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A infância absolvida

Faz 60 anos que um ótimo livro foi recebido com insultos e até pichação feita com fezes

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2017 | 02h00

Como seriam recebidos, hoje, os contos de Boca do Inferno, massacrados pela crítica no seu lançamento, 60 anos atrás? 

O autor, Otto Lara Resende, ainda se fazia esta pergunta pouco antes de morrer, em dezembro de 1992, e não encontrava resposta. Ressabiado, mais do que isso, calejado, ele resistiu até o fim aos muitos convites para reeditar o livro. Sofria, é verdade, daquilo que Hélio Pellegrino, psicanalista e poeta, além de amigo vitalício, diagnosticou como sendo bibliofobia. Otto publicou pouco e, em todos os casos, escolheu permanecer estacionado na primeira edição. 

No final da vida, parecia disposto a abrir uma exceção na sua bibliofobia, a julgar pelo empenho que pôs na empreitada de “despiorar”, como dizia, seu único romance, O Braço Direito, cujo último capítulo não chegou a finalizar. Também no fim, cedeu à pressão de outro amigo, Dalton Trevisan, e pinçou em seus livros alguns contos para O Elo Partido. Só depois de morto sua obra pôde voltaria às livrarias.

Nenhuma das recusas a republicar foi tão empedernida quanto a que trancou Boca do Inferno. E olha que Otto Lara Resende fazia fé nesse livro. Mais do que simplesmente juntar uns contos e mandar para a editora, como fazem tantos autores, bons ou maus, ele concebeu uma coletânea em que as 7 histórias, embora autônomas, configurassem unidade.

Todos os contos, ali, de fato, são ambientados em alguma cidade pequena do interior em outros tempos, fatalmente parecida com a São João del Rei onde Otto nasceu e viveu até os 16 anos, e os protagonistas são crianças. Mas a infância, nas histórias de Boca do Inferno, está bem longe das idealizações róseas dessa quadra da vida, quase sempre vista como jardim fechado da inocência e da pureza. Os meninos e as meninas, nesses contos, não são exatamente angelicais. Ao contrário, já se acham no exercício pleno de maldades que supostamente seriam exclusividade dos adultos. 

Daí o escândalo que se armou quando o livro foi lançado, no início de 1957. Para escrever o esplêndido posfácio da edição mais recente de Boca do Inferno, obra que considera notável, Augusto Massi garimpou 35 textos de crítica publicados na época – e constatou que apenas 5 deixaram de desfechar bordoadas de variada contundência. 

Mais de um crítico viu, na meninada de Otto, jovens delinquentes como aqueles de que a lei mandava recolher ao tenebroso SAM, o hoje extinto Serviço de Assistência aos Menores do Rio de Janeiro. Temístocles Linhares falou em “monstrinhos de Otto Lara Resende”. Wilson Martins julgou estar diante de falta de imaginação, estilo banal e temática lugar-comum. Assis Brasil detectou, na forma e no conteúdo, velharias de “valor medíocre”, além de mau gosto. Quanto a Roberto Simões, por pouco não chamou a polícia, depois de farejar “falta de pudor” e “criminalidade” no conto Três pares de patins.

O próprio pai do contista, o professor Antônio Lara Resende, do alto de um catolicismo intransigente, lhe puxou as orelhas numa carta. Fernando Sabino contou a Otto que um religioso, amigo dos dois, ouviu lamuriar-se o professor Antônio: “Logo o meu filho, um educador! Que concepção de infância!” Numa entrevista a Leo Gilson Ribeiro, quase 20 anos depois do lançamento de Boca do Inferno, o escritor resumiria o purgatório que lhe rendeu este livro sem pecados: “Fui espinafrado em todos os tons. Mereci até um sermão. Recebi carta anônima. Escreveram na minha porta com tinta fecal.” Sim, pichações com cocô, obradas em nome da delicadeza de atos e sentimentos. 

Em outra entrevista, na mesma época, Otto admitiu que as críticas o traumatizaram: “Desabou sobre mim uma saraivada de insultos e incompreensões”, rememorou. A virulência das reações foi para ele uma surpresa, pois, conforme lembrou, em Boca do Inferno “não tem um só palavrão”, e “a violência e o sexo são apenas sugeridos”. A repulsa generalizada, achava Otto, talvez se explicasse pelo fato de os personagens infantis “não serem convencionais, segundo o perfil romântico da infância pura e inocente”. 

Por via das dúvidas, decidiu pôr sobre Boca do Inferno, livro hoje absolvido e canonizado, sua pedra mais pesada. Das 7 histórias, aceitaria exumar apenas duas – uma das quais, Três Pares de Patins, por insistência minha, na revista Status, em 1980, não sem antes escanhoá-la no capricho, pois na releitura considerara o conto “excessivamente barroco, com muita graxa”. 

Reescrevedor impenitente, ao longo das décadas, na moita, Otto Lara Resende andou mexendo também nas histórias de seu primeiro livro, O Lado Humano, de 1952. No seu escritório da rua Piratininga, na Gávea, ele me deixou ver um exemplar coberto de emendas e anotações. Por que não sacar logo uma segunda edição revista desse livro que encantou, entre outros, uma leitora rigorosa como Rachel de Queiroz, autora de belo artigo sobre ele?

Seria igualmente desejável que se buscasse saber o que foi feito dos originais de um livro que Otto começou a escrever depois de deixar a TV Globo, nos anos 80. Ambientado no Rio de Janeiro, a história teria como personagem um poderoso empresário. Ao que se conta, aquele work in progress, a que uns poucos próximos tiveram acesso, não foi encontrado em meio à bagunça bem administrada dos papéis de Otto Lara Resende. Terá ele, no rápido processo que o levou à morte, tido tempo e condições para destruir uma obra que talvez considerasse ainda longe de estar no ponto?

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