A indagação política de Nanni Moretti

Com elenco especial, Habemus Papam exige reflexão, desconcerta no desfecho e é um dos acertos da 64ª edição

Luiz Carlos Merten / CANNES, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2011 | 00h00

É curioso como num grande festival as imagens vão dialogando entre si. Diferentes filmes revelam suas conexões. Michel Petrucciani, belo documentário de Michael Radford que ressuscita o gigante do jazz morto em 1999 - ele era anão, tinha problemas nos ossos e isso não o impediu nem de ser um grande artista nem um grande amante -, toca para o papa no Vaticano. A expressão de João Paulo II é de beatitude. Mas João Paulo morre na abertura de Habemus Papam, o novo Nanni Moretti, também exibido pela manhã.

O conclave reúne-se para eleger o novo pontífice. Dois ou três escrutínios vão eliminando os favoritos e aí se impõe a improvável candidatura desse prelado interpretado por Michel Piccoli. Do nada, ele ganha o primeiro plano, é eleito e, na hora de assomar à janela para fazer-se conhecer ao mundo, tem uma crise. O papa não quer assumir seu posto. A burocracia do Vaticano entra em pânico, um psicanalista é chamado para tratar do caso - e é interpretado pelo próprio diretor Moretti.

Homem - e artista - de esquerda, Moretti, naturalmente, não crê em Deus, mas isso não o impede de se aproximar com respeito do Santo Padre. Logo de cara, suas discussões com a Cúria são provocativas - a alma e o inconsciente são coisas diferentes, adverte um cardeal. A multidão, face à Praça de São Pedro, faz vigília, e suspense. O papa foge, perambula por Roma, invade uma trupe de teatro que representa Chekhov.

Seu sonho, ele revela, era ser ator. A religião, o papado, como o próprio Estado no mundo contemporâneo das imagens, são todos espetáculos. E o grande espetáculo de Habemus Papam é o seu elenco, com um Piccoli em estado de graça e um Jerzy Stuhr não menos admirável. Você sabem quem é. Esse ator e diretor polonês esteve em São Paulo há alguns anos, homenageado pela Mostra. Faz o assessor de imprensa que vela justamente pela imagem do Vaticano.

O papa, vagando anonimamente pelas ruas de Roma, evoca um antigo clássico de William Wyler, A Princesa e o Plebeu, com a diferença que Moretti não filma um romance e sim uma indagação política e existencial. Seu filme, tão rico, desconcerta no desfecho. Haveria outro final possível? Habemus Papam exige reflexão, mas é certamente um dos acertos deste festival que recém está começando. Piccoli e Stuhr, magníficos - como Tilda Swinton, igualmente notável em We Need To Talk About Kevin, de Lynne Ramsay, como a mãe que não suporta o filho e ele se revela um "monstro". O festival desenha-se. Fora de concurso, Radford revive a arte de Petrucciani. Ele morreu cedo, aos 36 anos. Seu sonho irrealizado, conta uma das mulheres, era ter pernas para passear com ela na praia. Faltaram as pernas a Petrucciani, mas as mãos eram mágicas e, com elas, ele foi um grande da música.

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