A inquieta urna

Outra fragilidade da democracia brasileira é essa suposição vigente de que ela se faz apenas na hora de votar, ou seja, de escolher "o mal menor", deixando de lado a percepção da maioria de que a sociedade deveria produzir líderes ou representantes melhores e mais bem vigiados. Associada a isso, há também a suposição de que a aprovação de um governo nas pesquisas contenha tudo que a população pensa a respeito do momento atual, e não apenas um sentimento diluído de que as coisas melhoraram em vez de piorar. Ambos os momentos, o da votação e o da pesquisa, são incapazes de captar boa parte do espectro de reações à classe política. Se estou entre os 20% que acham o governo "regular", sei também que entre os 70% que o dizem "bom" ou "ótimo" não existe necessariamente satisfação ou conformidade com o modo pelo qual o país é gerido. Por trás da aprovação pontual, há um clima de frustração geral.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

Isso talvez explique a resposta que raras vezes vi ao meu texto da semana passada, chamado "Por que não me ufano", nas mais diversas modalidades. No blog, por exemplo, a leitora Fey observou como nos debates - e, acrescento, nas entrevistas concedidas à TV Globo ao longo da última semana - os candidatos lançam dados com pouca veracidade, se esquivam dos temas e não são devidamente confrontados, como ocorre nos debates nos EUA. Fey notou que Dilma e Serra fizeram promessas na área de saúde sem explicar de onde o dinheiro sairia, já que o déficit público não para de crescer; que Dilma afirmou que o Brasil investe "5% ou 6%" do PIB em educação como se esse ponto porcentual não fizesse a menor diferença; e que Serra disse que o governo "tem muitas terras para distribuir", sem dizer quantas, onde e como.

Outro leitor do blog, Gianone, foi na mesma linha: os candidatos dizem "vamos criar mais estradas" ou "vamos urbanizar mais favelas" como se fosse simples assim. Também criticou o fato de que o Brasil exporta carnes, grãos e minérios, mas não produtos industrializados, como máquinas ou tecidos. Por email, Galdino deu boa definição de um problema maior: "O Estado brasileiro é resultado da soberba de um pobre que construiu uma mansão e não tem como mantê-la, a não ser cobrando caro dos "moradores", por meio de impostos e assemelhados." O governo de José Serra foi alvo de muitas mensagens. Uma delas, assinada apenas por Al, fez boa pergunta: "O Serra e seus programinhas... Há tempos o PSDB só dá uma garibada nos problemas, sem solucionar nada. Os pedágios em São Paulo, caríssimos, não deveriam reduzir o IPVA?"

A "zelite" política, que inclui gente de todas as regiões, classes e profissões, obviamente é a mais atacada. Outro leitor, Alex, comenta o vídeo em que Lula e o governador Sergio Cabral dizem que tênis é esporte de "burguês" (pensei que só alguns articulistas antiquados falassem assim ainda) e mandam o entrevistador estudar (sic), entre palavrões. "Aquelas cenas mostram bem do que são feitos nossos políticos." Mas não são apenas eles que deixam tanta gente indignada. Alex também fala dessa aversão de muitos abonados brasileiros ao estudo e ao trabalho; é um grupo que "adora viver à custa do Estado" e acha que "está no século 19, em plena escravidão".

Também no blog, Anna H nota que nem mesmo quem tem acesso à educação e à cultura quer saber disso, embora considere um fenômeno mundial a grosseria dos privilegiados. Sobre as patotas culturais, Flavio, por email, também acrescenta uma observação perspicaz: essas pessoas posam de liberais, mas são extremamente conservadoras. Ao mesmo tempo, não se trata de cair na ingenuidade esquerdista e achar que "o povo sabe das coisas". Volto ao comentário de Fey: "Fora todas as mazelas que você listou, a que mais me deixa enojado é a hipocrisia do próprio povo que se critica dizendo "o povo tem memória curta" em épocas de eleições." Cita o exemplo do ex-ministro Antonio Palocci, coordenador da campanha de Dilma, envolvido na quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo da Costa. "Ninguém fala nada", desabafa.

