A independência da minha filha

De vez em quando consigo levar minha filha de 19 anos até sua casa a pé. Ela mora perto. Mas nós dois andamos ocupados e é difícil conciliar os horários. Maria estuda de noite e eu, confesso, durmo cada vez mais cedo, no inverno, sobretudo.

Mattew Shirts, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2010 | 00h00

Saímos de manhã juntos na semana passada e fui contando como era gostoso o último livro de Laurentino Gomes - com quem já tive o prazer de trabalhar, diga-se. Chama-se 1822. Mas traz o subtítulo: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil - um país que tinha tudo para dar errado. É a continuação do seu megabest-seller, 1808.

Assim que saiu 1822 corri até a Livraria da Vila na Fradique Coutinho. Adoro um livro de história bom de ler. Todos deveriam ser assim. Não o são porque escrever é difícil. Encontrei-o logo na entrada da livraria numa pilha de exemplares do meu tamanho. As vendas prometem.

Estou quase no fim da obra já. (Não se preocupe que não vou revelar como termina.) Enquanto descíamos a ladeira, contava eu para Maria do livro e de como era fascinante comparar a independência do Brasil com a dos Estados Unidos. Não digo isso apenas por ser eu oriundo de lá. Os dois maiores países do continente americano pedem para ser comparados. Além de enormes, foram colonizados por potências europeias, tiveram grandes populações indígenas, viveram do trabalho escravo e depois atraíram comunidades imensas de imigrantes. Convenhamos, as semelhanças são muitas.

Mas quanto mais estudo, mais chego à conclusão de que um é quase o oposto do outro. Ou talvez a imagem espelhada e contrária, como teria dito meu saudoso guru Richard M. Morse. Vejo isso nos dias de hoje. No momento da independência fica cristalina a distinção. As 13 colônias americanas buscavam com veemência autonomia uma da outra. Mas se não me engano, todos queriam expulsar de vez a monarquia inglesa em nome da liberdade, do poder local, da democracia e do direito de cada um fazer o que bem entende (desde que não fosse escravo).

No Brasil, a independência foi feita em nome da unidade do País, mostra Laurentino, do poder central e da permanência da monarquia. O "Fico" é isso. Nas margens do Ipiranga, Dom Pedro I, o monarca, aceita permanecer para garantir a autonomia do Brasil e sua integridade territorial. É justo o oposto do que aconteceu no norte do continente.

Maria, acredito, desconfiou que eu estivesse favorecendo o processo histórico americano na minha comparação. Enquanto tentávamos atravessar a Rua Abegoaria, em frente do posto da Petrobrás, próximo à Vila Madalena, ela saiu em defesa da independência brasileira. "Se fosse eu, pai, também teria sido monarquista naquele tempo. Pense bem. Você vive numa colônia modorrenta e isolada, onde nada acontece. De repente, aparece uma corte europeia inteira e tudo vira festa o tempo inteiro, tanto na rua como na alta sociedade, maior balada, um monte de gringos, cientistas e artistas de toda parte. Era muito mais interessante."

A desconfiança da Maria era infundada. Minha comparação era descompromissada. Mas achei seu ponto de vista original. Trazia também aquele frescor e entusiasmo da juventude.

Verdade seja dita, eram muitas as diferenças entre os dois países naqueles tempos. No momento da independência os EUA eram menores do que o Brasil. Sua sangrenta expansão para o oeste viria mais tarde e seria incorporada à identidade nacional como "destino manifesto". Garantir a permanência do sul na "União" exigiria, também, a pior guerra da sua movimentada história belicosa.

Enquanto isso, o Brasil independente já nasceu grande, um "gigante em berço esplêndido", como se canta. Não foi pacífica a separação. Houve diversas batalhas, a maior delas na Bahia. Tanto é que os baianos ignoram o 7 de setembro. Mas diferentemente do restante do País festejam "o dia 2 de julho", escreve Laurentino, "data da expulsão das tropas portuguesas de Salvador em 1823. E só perde em grandiosidade para o carnaval".

Eu não sabia disso. Ou se já soube, esquecera. No ano que vem estarei lá. Leia 1822. Você vai descobrir cada coisa fascinante. (Só a biografia de Cochrane daria outro livro.) É uma história bem contada.

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