A importância de ser fiel ao original ENTREVISTA

Chega ao Brasil a primeira versão de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, mais enxuta e com 500 novas palavras

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2013 | 02h09

Com o lançamento de O Retrato de Dorian Gray em 1891, o irlandês Oscar Wilde (1854-1900) tanto conheceu a imortalidade (o livro logo se tornou uma metáfora da decomposição dos valores éticos de uma sociedade paralisada por convenções hipócritas) como a mortalidade - ao narrar a história do homem que faz pacto com o diabo e seu retrato envelhece (e exibe toda a sua dissolução) enquanto ele permanece eternamente jovem, a obra foi uma das provas usadas no julgamento que o condenou, em 1895, por práticas homossexuais, a dois anos de prisão, da qual jamais se recuperou, sucumbindo cinco anos depois de meningite em um quarto de hotel barato em Paris.

Dorian Gray foi publicado pela primeira vez como livro em 1891, mas era uma versão diferente da editada em capítulos no ano anterior na revista Lippincott's. Ousado para a época, a história foi alterada pelo próprio Wilde em resposta às duras críticas. Assim, a versão original, equivalente ao manuscrito do autor, nunca fora oferecido ao público. É essa edição que a Biblioteca Azul (selo da editora Globo), lança agora no Brasil. Trata-se de uma versão mais enxuta, apesar da adição de 500 palavras que foram cortadas pelo primeiro editor de Wilde. O trabalho foi organizado por Nicholas Frankel que, por e-mail, respondeu às seguintes questões.

Em sua opinião, o texto original é de fato "melhor" que a versão publicada em livro em 1891?

O principal benefício para a obra é duplo: ao restaurar o texto cortado, apresento uma versão do romance mais fiel às intenções intelectuais e imaginativas de Wilde - uma versão mais franca e mais clara em sua representação do erotismo que move o personagem principal, e também o pintor Basil Hallward. Também é uma versão mais curta, ágil, e mais unificada do que a que apareceu em 1891. Devemos lembrar que não foi apenas o primeiro editor de Wilde que censurou seu trabalho: o próprio escritor fez isso no processo de preparar o livro para a edição de 1891, em resposta ao clamor que cercou a versão publicada anteriormente (quando alguns resenhistas insinuaram que Wilde e seus editores deviam ser processados). A essa altura, Wilde tirou o material mais incendiário, particularmente sua caracterização de Basil Hallward, embora tenha também acrescentado muita coisa. Se algumas mudanças feitas para a versão de 1891 podem ser vistas como melhorias, outras podem ser facilmente percebidas como prejudiciais à história, em particular na maneira como introduzem elementos sentimentais, desajeitados ou melodramáticos absolutamente estranhos à estética de Wilde (estou pensando aqui, sobretudo, na subtrama de James Vane). O que está claro é que muitas mudanças feitas na preparação da edição do livro não foram necessariamente, ou ao menos principalmente, feitas para melhorar o romance. Algumas foram questões de necessidades legais e práticas. Wilde não era, por natureza, um romancista - ele com certeza nasceu um contador de histórias, mas sua melhor ficção tende a ser concisa, ágil, alegórica até em seus efeitos. Esse é o caso da versão não censurada de Dorian Gray. Embora inegavelmente mais curta que a de 1891, ela é, como muitos de seus contos, completa em si mesma.

Essa versão deve servir como suplemento ao texto padrão e não como substituta, como disse um crítico?

Se só pudéssemos ler uma versão de Dorian Gray, provavelmente desejaríamos escolher a não censurada - não por ser uma ficção melhor, mas também como uma representação mais verdadeira do que Wilde pretendia originalmente. Os leitores que quiserem explorar o romance em profundidade, porém, estarão interessados em ver como o texto foi alterado no curso da publicação, em particular pelo próprio Wilde. Portanto, sim, a versão não censurada deve ser lida por esses leitores junto com o texto de 1891. Entretanto, eu diria que o texto de 1891 vai parecer cada vez mais o "suplementar" ou secundário do romance - e o não censurado tenderá a ser visto como o principal, ao menos para os estudiosos sérios do romance.

