A incansável Karin Fernandes

Com ênfase em obras dos séculos 20 e 21, a pianista lança seu terceiro álbum no ano, dedicado a autor brasileiro

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2013 | 02h17

Este tem sido um ano movimentado para a pianista Karin Fernandes. Em maio, ela lançou, ao lado da violoncelista Adriana Holtz e da violinista Ana de Oliveira, um disco dedicado a trios escritos por compositores das três Américas. Em junho, outro CD, com a Seresta, de Camargo Guarnieri, gravada em concerto com a Sinfônica da USP. E, amanhã, ela lança na Sala São Paulo, dentro da série Encontros Clássicos, mais um álbum, agora inteiramente dedicado a composições de Edson Zampronha. Nada mal para uma artista que, logo cedo na carreira, resolveu fazer da música dos séculos 20 e 21 sua atividade cotidiana.

"Talvez tenha sido um processo inconsciente", diz a pianista. "O que eu sentia, desde cedo, era a sensação de que, ao tocar o mesmo repertório de sempre, não estava criando nada." Talvez por conta disso, na final do Prêmio Eldorado, que ela venceu em 1999, o repertório já trazia obras do século 20. "Toquei Ravel e Debussy. E ali me dei conta de que poderia ir além, em direção a peças mais próximas de nosso tempo. A música, qualquer música, ganha vida quando é tocada. Mas estar próxima dos compositores, interpretando obras pela primeira vez, me dá um prazer especial."

Em S'io Esca Vivo, com obras de Zampronha, brasileiro radicado hoje na Espanha, a estreia se dá com a peça Composição para Piano VII, escrita especialmente para a pianista. O disco vem sendo trabalhado e pensado desde 2009, quando ela interpretou o concerto para piano do compositor em Aracaju, com a Sinfônica de Sergipe regida pelo maestro Guilherme Mannis. Todas as obras do disco foram escritas entre 2005 e 2013, mas, apesar de próximas no que diz respeito à data de composição, oferecem, segundo a pianista, múltiplas facetas do compositor. "É bom perceber como, dentro da obra de um só autor, há vários mundos a explorar. Isso me interessa particularmente."

É nesse sentido que ela conta ter interesse em, cada vez mais, preparar discos inteiramente dedicados a um compositor. Afinal, a diversidade é algo de que Karin diz não abrir mão - e isso significa estar aberta a diferentes correntes estéticas. "Decidir que, no cenário contemporâneo, existe apenas uma possibilidade seria tão redutor para mim, pessoalmente, quanto limitar meu repertório aos clássicos e românticos", ela diz. Assim, em sua discografia, cabem tanto um álbum dedicado à música do compositor Edmundo Villani-Cortes, herdeiro da linhagem nacionalista, quanto uma investigação das propostas estéticas de Maurício Kagel em seu Trio nº2.

A obra do autor argentino faz parte de Três Américas, do Trio Puelli, do qual Karin, Adriana e Ana fazem parte, e que inclui ainda peças de Leonard Bernstein, Claudio Santoro, Roberto Vitorio e Alejandro Cardona. "Eram obras que trabalhávamos já há algum tempo, com exceção de Cardona, que surgiu de pesquisas que fizemos sobre a produção na América Central. No fundo, o objetivo não era fazer um panorama formal da música do continente, mas apenas mostrar cinco peças que sugerem algo novo para o público. Mesmo o caso do Bernstein, autor mais conhecido, é interessante, porque poucos conhecem ou mesmo sabem da existência deste trio."

A gravação ao vivo da Seresta de Guarnieri rendeu bons frutos e, no ano que vem, ela vai registrar a peças mais uma vez com a Sinfônica da USP e o maestro Ricardo Bologna, tendo como objetivo um disco inteiramente dedicado ao compositor. Também em 2014, ela grava com o violinista Emmanuele Baldini, spalla da Osesp, um CD com sonatas de Glauco Velásquez e Leopoldo Miguez. Há ainda planos de gravar Shostakovich e fazer um livro-CD dedicado a Debussy. Antes, porém, no dia 25, ela toca com a Sinfônica da Unicamp, em Campinas, o Concerto nº 3 de Beethoven. "Ele é o grande gênio e acho incrível a maneira como faz a orquestra e o solista dialogarem."

A mesma busca pela liberdade que a levou ao século 21, afinal, não pode impedi-la de voltar ao repertório clássico e romântico. "Só tenho um problema, na verdade, com Mozart, não me entendo com sua música. Já falei isso outras vezes e as pessoas quiseram me matar, mas é verdade", diz, rindo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.