Por falar em desabafo, recebi um comentário de um leitor, Wlander, que disse concordar com o texto e o imaginou escrito "num momento de ira e desesperança". Respondi que não sentia nada disso enquanto listava as mazelas brasileiras da atualidade. E que sei que em muitos aspectos o Brasil tem melhorado, ainda que lentamente. Mas, acrescentei, "um país não melhora de verdade com esperança, e sim com senso crítico, trabalho duro e espírito público". Como cidadão e como profissional, me sinto na obrigação de dizer que os três itens andam em falta na sociedade brasileira, em especial nas pessoas que têm oportunidades, tomam decisões e lidam com nosso dinheiro.

Cadernos do cinema. A Origem, de Christopher Nolan, pertence a uma linhagem cada vez mais frequente: a de filmes quebra-cabeças que tratam de temas como a confusão entre sonho e realidade a partir de questões da neurologia e contando com os recursos tecnológicos da nossa Era Virtual. Matrix, de Andy e Lana Wachowski (1999), já era um pouco isso, mas nos últimos dez anos a abordagem tem ficado cada vez mais frequente e "fisiológica": Amnésia, do próprio Nolan (2000), Cidade dos Sonhos, de David Lynch (2001), Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, de Michael Gondry (2004), o infantil Coraline, de Henry Selick (2009), ou até Ilha do Medo, de Martin Scorsese (2010), entre muitos outros. O fato de tantas pessoas hoje passarem tantas horas de seus dias conectadas em realidades paralelas, mediadas, tem inspirado o cinema cada vez mais.

Em A Origem (Inception) o que há de mais interessante é a mise-en-scène, ou melhor, a cinemática, a engenharia que tornou possível concretizar a imaginação do diretor. Vemos Paris se curvar sobre si mesma; lutas sem força da gravidade em corredores que giram como os quadros de M.C. Escher; jogos com as escalas e os tempos. Leonardo DiCaprio, cada vez melhor ator, conduz uma equipe - uma arquiteta, um falsário, um químico, o empresário que os contrata e o que se quer levar a dividir sua herança - que entra no sonho e no sonho do sonho, e tudo é feito com tanto apuro que aderimos à hipótese absurda.

A partir da metade do filme, porém, continuamos intrigados pela charada (a culpa que o protagonista carrega é porque teria induzido a mulher ao suicídio?), mas a história se torna uma filme de ação involuntariamente linear, em que a equipe corre contra o relógio para atingir seu objetivo entre socos e explosões. O final ainda deixa um pião como dúvida, mas o filme acaba como acabam 99% dos filmes; alguns desdobramentos da hipótese (e se ele fosse um sonho de sua mulher?) nos ocorrem, só que o labirinto já não bifurca. Ficou faltando ao filme um desafio não de técnica, mas de reflexão, como temos em Brilho Eterno, sobre a incapacidade de delimitar o campo da memória afetiva, ou em Cidade dos Sonhos, sobre o mundo de fantasia de Hollywood.

De la musique. Lady Gaga é mais um desses fenômenos pop que acabam chamando mais atenção por suas atitudes - muitas delas bem mais estudadas e produzidas do que querem nos fazer acreditar - do que por sua música. Mas acho a música boa. Temos escutado bastante o CD The Fame Monster e ela às vezes me parece uma mistura de Madonna (os efeitos dançantes de Bad Romance são muito decalcados dela) e Amy Winehouse (na polêmica e no timbre), ou uma Madonna que sabe cantar e ainda não está presa à coreografia das megaproduções. É música de pista, com boas linhas melódicas e alguns achados verbais ("I want your love, I don"t wanna be friends"), mas ela também sabe fazer R&B, canção romântica, como Speechless. E vai na contramão das cantoras atuais, que lamentam o casamento perdido; não tem vergonha de dizer que gosta de sexo, tem vaidade e é livre para experimentar, em vez de se fechar em pose e caretice.

Por que não me ufano. A semana foi marcada por notícias relacionadas ao Leviatã brasileiro, que no segundo mandato de Lula só aumentou sua voracidade. Ele vai deixar para o próximo governo nada menos que R$ 90 bilhões de restos a pagar, ou seja, sete vezes o orçamento anual do Bolsa Família. O déficit da União continua crescendo, assim como o rombo da Previdência, pois a do setor público atende muito menos pessoas que a do privado e custa a mesma coisa. Enquanto isso, a Petrobras reconhece que sem dinheiro privado não consegue cumprir nem uma pequena parte das promessas que fez a respeito do pré-sal; e o BNDES é suspeito de subsídios irregulares, de tão inchado que foi. Durma-se com um elefante desses.

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