Foi difícil situar Wilde e seu romance no contexto de sua época?

Foi surpreendentemente fácil, já que o romance é virtualmente um retrato da Londres nos tempos de Oscar Wilde. Ele está profundamente enraizado no mundo em que o próprio Wilde vivia - aliás, está mais intimamente ligado à vida do próprio Wilde do que em geral se reconheceu durante boa parte do século passado. Muito mais que a ficção de Thomas Hardy ou de Virginia Woolf, o romance representa e, em certo sentido, encarna a época em que nasceu. Como no caso das peças que mais o celebrizaram, Wilde usou o romance para atingir um público específico. Embora o autor seja geralmente visto como um consumado esteta, sua obra mantém um diálogo constante com o mundo real.

O conhecimento hoje da dolorosa história posterior de Wilde lança uma sombra sobre Dorian Gray?

Sempre foi difícil separar o romance dos acontecimentos reais da vida de Wilde. Ao defender o romance na imprensa, em 1890, e de novo em seu Prefácio à edição de 1891, Wilde tentou assegurar que sua vida pessoal tinha um papel mínimo ou nenhum em como se entendia o romance. Mas era uma batalha perdida - e, talvez, contraditória por si mesma - desde o começo. O romance foi para Wilde um meio tanto de revelação como de autoocultação. Não custa lembrar que Dorian Gray foi usado contra Wilde no tribunal em 1895, quando foram feitas associações com a história pessoal de Wilde. Mas, hoje, ele é mais icônico, e sua história pessoal mais bem conhecida do que em seu tempo. Por isso, sim, no sentido de que a história subsequente de Wilde é uma parte aceita da cultura popular e da história moderna, ela lança uma sombra sobre Dorian Gray, e também sobre muito mais da obra de Wilde (quem consegue assistir à A Importância de Ser Prudente sem refletir que a busca de uma vida dupla secreta, e os ataques levianos ao casamento moderno não refletem as próprias circunstâncias e valores de Wilde?). No entanto, seria um erro ler o romance simplesmente como um roman-à-clef (sobre a vida real) ou como uma alegoria da vida de Wilde. No mínimo, é uma meditação complexa sobre o poder da arte, além do que significa viver aberta e plenamente.

A despeito de suas metamorfoses, O Retrato de Dorian Gray ainda é uma história poderosa e eletrizante. O que acha de sua dicotomia entre o bem e o mal?

Sim, continua uma história poderosa e eletrizante, mas isso ocorre, em parte, porque ela não contém soluções morais simples ou fáceis, ao menos em sua versão original. Dorian é um herói ou um vilão? É impossível dizer - ele contém elementos de ambos - porque o mecanismo moral do romance é, de fato, muito complexo, e pode nem mesmo ser o mais importante de seus elementos. Nas primeiras versões do romance, todos os personagens principais eram apresentados com muita simpatia, tanto que é impossível, ou ao menos insuficiente, ler a história como uma parábola moral. A dicotomia entre bem e mal é mais clara e simplesmente articulada na versão de 1891, mas em detrimento do romance como uma obra de arte complexa e humana - Wilde estava então sob uma pressão considerável para esclarecer em que pé ele estava moralmente, afinal. Eu sugeriria aos leitores para observar cuidadosamente a delicadeza e ambiguidade com que Wilde arquiteta o desenlace do romance de um ponto de vista moral, na versão sem censura. Ela fica bem mais poderosa e eletrizante, como resultado, do que a versão de 1891, na qual Wilde claramente se sentiu obrigado a enfatizar certas considerações da moral convencional em sua apresentação do ato de encerramento do romance.

NICHOLAS FRANKEL

PESQUISADOR INGLÊS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.