A inglesa que pode desbancar Dan Brown

Chega hoje às livrarias brasileiras o mais novo fenômeno de vendas na Inglaterra, Labirinto (Objetiva, 564 págs., R$ 49,90), da escritora Kate Mosse, que já ameaça a supremacia de Dan Brown e seu O Código Da Vinci. O épico sobre a seita dos cátaros, ambientado na França em duas épocas (séculos 13 e 21), recebeu o British Book Award de melhor leitura no ano passado e vendeu mais de 750 mil exemplares só na Inglaterra. Baseado numa pesquisa sobre a cruzada religiosa contra os cátaros, que culminou no primeiro genocídio europeu, Kate Mosse construiu um romance feminista em que se destacam duas heroínas. A primeira, Alais, recebe do pai, no século 13, um livro misterioso que conteria o segredo do Santo Graal. A segunda é uma jovem professora que, em 2005, descobre dois esqueletos durante uma escavação arqueológica, desencadeando uma sucessão de terríveis acontecimentos. Kate Mosse não quer provocar polêmica com seu livro, ao contrário de Dan Brown em O Código Da Vinci. Nele, Brown não identifica o Santo Graal como o recipiente que conservou o sangue do Cristo crucificado e teria o poder de curar, mas como o rebento que Maria Madalena carrega no ventre (e filho de Jesus, para escândalo dos religiosos). Em entrevista ao Estado, de Londres, por telefone, ela diz que pretendeu apenas contar, por meio da odisséia dos cátaros, uma história de tolerância e amor. Um épico sobre a seita dos cátaros seria um improvável sucesso há alguns anos. O que levou você a se interessar pelos cátaros e a tratar de sua história em Labirinto? Você é religiosa, acredita em reencarnação ou na criação do mundo pelo Diabo, como acreditavam os cátaros? Mais que na religião dos cátaros, estava interessada no sistema de vida e na fé desses homens simples e tolerantes que foram massacrados no século 13. Tudo começou quando eu e meu marido, que é intérprete de francês e espanhol, compramos uma casa em Carcassonne (sudoeste da França, onde existem castelos medievais) por sugestão de minha sogra, que mora lá. Há dez anos, subi a montanha de Montségur, nos Pirineus, e, subitamente, tive a visão de uma jovem em roupas medievais. Já planejava uma novela sobre o Santo Graal, mas ambientada no antigo Egito, quando essa imagem me fez mudar de idéia e transpor a história para a França medieval, usando mulheres no lugar de cavaleiros. De qualquer forma, como disse, meu interesse pelos cátaros era apenas intelectual. Jamais pretendi persuadir os outros com a minha religião. Sou cristã, mas tolerante, como eram os cátaros. A perseguição dos cátaros pela Inquisição, a partir de 1233, na França, resultou no primeiro genocídio europeu. Você pretende com isso alertar o mundo para o risco da intolerância ou queria simplesmente escrever uma boa história? Quando decidi usar mulheres na busca do cálice sagrado não tive a pretensão de escrever uma novela feminista. Da mesma forma, a história dos cátaros não é nenhum pretexto para discutir o preconceito contra minorias étnicas e religiosas na Europa. Tanto que, em Labirinto, existem mulheres heroínas e outras que estão longe desse modelo. Para os cátaros, o que importava era o espírito. Ser homem ou mulher era indiferente, pois eles acreditavam no espírito - e ele não tem sexo. Assim, o que está em pauta é muito mais uma discussão de ordem espiritual que secular. Muitos críticos compararam seu livro ao best seller O Código Da Vinci, de Dan Brown. Foi sua intenção escrever um livro de suspense com fundo religioso ao iniciar as pesquisas de Labirinto, que, aliás, segue os passos da obra de Brown, alcançando quase 1 milhão de exemplares vendidos na Europa? Não pensei em Dan Brown e nem a religião, em meu livro, tem o peso que tem em O Código Da Vinci. Aliás, aconteceu uma história curiosa a respeito dele. Quando estava escrevendo Labirinto, peguei o livro de Brown por acaso numa livraria de aeroporto. Fiquei transtornada pela convergência temática de ambos. Meu coração bateu forte, mas não desanimei. Afinal, queria era escrever um livro à moda antiga, uma declaração de amor a Carcassonne, palco de tantas histórias na Idade Média, e não um livro polêmico usando a religião. Mas gostei de O Código Da Vinci. Alguns resenhistas definiram seu livro não como um épico, no sentido convencional, mas como uma obra essencialmente "européia", vale dizer, sem explosões narrativas e com muita pesquisa. Seria como uma mistura de precisão histórica com discreta invenção, algo assim como a literatura de Mary Renault. A comparação incomoda? Não. Ao contrário. Admiro enormemente Mary Renault. Mas não sou política ou historiadora. Queria escrever algo que agradasse a todo mundo. Muitos novelistas escreveram sobre acontecimentos históricos e religiosos antes de mim, incluindo Mary Renault, mas talvez não tenham se empenhado fisicamente na tarefa. Conheci a região de Languedoc há 17 anos e alimento o projeto de escrever esse livro há mais de 10. Cansei de subir montanhas, explorar cavernas e visitar castelos arruinados para escrever Labirinto, além, é claro, de ter passado todos esses anos debruçada sobre livros de Yves Rouquebert e Anne Brennon que falam dos cátaros. Sua próxima novela, Sepulcro, também será ambientada no sudoeste da França, se não estou enganado, e terá Debussy como um dos personagens. Como você vai relacionar a música impressionista do compositor francês com as cartas de tarô, tema desse novo livro? Tenho interesse especial por música. Cresci ouvindo Debussy e sei que ele consultava regularmente as cartas do tarô, que foram introduzidas na França no século 14 e eram muito populares lá no século 19. Esse interesse pelo ocultismo responderia pela estranha harmonia de algumas de suas peças. É conveniente lembrar que Debussy deixou inacabada sua segunda ópera, baseada no estranho livro de Edgar Allan Poe, A Queda da Casa de Usher, o que reforça sua atração pelo desconhecido. Achei que poderia ser interessante unir uma ópera da qual só se conhece fragmentos com Poe e criar um livro de mistério. Espero que funcione. Ele será publicado no próximo ano. Você costuma citar Margaret Atwood e Graham Greene como suas maiores influências. Margaret é uma Tory, ou seja, politicamente conservadora. Graham Greene era um homem religioso. E você, como se definiria? Nunca pensei nisso (ri). Não pertenço a nenhum grupo político, mas me definiria como uma justicialista, uma idealista. Para mim, o humanismo é a melhor saída. Daí minha identificação com os cátaros. A Europa vive um período muito conturbado. Racismo, intolerância, medo. Como você imagina o futuro do continente europeu? Não sei. Sou muito otimista. Os europeus nunca estiveram tão ligados e acho que estão habilitados a aceitar o multiculturalismo melhor que em outras épocas. É só questão de tempo. Como apresentadora de um programa literário na BBC, Readers and Writers (Leitores e Escritores), quem são os autores que você considera os mais importantes na Grã-Bretanha? Há tantos. Seria injusto citar dois ou três, mas imediatamente lembro dos nomes de Sarah Waters, que ganhou o prêmio Orange de Literatura, da qual sou co-fundadora e diretora honorária, e Helen Dunmore.

Agencia Estado,

29 de abril de 2006 | 18h02

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