onde começa a voz de Liv e a de Guadalupe. Em "Doce Princípio", de 1982, música de Dominguinhos, Clodo e Climério, gravada à época na voz de Guadalupe, agora é na voz de Liv, em dueto com Domingos, que a música renasce.

"É muito legal para ele poder ver esse desenvolvimento da minha carreira, de mudança de repertório e de ver as coisas dele sendo tocadas com muito bom gosto pelo Sandro (Haick)", diz Liv, que teve a difícil tarefa em buscar músicas do pai para o disco, com a ideia de resgatar muita coisa boa, pouco tocada em rádio. Para quem só conhece Dominguinhos por sucessos como "Só Quero um Xodó" e "De Volta pro Aconchego", ficará surpreso com aquela que o inspirou naquele mês de abril, há 29 anos.

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