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Fábio Porchat
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A Índia é aqui

Hoje, estou indo embora da Índia. Fiquei 20 dias circulando pelo norte do país. Depois desse pequeno período, consigo fazer uma breve avaliação do que passei por aqui. Um país incrível, diferente, interessante, cheio de informação. Mas o que me deixa triste é me dar conta de que, tendo passado por Egito, Marrocos, Vietnã, Camboja, Ruanda, Tanzânia, Quênia, e agora Índia, o único lugar em que realmente eu tive medo de andar na rua foi no Brasil.

Fábio Porchat, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2015 | 02h00

Ser roubado, ameaçado de morte, ter que se preocupar com a possibilidade de andar a pé, ter que andar de carro com o vidro fechado, isso é uma coisa nossa. Eu falei pro guia aqui na Índia que, no Brasil, as pessoas matavam para roubar um relógio e ele não entendeu. Achou que eu tinha falado errado. Tive que explicar algumas vezes até que ele compreendesse e se assustasse com a minha informação. Vivemos hoje uma guerra civil escancarada e não assumida. E isso vem sendo incutido na nossa sociedade de tal forma que nos acostumamos com a nossa violência. Não nos surpreendemos ao saber que fulano morreu num assalto às 3 da tarde.

Quando avisei que vinha pra cá, todo mundo me perguntou se eu tinha certeza, que a Índia era um país paupérrimo, a miséria era uma coisa nunca dantes vista, que era melhor eu ir me preparando... Depois dessa temporada por aqui, tive a sensação de que o brasileiro é que não se assombra mais com a própria desgraça. Vejamos: crianças na rua pedindo dinheiro. Mendigos jogados no chão, na sujeira. Idosos pedintes. Gente doente, implorando por moedas. Adultos que usam seus filhos para sensibilizar os passantes e ganhar um dinheirinho. Rios poluídos. Cidade com lixo no chão. Estou descrevendo que país, agora? Índia ou Brasil? Pois é. Tudo que vi por aqui, vi por aí. Sendo que por aqui não vi crianças na rua cheirando cola, assalto, arrastão, roubo à mão armada...

A Índia é mais pobre que o Brasil, isso é um fato. O trânsito aqui é uma loucura, tudo é muito empoeirado e sujo, a população é pobre, mas não é uma população assustada, medrosa, temerosa do que pode acontecer. Isso faz tanta diferença. O que acontece no nosso país, hoje, é tão preocupante. E não há uma luz no fim do túnel.

Triste saber que estou voltando para um país tão rico em pessoas, ideias, culturas, tradições e tão pobre no âmago. Somos uma boa alma, com um corpo apodrecido. É tão fácil amar o Brasil e tão difícil, ao mesmo tempo. Matar é cotidiano quando, matar, não deveria nem ser uma possibilidade. Estamos longe de ser a Índia. No bom e no mau sentido.

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